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CORONAVÍRUS

Coreia do Sul: “ medidas efetivas, mas sacrifícios para os trabalhadores”

Detecção massivas, contenção de enfermidades, baixa taxa de mortalidade. Alguns meios de comunicação internacionais falam de um “milagre coreano”. O suplemento de semanal da Révolution Permanente entrevista Yeon-Hong, militante da NoHeTu (Nodong Haebang Tujeng Yeondae) e editor de seu periódico.

terça-feira 24 de março| Edição do dia

Révolution Permanente: A OMS e muitos analistas assinalam a resposta das autoridades coreanas, que estão colocando em marcha campanhas de testes massivos, como modelo para o controle eficaz da epidemia do COVID-19. A realização de testes massivos parecem haver sido uma medida séria não apenas para conter e combater o vírus se não também para evitar uma quarentena massiva e autoritária. Pode explicar em que consistem exatamente estas medidas?

Yeon-Hong: Quando começou a crise do COVID-19, o governo pediu uma resposta contundente. A administração de Moon Jae-in é consciente de que muitas pessoas são sensíveis aos problemas de seguridade depois do incidente do barco Sewol na administração anterior. Muita gente lutou para a condenação do antigo presidente Park. O presidente Moon teve que parecer diferente de seus antecessores para manter a legitimidade de seu governo. Este é a tela de fundo para esta intensa prova da administração do governo de Moon.

Creio que este tipo de política é necessária para combater ao COVID-19 e reduziu a taxa de mortalidade do vírus na Coreia do Sul. Pelo contrário, o governo japonês se nega a generalizar os testes e opta por ocultar a situação. Muitas pessoas morreram sem saber se estavam infectadas com o coronavírus. Porém, a administração de Moon segue esta política de maneira burguesa, que dizer, de maneira em que o peso da crise recai unicamente nos trabalhadores. Algumas pessoas usam o caso da Coreia do Sul como um “modelo” a seguir, mas deveríamos ver o que está detrás deste modelo. Como sabem, o número de testes realizados na Coreia do Sul é imenso. Temos que nos perguntar quem está levando a cabo estas provas. São os trabalhadores. Trabalham muitas horas com pouco descanso. Nossa preocupação é que possam morrer de exaustão, não do vírus. De fato, existem casos em que funcionários públicos morreram por excesso de trabalho. A Coreia do Sul é conhecida pelas largas escalas de trabalho e muitos trabalhadores estão morrendo como resultado. No caso da crise de saúde do coronavírus, é o mesmo problema. Esta é a realidade detrás do “modelo” sul-coreano.

RP: Pode explicar mais sobre o caso do barco Sewol?

YH: Em 16 de abril de 2014, um barco ( chamado Sewol) que transportava estudantes e professores em uma viagem escolar encalhou no mar. Neste acidente morreram 304 pessoas. Poderiam terem sido salvas muito mais pessoas, porém o governo de então não era muito ativo em seus esforços para salvar vidas. A polícia resgatou o capitão e a sua tripulação que havia escapado primeiro. Ordenaram aos estudantes permanecerem tranquilos (“não se movam”). Os estudantes obedeceram as ordens e por isso demoraram para escapar e morreram. No momento, a causa do naufrágio ainda não está claro, mas é óbvio que o risco foi aumentado ao manter um navio antigo em operação com o único objetivo de reduzir custos e transportar uma carga muito grande para obter mais lucro. Houveram greves para exigir a verdade sobre o naufrágio e para exigir que os responsáveis sejam punidos. Estas greves foram seguidas de uma severa repressão por parte do governo Park. Este incidente intensificou a desconfiança social com Park e plantou publicamente perguntas sobre “ o que é o Estado”. Por um lado, a autoridade do Estado se debilitou e por outro lado, a ideia de ter que viver por seus próprio meios sem esperar ordens ou apoio (“nada te ajudará”) se tornaram mais forte.

RP: Qual é a situação atual da Coreia do Sul com respeito ao surto de coronavírus?

YH: Em 13 de fevereiro, o presidente Moon anunciou que esta situação chegaria logo ao fim. Porém, desde então, o número de infecções aumentaram consideravelmente. Já agora mais de 8.000 pessoas infectadas e o número de mortos chega a 100. A propagação parece ter desacelerado um pouco, mas nada pode estar seguro. Todos usam máscaras quando pegam o ônibus ou metrô. E vemos longas filas em frente a farmácias todos os dias para comprar máscaras.

Muitas vendas e pequenos negócios fecharam. Como resultado, os trabalhadores têm perdido seus empregos ou se vem obrigados a entrarem de licença sem receberem seus salários. Houve aumento do racismo. Alguns coreanos estão expressando sentimentos racistas em relação a população chinesa. Mas ao mesmo tempo os coreanos sofrem discriminação racial nos Estados Unidos e Europa. a ansiedade e o sentimento de medo só se estendem em toda parte.

RP:O que pode dizer sobre a precarização e a epidemia? E como funciona o sistema de saúde na Coreia do Sul?

YH: O COVID-19 revela o verdadeiro estado da sociedade sul-coreana. Pessoas com deficiência que estavam confinadas a um hospital foram coletivamente infectadas com o vírus. Eles não foram tratados adequadamente e, portanto, houve várias mortes. A ajuda do governo a pessoas com deficiência é muito inadequada.

O mesmo se aplica aos trabalhadores imigrantes. Os direitos dos trabalhadores migrantes são muito débeis na Coreia do Sul. Como muitas vezes tem que trabalharem ilegalmente, sendo particularmente difícil conseguirem máscaras ( necessitam de documentos de identificação para comprar máscaras nas farmácias). Na realidade, este é o caso de todos os trabalhadores informais. Os capitalistas, que sempre querem dividir os trabalhadores também discriminam os trabalhadores informais ao proporcionarem máscara de boa qualidade e em quantidade suficiente aos trabalhadores (registrados) em tempo integral, mas aos informais proporcionam máscaras de má qualidade ou em quantidades insuficientes e não aplicam medidas de quarentena, como esterilização.

Creio que o sistema de saúde na Coreia do Sul é mais barato e melhor que do Estado Unidos, que é o país mais capitalista. Mas devido aos baixos salários, ir ao hospital segue sendo uma carga pesada para os trabalhadores coreanos. O mais contraditório é que inúmeros trabalhadores morrem em acidentes laborais em seus locais de trabalho, assim que sentido tem um bom sistema de saúde nessas condições?

RP: Os últimos governos da Coreia do Sul impuseram medidas de austeridade no sistema de atenção à saúde?

YH: Sim, As administrações anteriores quiseram impor medidas de austeridade no sistema de saúde. Por exemplo, o governo anterior fechou hospitais públicos na cidade de Jinju. A razão que deram foi que o hospital era deficitário e ineficiente.Isso foi em 2013. Quando o MERS-Cov se estendeu em 2015, e inclusive agora com o COVID-19, provocou muitos danos nessa zona

Este governo é diferente? Não, não é diferente. Moon prometeu fortalecer o sistema de saúde antes de ser presidente, mas depois disso, não fez nada. Na Coreia do Sul, os hospitais públicos representam apenas 5,4% da infraestrutura sanitária total. Esta é a pior porcentagem entre os países da OCDE( Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Contudo, a administração de Moon não parece ser diferente das anteriores, isso quer dizer, impulsiona a desregularização em lugar de fortalecer o sistema de saúde pública.

RP: Podemos estabelecer uma comparação entre o surto do COVID-19 com o surto de SARS em 2003 e de MERS em 2015?

YH: Quando o SARS se propagou em 2003, a Coreia do Sul não se via muito afetada e, com sorte, teve poucos casos. O MERS golpeou duro em 2015. Nesse momento, o governo não se comunicava de maneira transparente e os hospitais não estavam preparados para tratar doenças infeciosas. Houve surto de infecções nos melhores hospitais da Coreia. O surto de MERS nos fez darmos conta da importância de responder a aparição de novas enfermidades infecciosas. Como resultado da experiência, se reconhece a importância da divulgação transparente da informação e a resposta rápidas e ativas. Como resultado a capacidade de resposta a tais eventos é melhor agora do que no passado. Mesmo assim, segue faltando um plano de desenvolvimento do sistema de saúde pública para fazer frente com eficácia a estas situações.

RP: Pode nos dar alguns detalhes sobre a política contra o COVID-19? Que tipo de medidas o governo está tomando?

YH: A administração de Moon está publicando informações de maneira transparente sobre como respondeu a crise do COVID-19. Quando uma pessoa infectada é diagnosticada em um lugar, a informação é comunicada aos cidadão através de mensagens de texto ( nos smartfones). São revelados o itinerário e os lugares visitados pela pessoa infectada. Como ja havia mencionado, o teste é rápido, generalizado, e estando rapidamente diagnosticada a pessoa, todos que os que estiveram em contato com ela são submetidos ao teste.

Não temos que nos preocuparmos com o preço porque o teste é gratuito se realizada por receita médica ( o teste custam 160.000 won, aproximadamente 120-130 dólares, se realizados por seus meios sem prescrição médica). Sem esperar que os pacientes vão ao hospital, o governo vai buscar as pessoas infectadas e aquela que entraram em contato, o que levou a um impacto positivo na redução da taxa de mortalidade. As oficinas, edifícios e outras instalações onde esteve o paciente diagnosticado são fechadas. Em outra palavras, o governo não fechou completamente as fronteiras, nem fechou as cidades e as lojas, apenas fechou os lugares onde se diagnosticaram pessoas infectadas, e levou a cabo uma esterilização. Também foi feito um extenso trabalho de desinfestação em lugares onde muitas pessoas viajam, incluindo aeroportos, estações de trem, metrô, etc. Claro que este processo foi acompanhado pelo sacrifício direto dos trabalhadores.

RP: Qual é a reação dos trabalhadores e das organizações antes esta situação?

YH: Em geral, os trabalhadores da Coreia do Sul não estão em muito boas condições subjetivas, porque greves para exigir medidas de seguridade, como é o caso da Itália por exemplo, não estão sendo produzidas hoje em dia. Alguns sindicatos organizam conferências de imprensa, outros negociam com as empresa que exigem medidas de seguridade como o fornecimento de máscaras. E alguns ativista escrevem e distribuem folhetos em seus lugares de trabalho.

Porém, há alguns dias, os líderes dos principais sindicatos (KCTO e FKTU) se reuniram com Moon. A administração de Moon quer fazer um novo acordo social e as burocracias sindicais parecem dispostas a cooperar com os planos do governo. Somos cautelosos com isto.

RP: Qual é a posição de sua organização sobre o COVID-19?

YH: O COVID-19 mostra exatamente como funciona o capitalismo e acentua sua crise. Os capitalistas estão fazendo que a classe trabalhadora pague por suas perdas econômicas e é provável que piore no futuro. O custo da crise deve ser pago pelos capitalistas.

RP: Gostaria de dizer algo mais?

YH: O mais importante é que os trabalhadores tenham sua própria voz e se comprometam em esta luta que é sua. E nesse sentido, ver os trabalhadores europeus lutando para se defender da crise do COVID-19 é uma grande inspiração para nós. Dado este novo vírus é um problema internacional, a luta dos trabalhadores deve ser também internacional, O coronavírus não é apenas a mostra da essência do capitalismo, senão também, nos recorda do valor do internacionalismo dos trabalhadores.

Este artigo foi publicado pelo suplemento semanal da Révolution Permanente parte da rede internacional da Esquerda Diário.




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