Internacional

CORÉIA DO NORTE

Coreia do Norte e a arriscada diplomacia dos mísseis

No mesmo dia que celebrava os 68 anos de sua fundação, a República Popular Democrática da Coreia lançou seu quinto teste nuclear.

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

segunda-feira 12 de setembro| Edição do dia

No mesmo dia que celebrava os 68 anos de sua fundação, a República Popular Democrática da Coreia – chamada simplificadamente de Coreia do Norte – lançou seu quinto teste nuclear. Esta é a segunda detonação controlada realizada este ano e a maior de sua história.

Curiosidade do regime totalitário do Partido dos Trabalhadores, uma lendária dirigente, a mesma que deu a notícia das mortes de King Il-sung e Kim Jong-il (respectivamente avó e pai do atual líder, Kim Jong-un), foi a encarregada de fazer o anúncio na televisão estatal. Entre outras coisas, o comunicado definiu o feito como uma resposta à hostilidade externa, em primeiro lugar dos Estados Unidos. Além das especulações sobre quão próximo está Pyongyang de adquirir a tecnologia armamentista para alcançar território estadunidense, o certo é que a prova mostrou avanços no programa nuclear.

A explosão que causou um sismo artificial de 5,3 de magnitude é uma metáfora da onda expansiva da mensagem que a Coreia do Norte têm enviado ao mundo e que analistas, diplomatas e governos inimigos e aliados ainda estão decifrando, além dos repúdios generalizados de costume. Mais enérgicos no caso dos Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul. Menos, ainda que audíveis, no caso da China.

Se somarmos os três mísseis de médio alcance lançados em plena reunião do G20 na China (e da cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático - ASEAN), com a presença de Obama e outros líderes mundiais, que percorreram uma distância de 1000 km para terminar caindo no Mar do Japão, a conclusão lógica é que o regime da Coreia do Norte está provocando.

Internamente, o timing do teste pode ser uma tentativa por parte de Kim Jong-un de dissipar as dúvidas sobre a solidez do regime, depois da traição de funcionários de alta patente, como o diplomata que desertou na Grã Bretanha e oficiais envolvidos em supostos casos de corrupção a favor da dinastia dos Kim.

No plano externo, o bombardeio tem tantas leituras como destinatários. Começando pelo mais evidente, é uma mostra do fracasso da política de sanções econômicas adotada por Washington e seus aliados – e à que se somou China, ao menos formalmente.

Historicamente, as diversas provas balísticas e nucleares foram lidas como tentativas de obter concessões das grandes potências e de seus vizinhos (ajuda alimentícia, a política “friendly” do Sol nascente por parte da Careia do Sul entre outras coisas). Esta estratégia de “golpear para negociar” funcionou relativamente até 2009. Mas faz um tempo que esse esquema já não responde à realidade nem regional, nem da política imperialista para a Ásia.

Neste marco, o que vários analistas assinalam é que o regime norte-coreano pretende forçar um giro a partir de transformar o desenvolvimento de seu arsenal nuclear como um fato consumado.

A prova nuclear também é uma forma de jogar com as crescentes tensões e rivalidades regionais, exacerbadas pelo “pivô” Estados Unidos na Ásia, que tem por objetivo conter a ameaça que suscita a China, que já está produzindo acidentes militares menores, porém que em perspectiva podem ser motivo de conflitos com projeção internacional.

Como parte desta política mais agressiva de Washington está a instalação do sistema antimísseis na Coreia do Sul (conhecido como THAAD por sua sigla em inglês), ou a tentativa de Obama de que a cúpula da ASEAN se pronunciasse a favor da sentença da Corte Internacional de Arbitragem que julgou ilegais as reivindicações marítimas da China.

Esta política agressiva dos Estados Unidos está causando atritos com Filipinas, um aliado tradicional de Washington, ao ponto do presidente Rodrigo Duterte insultar literalmente Obama. Mesmo que depois buscaram baixar os decibéis ao máximo, o dano já estava feito. Deterte não é um anti-imperialista, pelo contrário, é um populista de direita que está tentando impor um estado policial através da “guerra contra as drogas”, nem o governo dos Estados Unidos está preocupado com os direitos humanos nesta guerra. Na verdade a questão é que Duterte está em uma política de relativa aproximação da China e para isso desestimou até o momento prosseguir a denúncia contra China por disputas territoriais e isso complica os planos norte-americanos.

China deve alcançar um delicado equilíbrio. Seu principal objetivo é evitar que colapse o regime norte-coreano, o que inevitavelmente lançaria uma onda de refugiados e famintos para suas fronteiras. E colocaria em perspectiva o perigo de uma reunificação dirigida pelo Sul e Estados Unidos. Por isso, apesar de haver aderido ao programa de sanções econômicas da ONU em março passado, segue sendo o principal apoio econômico da Coreia do Norte. Mesmo assim, não está disposto a tolerar que Pyongyang siga dando motivos para o crescente militarismo dos Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão. Por isso, em uma declaração pública do governo, comunicou ao regime norte-coreano que desaprova sua política, requerindo a “não escalar” e reafirmando sua posição de manter “desnuclearizada” a Península da Coreia.

Com a falta de outros meios mais eficazes para colocar limites à este “estado rebelde”, tudo indica que no imediato Estados Unidos aprofundará sua política de cerco, que ironicamente se conhece como “paciência estratégica”. Isto é, aumentar a pressão sobre Coreia do Norte. Mesmo assim, as sanções econômicas utilizadas como uma alavanca para produzir mudanças políticas (incluído a famosa “mudança de regime”) e aplicadas contra distintos inimigos dos Estados Unidos e do “ocidente”, desde Rússia até Irã e Cuba, têm demonstrado ser um bumerangue. E no caso da Península da Coreia alimenta um militari




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