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Conto: "O enterro de um entregador"

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 15 de setembro| Edição do dia

Foto: Reprodução/TV Poços

Dezenas de motos chegavam no estacionamento do cemitério. Um a um os motoqueiros retiravam os capacetes. Os olhos marejados, as cabeças balançando negativamente de um lado para o outro. Todos eles se conheciam, sendo que alguns eram amigos dos tempos de infância, nos bairros em que cresceram na cidade de Campinas. Outros eram simples conhecidos de semáforo, conhecidos nas longas avenidas da cidade aonde “ o Bom dia “ é feito com a buzina da moto e a jornada de trabalho tão longa quanto uma rodovia. Esses trabalhadores estavam ali para enterrar mais um dos seus.

Senhor Domingos de Albuquerque Vasconcelos Armando Pereira Volta de Souza, ou simplesmente, O VELHO BURGUÊS QUE FREQUENTA PADARIAS CARÍSSIMAS:
Senhor Domingos: - Ah, esses motoqueiros se matam sozinhos. São uns moleques irresponsáveis, que vivem amassando os carros de gente honesta. Minha cunhada soube pela vizinha de uma amiga alemã que mora em São Paulo num condomínio que fica no topo da colina mais alta, que esses caras são assaltantes de banco.

No cemitério, os trabalhadores estavam mergulhados no velório. As mãos para trás, a lágrima em forma de interrogação, a cabeça dizendo que esses acidentes não são acidentais. O amigo João Alberto morreu aos 22 anos no cruzamento entre a Avenida Campos Salles e a Rua Onze de Agosto. O acontecido não era exatamente uma surpresa: a morte anda na garupa dos entregadores coladinha ás mercadorias. Mas sempre dói, choca, entristece.

Dona Maria da Conceição, mãe de João Alberto:
Dona Maria: - O meu menino fazia tudo pela família. Era ele quem trazia comida pra casa. Sempre trabalhou, sempre deu duro para alimentar os irmãos. Eu também ajudava na casa, trabalhei quarenta anos como faxineira. Mas fiquei doente, meu coração não deixa eu trabalhar mais. João então passou a carregar a casa nas costas. Tinha dia que ele saía de casa ás 5 h da manhã e chegava ás 23:30 h. Pegava a moto dele logo cedo e chegava á noite cambaleando de cansado. Ágora tá morto.

Os conhecidos abraçavam Dona Maria da Conceição, que após o choro compulsivo dava sinais de desmaio. Caio e Roberto, amigos chegados de João, estavam no canto da sala aonde ocorria o velório. Eram entregadores, assim como João.
Caio: - É isso mano, Deus sabe o que faz.
Roberto: - Mas como é que Deus apronta uma desgraça dessas?
Caio: - Não blasfema mano!
Caio: - E você acha certo viver voando por aí e morrer feito mosca? Morre, enterra... Mas e a vida dos que ficaram? A moto vai rápido, a vida do trabalhador vai rápido e os ricos continuam sossegados, passeando devagar, mastigando devagar.

Antônio, tio do morto e operário aposentado, olhava o caixão que continha os ossos partidos do sobrinho. O trabalhador idoso aposentou-se cedo: uma máquina da fábrica em que trabalhava, arrancou-lhe o braço esquerdo durante o turno da noite, no dia 8 de setembro de 1979. Ele se lembrava de uma discussão que os trabalhadores da fábrica fizeram tempos depois, no início de janeiro de 1980, quando ele já tinha se recuperado do acidente.

São Bernardo, 1980. Assembleia de trabalhadores:
O companheiro Antônio sofreu um acidente e a fábrica não pagou a indenização. Disseram que foi descuido dele, um acidente lamentável mas que a empresa não tinha nada a ver com isso. Isso é um absurdo! Antônio e sua família possuem direitos!

O sepultamento estava para acontecer quando Antônio pediu a palavra:
Antônio: - Eu não sei fazer discurso, mas quero falar. Tenho que falar porque vendo esse menino morto o nó na minha garganta aperta feito arame farpado na goela. Tô com esse nó desde 1979, quando eu perdi o meu braço na fábrica em que eu trabalhava, lá em São Bernardo. Ontem, aqui em Campinas, morreu João Alberto. Eu quase morri em 1979 e ele morreu em 2020. Naquele tempo não tinha máscara, não tinha coronavírus, mas o povo já sofria com outras doenças. Eu não sei, mas o martelo que eu tinha pra trabalhar e a moto do João, o macacão que eu usava e o capacete do João, deixam as coisas de um jeito muito parecido. Não sei bem o que é... Eu ficava a noite inteira preso entre as quatro paredes da fábrica. Era um vapor desgraçado, fagulhas espalhadas que cegaram muitos operários. Hoje vocês não trabalham num lugar fechado, mas será que ás vezes não sentem o ar acabar, não sentem outras fumaças sufocarem? Será que tem diferença entre o chão da fábrica e o asfalto, aonde vocês acabam estirados, assim como o João e tantos outros da idade dele? A cidade é grande, não é apertada feito o galpão da fábrica, mas vocês se reconhecem pelas ruas, sabem que um é companheiro do outro. Ainda por cima, vocês não tem o salário certo, contado, no fim do mês! Em 1979, em 1980, a gente fazia greve. Eu sei que vocês também estão começando a lutar. Nossos bolsos nunca ficaram cheios e o trabalho vai quase todo para os patrões. Hoje a gente chora, amanhã a gente luta. Não tem remédio! “

Em volta do caixão de João Alberto, olhos arregalados, rostos enrijecidos e punhos trancados.

OBS: Esta é uma pequena obra de ficção. Apesar do pano de fundo ser inevitavelmente histórico, personagens e situações foram inventados.




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