Mundo Operário

REFORMA TRABALHISTA NA PRÁTICA

“Conte Comigo!”- A preparação da reforma trabalhista no Metrô de SP

O “Conte Comigo” é o programa da nova Gerência de Operações do Metrô de SP, que está atingindo os trabalhadores da estação, segurança e operadores de Trem. Por trás de uma suposta mudança de imagem no atendimento, o que está em jogo é a tentativa de readequação da chefia para preparar a aplicação da reforma trabalhista que passa a vigorar no próximo dia 11/11, dentro de um contexto de avanço da privatização e terceirização da empresa.

sexta-feira 10 de novembro| Edição do dia

Utilizando a “fina flor” da linguagem empresarial do século XXI a direção do Metro de SP, através de seus coordenadores, gestores, supervisores e chefes de departamento, quer tentar convencer que os trabalhadores metroviários são os responsáveis por todos os problemas de atendimento do Metrô. Para isso criaram o “Conte Comigo”, um novo programa criado pela Gerencia de Operações (OPE), que vem sendo apresentado a todos os funcionários. Nesse programa dizem que a imagem do metrô “é de um obeso, lento acima de 40-50 anos de idade”. Depois de depreciar os trabalhadores, concluem ser necessário uma “mudança de comportamento” dos funcionários, para parecer um “homem de 35 anos”, “proativo, empreendedor e resiliente”.

Para os “experts” da gerência de operações do Metrô o problema da super lotação, da falta de quadro dos funcionários, das falhas nos trens, são todos relacionados a um problema de comportamento dos funcionários. Uma das idealizadoras do programa, Cristina Bastos (Chefe do Departamento de Operações), recentemente adentrou uma das salas internas assediando os funcionários da estação Consolação, interrompendo o intervalo de refeição, dizendo que havia cronometrado o tempo de atendimento da bilheteria e estava acima do previsto. Cristina considera que as filas as bilheterias são decorrentes do horário de refeição, e não da falta de contratação de funcionários, que atualmente deixa uma média de apenas 4 metroviários para serem responsáveis a cada estação. Uma verdadeira provocação de chefes que dependem de uma relação com a maçonaria para ganhar indicação do governo de SP aos cargos com super salários, que incham o orçamento, enquanto o transporte não recebe investimento, e os metroviários tem seus direitos sendo atacados.

Conte Comigo... para demitir você!

Desde a implementação do programa já foram dezenas de demissões. Parte delas acontecem pelo PDV, programa de demissão voluntária vigente desde o ano passado, atualmente paralisado por ausência de orçamento da Empresa a pagar as multas rescisórias dos contratos. Mas desde a aprovação da reforma trabalhista, o que se desenvolve são uma série de demissões ditas por “baixa produtividade”. Em vários casos, trabalhadores com alguma doença ocupacional, acidentes de trabalho, foram praticamente “chutados para a rua” pela empresa. A realidade é que se o conceito de baixa produtividade fosse aplicado para a chefia da empresa, não sobraria um para contar história. Pois, a única função que cumprem é de transmitir a política de privatização e terceirização de Alckmin para dentro da empresa.

Mas se não bastasse isso, quem discorda também é demitido. Como os dois jovens trabalhadores, recém contratados, que foram demitidos por aderir a campanha contra a terceirização, num dia de protesto onde todos os funcionários do Metrô trabalharam sem usar o uniforme oficial da empresa. Outra vítima do “Conte Comigo” foi Valter Rocha, ativista da categoria, que sofreu uma agressão racista de um usuário, ratificada pela empresa, que o demitiu unilateralmente. Valter há 15 anos era perseguido pela empresa e sofria com racismo dos supervisores. Queriam que cortasse o seu cabelo (Valter usava dreadlocks) e quase chegaram a barrar sua promoção. E recentemente, nem mesmo um diretor do Sindicato dos Metroviários foi poupado, Maruzan ativista com uma larga história de mais de 30 anos na categoria, também foi demitido pela empresa por desentendimento com usuário que o desrespeitou (pela falta de quadro são cotidianos e fazem parte da realidade de cada estação).

O que está em jogo?

Os problemas que o Metro de SP passa hoje não são responsabilidade dos funcionários. Não são os trabalhadores do Metrô que decidem sobre o investimento no transporte. Não são os trabalhadores que impõe uma meta de trens na linha, e liberam trens com falhas para a comercial. Não são os metroviários que receberam uma denúncia internacional de um esquema de corrupção de multinacionais como Alstom, Bombardier e Siemens. Não são os metroviários que atrasam as obras das novas estações. Se todas essas questões passassem pelo nosso crivo e decisão, com certeza a realidade do transporte público seria outra e com muito mais dignidade a toda a população.

Os atuais gestores da empresa junto com o governo Alckmin têm um objetivo que é acelerar a terceirização e privatização da companhia, e parte disso é preparar o terreno para aplicar a reforma trabalhista que passa a vigorar nos próximos dias. A terceirização das bilheterias da Linha 5, por exemplo, já admitiu novos contratos de trabalhos com direitos retirados, sem treinamento e em péssimas condições (conforme já foi denunciado pelo Esquerda Diario). E quem perde, não são apenas os novos trabalhadores terceirizados, também os novos metroviários efetivos atualmente não assumem mais a função de bilheteria e tiveram direitos cortados.

Programas como o “Conte Comigo” ao mesmo tempo que faz demagogia com uma suposta relação harmoniosa entre funcionários e chefias visando melhora de atendimento, também é estruturado em práticas anti sindicais, desrespeito aos funcionários, e promovendo um cenário de medo com demissões e perseguições. Com o objetivo de não permitir que haja resistência da categoria nos planos que estão por vir. Um deles como a própria jornada de trabalho, a qual a companhia quer acabar com as escalas de 36hs que ainda existem e oficializar o banco de horas. Entretanto, esse caminho para a empresa também não é fácil, pois a força social que os metroviários possuem são capazes de derrotar os planos do governo, e se através da mobilização seguimos os exemplos dos trabalhadores do RS que atualmente resistem aos ataques, mesmo com quase nenhum apoio das principais centrais sindicais, podemos pela base unificar as lutas em curso e vencer os ataques do governo.




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