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Consulta de opinião na USP expressa rechaço da comunidade ao processo e à atual Reitoria

Essa semana aconteceu a consulta de opinião dos estudantes, trabalhadores e professores da USP acerca do próximo Reitor da Universidade. Na prática essa consulta não tem peso nenhum na decisão final, tomada unicamente pelo Governador de São Paulo. De qualquer maneira, ela demonstrou o enorme rechaço da comunidade ao atual Reitor, Prof. Dr. Marco Antonio Zago.

quarta-feira 25 de outubro| Edição do dia

Segunda-feira, 23/10/17, aconteceu a consulta de opinião dos estudantes, trabalhadores e professores da USP acerca do próximo Reitor da Universidade. Essa é a segunda eleição pra Reitor na USP em que ocorre uma consulta de opinião a toda a comunidade. Na prática, porém, essa consulta não tem peso nenhum na decisão final, tomada unicamente pelo Governador de São Paulo baseado em uma lista de três nomes enviada por um Colégio Eleitoral composto por menos de 2% da comunidade acadêmica, cuja grande maioria dos seus membros não foi eleita por ninguém e não possuem nenhum compromisso com a vontade expressa nessa consulta.

Com a participação de apenas 9.309 pessoas em um universo de 95.349 membros é evidente o desprezo – consciente ou não – que a grande parte da comunidade acadêmica tem em relação a um processo tão anti-democrático e a uma consulta “pra inglês ver”. Menos de 10% da comunidade participou da consulta (pra ser mais exato 9,76%). Em comparação com a consulta de 2013, inclusive, vemos uma queda de 30% na participação. Mesmo naquele primeiro ano de consulta, marcada por uma greve dos estudantes por eleições diretas pra Reitor e uma ocupação da Reitoria que durou 42 dias, apenas 13,73% da comunidade acadêmica chegou a participar da consulta. Esse descrédito é fruto da constatação cada vez maior das pessoas com relação à impossibilidade de que sua participação influencie em algo no processo.

Em exemplo recente houve a consulta de opinião na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) sobre a eleição para Diretor. O candidato que foi vitorioso dentro da consulta nas três categorias, porém, não foi eleito no restrito Colégio Eleitoral. Em exemplo anterior, na indicação do ex-Reitor, Prof. Dr. João Grandino Rodas, sequer o restrito Colégio Eleitoral foi respeitado pelo Governador (na época, José Serra-PSDB), que preteriu o primeiro nome da lista tríplice em favor de Rodas.

Evidentemente que essa consulta é uma tentativa da Reitoria, da burocracia acadêmica e do Governo do Estado de criar a falsa impressão de estar preocupada com a opinião da comunidade. De qualquer maneira, ela também demonstrou o enorme rechaço da comunidade ao atual Reitor, Prof. Dr. Marco Antonio Zago. Das quatro chapas candidatas, duas expressam sem nenhuma demagogia a defesa do projeto político implementado na gestão atual (uma delas, inclusive, é encabeçada pelo atual Vice-Reitor). Outras duas apresentam um discurso mais demagógico – chamado, inclusive, de populista pelos outros candidatos – buscando se diferenciar e distanciar da atual gestão no discurso, embora no essencial do programa terminem defendendo o mesmo projeto político, só que com mais diálogo.

Com 2.577 votos (27,7%) somados, as duas chapas da situação (encabeçadas pelo Prof. Dr. Vahan Agopyan e pelo Prof. Dr. Ricardo Terra) foram derrotadas nas três categorias pelas duas chapas auto-intituladas como oposição (encabeçadas pela Prof.ª Dr.ª Maria Arminda e pelo Prof. Dr. Ildo Sauer, com 6.102 votos, 65,5%). Embora na análise geral esse rechaço, tanto à atual gestão quanto ao processo fajuto de consulta, seja o que salta aos olhos, é necessário ver as nuances de como ele se expressa de maneira diferente em cada categoria.

Entre os docentes houve a maior participação no processo de consulta (48,1%), semelhante a 2013. Não é por menos. Dentro do Colégio Eleitoral, composto por cerca de 2 mil pessoas, os professores são quase 1.700 dos votantes. Na realidade, são eles quem indicam os nomes da lista tríplice para a decisão do Governador. Também foi entre os docentes que a chapa situacional do Prof. Dr. Vahan Agopyan venceu com 39,2%, embora as chapas oposicionistas da Prof.ª Dr.ª Maria Arminda e do Prof. Dr. Ildo Sauer obtiveram 31,1% e 20,2%, respectivamente, mostrando que também entre os docentes há um desconforto com a política da atual Reitoria. A Associação de Docentes da USP (ADUSP) ainda não chegou a se posicionar oficialmente, mas nas matérias em seu site deixa evidente a preferência pelos candidatos oposicionistas e o repúdio às chapas da situação.

Entre os estudantes apenas 3,7% participaram do processo de consulta, número parecido com a participação em 2013. E isso, mesmo com o Diretório Central dos Estudantes (DCE) cumprindo o vergonhoso papel de incentivar que os estudantes participassem dessa consulta fajuta, legitimando todo o processo circense de escolha do Reitor da USP (que, ao final, fica a cargo unicamente do Governador). Curiosamente, mesmo os poucos estudantes que participaram da consulta são maioria em números absolutos do que o número de docentes votantes, embora no Colégio Eleitoral não cheguem a ser 300 votantes.

Além de incentivar que os estudantes participassem do processo, o DCE também orientou que votassem na Prof.ª Maria Arminda e no Prof. Dr. Ildo Sauer, que obtiveram entre os estudantes 43,5% e 25,4% votos, respectivamente, deixando o candidato da situação Prof. Dr. Vahan Agopyian com 17,5%.

Por fim, entre os funcionários foi onde a participação na consulta mais despencou. Enquanto, em 2013, 47% da categoria participou do processo consultivo, esse ano apenas 27,4% se manifestou. Por um lado, a descrença nesse processo, em que pouco mais de 50 funcionários apenas participam do Colégio Eleitoral, ligado com uma indiferença diante do nível de arbitrariedade e autoritarismo da gestão atual, levou a que o boicote à consulta se tornasse mais ampliado. O Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) denunciou corretamente a farsa desse processo e chamou a categoria a boicotar essa consulta, assim como desmascarou os programas das quatro chapas e orientou os representantes dos funcionários no Colégio Eleitoral a anularem o voto.

Entre os funcionários que participaram da consulta, porém, foi onde se expressou o maior rechaço aos candidatos da situação. Praticamente 8% participou para anular o voto e apenas 15,3% se manifestaram pela chapa da situação do Prof. Dr. Vahan Agopyian. Em torno de 75% dos funcionários manifestaram seu rechaço à atual gestão votando em algum dos candidatos auto-intitulados da oposição.

Independente daqueles que se manifestaram nessa consulta e do significado evidente de rechaço de todos os segmentos da comunidade – em especial os trabalhadores – à gestão atual da Reitoria da USP, segunda-feira, dia 30 de outubro, o Colégio Eleitoral formado por 85% de professores e menos de 3% de funcionários é quem vai decidir a ordem dos três nomes que serão enviados para o Governador. No final, independente da ordem dos nomes enviados, é o Governador Geraldo Alckmin, PSDB, quem vai escolher quem reinará na USP pelos próximos quatro anos aplicando seu projeto de educação na maior Universidade da América Latina, enquanto a maioria da comunidade acadêmica permanece silenciada de maneira autoritária e sem poder decidir os rumos e futuro da Universidade onde estuda e trabalha. Por isso se faz ainda mais imperiosa a necessidade de uma Estatuinte Livre e Soberana para que os três setores possam decidir democraticamente os rumos da Universidade.




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