Mundo Operário

TRABALHADORES PRECÁRIOS

Construamos uma rede de trabalhadores precários

No domingo (02/08) ocorreu a primeira reunião para discutir a importância da criação de uma rede de precarizados, contando com entregadores de aplicativos, trabalhadores terceirizados, de callcenters, fast food, garis, e diversas outras categorias, de diversos estados do país. Chamamos as organizações à esquerda do PT, em especial o PSTU e o PSOL, a se somar a essa iniciativa e colocar seu peso sindical e parlamentar para organizar os trabalhadores precários

quinta-feira 20 de agosto| Edição do dia

A primeira reunião preparatória foi muito produtiva, com uma série de intervenções que apontaram não só a situação dessa parcela da classe trabalhadora, como apontaram a necessidade e a possibilidade de uma organização mais ampla, unindo as forças das diversas categorias. Neste link é possível ver os debates que ocorreram e as principais intervenções desta atividade.

Já antes do início da pandemia a informalidade havia ultrapassado a marca de 50% da população, sendo que em alguns estados esse número superava os 60%. A pandemia e a forma como os governos responderam a ela, agravaram enormemente essa situação, com uma explosão do desemprego, do trabalho informal e um verdadeiro boom dos aplicativos de entrega, que é parte dos setores patronais que mais se beneficiaram com a crise da pandemia.

O governo Bolsonaro mostra, já a bastante tempo, que está aí para acabar com a condição de vida e os direitos dos trabalhadores em favor aos grandes empresários. A consolidação e o aprofundamento da reforma trabalhista, a reforma da previdência e recentemente as MPs já mostraram que a extrema direita e seus aliados nada tem a oferecer para os trabalhadores que não seja um caminho de miséria em que nem o direito mais fundamental da classe operária seja assegurado; o de ser trabalhador.

A paralisação dos entregadores no dia 1 e no dia 25 de julho chamou a atenção de todo o país, de políticos do Congresso e dos sindicatos para a situação dessa parcela da classe trabalhadora, que sofre diretamente as consequências da uberização do trabalho, que é um salto na precarização mesmo em relação a terceirização que cresceu enormemente nos governos petistas. Contra todo discurso bolsonarista e liberal, os entregadores começam a ver cada vez mais que não são “empreendedores”, mas sim trabalhadores superexplorados e sem nenhum direito trabalhista. Ao mesmo tempo em que essa incipiente organização dos entregadores mostrou a força da união desta categoria, também colocou sobre o tapete as dificuldades para aprofundar nessa obra coletiva.

Relegados a um segundo ou terceiro plano por sindicatos, pelos partidos políticos, inclusive PT e PCdoB e até pelos partidos de esquerda durante os últimos anos os trabalhadores mais precarizados, dos aplicativos, terceirizados e setores autônomos, foram influenciados desde 2015 pelo forte discurso antipetista e antisindical impulsionado pela lava jato e desde 2018 Bolsonaro vem ganhando bastante terreno nestes setores. Com a pandemia e o auxílio emergencial de R$600 reais, pouco para sustentar uma família, mas muito perto do que pagam os aplicativos de entrega e as empresas terceirizadas, Bolsonaro tem ampliado sua influência entre os mais pobres. Mas isso não vai durar para sempre e já se discute quando vai ser retirado esse benefício, jogando milhões de famílias na extrema pobreza e até na fome.

É urgente que a esquerda coloque suas forças para que os setores mais explorados da classe trabalhadora possam avançar na sua organização e inclusive na sua experiência com o bolsonarismo. A desconfiança na política e nos sindicatos tradicionais pode ser canalizada para a organização dos próprios trabalhadores e para a esquerda. Como disse um dos companheiros que tem participado das atividades preparatórias da rede: votei no Bolsonaro, mas estou vendo que na luta por direitos é com a esquerda que podemos contar. Esse sentimento, impulsionado pela rebelião negra dos EUA e pelas condições de vida cada vez mais degradantes, mostra que se juntamos as forças da esquerda é possível avançar.

Por isso, nós do MRT, queremos chamar a esquerda para criar uma rede de trabalhadores precarizados, nos inspirando no exemplo do La Red de Precarizadxs argentina, impulsionada pela Frente de Izquierda de los Trabajadores, que conta com a participação do PTS (organização irmã do MRT na Argentina) e outras organizações como a Izquierda Socialista e o Partido Obreiro. Unificando diferentes categorias para lutar lado a lado, com um princípio de autoorganização dos trabalhadores para superar as burocracias e assim ganhado força para golpeando com um só punho os capitalistas, afinal somos uma só classe.

Essa rede tem que servir para fortalecer e unificar cada luta, enfrentar os ataques patronais como os que estão ocorrendo com as demissões em massa de terceirizados nas universidades, promover assembleias nos locais de trabalho, estimular a solidariedade de classe entre os trabalhadores. Uma primeira luta mais geral que se coloca em relação aos trabalhadores por aplicativos é por igualdade de direitos com os demais trabalhadores celetistas, por um vinculo formal de trabalho, contra os projetos de lei como o de Tabata do Amaral, que em troca de pequenas melhorias, pretende legalizar e regulamentar a uberização. Essa rede também se faz necessária para lutar por esses direitos, pois não podemos depender da boa vontade do Congresso Nacional, do governo Bolsonaro e dos governadores (incluídos os do PT e PCdoB) que governam a favor dos ricos e dos patrões e aplicam os ataques sobre os nossos direitos que o mercado financeiro exige. Também queremos juntar forças para lutar contra as máfias que hoje dominam os sindicatos e atuam mais como auxiliares das patronais do que como representantes dos trabalhadores. Recuperar os sindicatos para as mãos da classe trabalhadora e lutar por um movimento organizado de baixo para cima, onde tudo se decida em assembleias de base é um dos objetivos da formação dessa rede.

É preciso unificar a esquerda para combater o projeto autoritário do Bolsonaro e o avanço das reformas neoliberais (como agora volta a discussão a carteira verde e amarelo sem direito nenhum), mas essa unidade não se dará em frentes amplas com os mesmos partidos que aprovam essas medidas de ataque. Essa unidade tem que se dar na luta cotidiana do conjunto da classe trabalhadora. A luta dos setores mais precarizados é também do interesse do conjunto da classe trabalhadora, na medida em que a uberização e a terceirização servem para rebaixar o os direitos e os salários do de todos. Como sempre fez a classe dominante brasileira, se apoiando no racismo e na discriminação para manter a maior parte da classe trabalhadora (em especial os negros e negras) em situação de superexploração, jogando os que ganham menos contra os que ganha mais e impedido uma unidade mais profunda de toda a classe trabalhadora. É para avançar nessa unidade tão importante, que dirigimos nosso chamado ao PSOL, ao PSTU e a todas as organizações a esquerda do PT. Mãos à obra!




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