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Constituinte na Venezuela: a condenação da hipocrisia imperialista e a farsa soberanista

Um dia depois da eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, não tardou para que se fizessem ouvir as potências mundiais a respeito da crise venezuelana. Desde a condenação e as sanções encabeçadas pelos Estados Unidos até a defesa da "dignidade e soberania venezuelana" de Evo Morales e Moscou.

terça-feira 1º de agosto| Edição do dia

A farsa de Assembleia Nacional Constituinte convocada pelo presidente Nicolás Maduro, realizada neste domingo sob suspeitas de uma fraude escandalosa, deu o que falar no mundo inteiro. O imperialismo norte-americano, fazendo uso de seus inexistentes "valores democráticos" saiu rapidamente em denúncia à Constituinte elite na Venezuela e advertiu que "continuaremos tomando ações firmes e rápidas contra os arquitetos do autoritarismo na Venezuela, incluindo aos participantes da Assembleia Nacional Constituinte como resultado da defeituosa eleição de hoje", conforme um comunicado pela porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert.

"Incentivamos a todos os Governos do hemisfério e de todo o mundo a tomar ações firmes para dar conta dos que minam a democracia, negam os direitos humanos, são responsáveis pela violência e pela repressão e participam de práticas corruptas", agregou.

Segundo adiantaram fontes do Governo hoje ao Jornal de Wall Street, os Estados Unidos estuda anunciar ainda nesta terça-feira uma nova rodada de sanções dirigidas à indústria petroleira venezuelana, e que não se discuta qualquer importação de petróleo bruto no momento.

Em tom com as declarações norte-americanas, também se expressou o chanceler argentino, o macrista Jorge Faurie, reiterando hoje que a jornada eleitoral impulsionada neste domingo foi "ilegal", e adicionou que não está "longe" do Mercosul aplicar a "cláusula democrática" neste país, onde "não há democracia", o que obriga aos países membros que abram um processo de consulta com o país nomeado pela ordem institucional antes de adotar qualquer outra medida.

Convidado pela imprensa para participar de um ato em Buenos Aires, Faurie assinalou que o Brasil, presidido nada mais nada menos do que pelo golpista Michel Temer, que ostenta a presidência semestral do bloco regional também integrado pelo Paraguai e pelo Uruguai, "está analisando" concretizar uma reunião para ver "em que momento" se encontra a situação no país caribenho e "se é que há disposição para este diálogo ou não". "Estamos esperando poder concretizar com muita brevidade e esta é a expectativa que tem na prática o Brasil, Paraguai, Argentina e entendo que o Uruguai nos acompanhará", agregou o chanceler. "Não estamos tão distantes da cláusula democrática. Hoje na Venezuela não há democracia", remarcou Faurie.

Colômbia, Argentina, Peru, Panamá, México, Costa Rica e Paraguai, entre outros países, anunciaram que não reconhecerão os resultados das eleições, e o governo do Peru convocou uma reunião de ministros de Relações Exteriores no próximo dia 8 de Agosto, em Lima, para avaliar a situação venezuelana, onde cita ter a previsão da participação de onze países, conforme informações da chancelaria peruana.

A partir da Europa também houveram pronunciamentos sobre a Constituinte. Em um comunicado, um porta-voz do Serviço de Ação Exterior da União Europeia, dirigido por Federica Mogherini, afirmou que a Assembleia Constituinte "não pode ser parte da solução", e condenou o "desproporcionado" uso da força por parte das forças de segurança durante a jornada de votação, que terminou com mais de uma dezena de vítimas fatais.

"Uma Assembleia Constituinte eleita em condições duvidosas e com recorrentes circunstâncias violentas não pode ser parte da solução. Tem aumentado a divisão e deslegitimará ainda mais as instituições eleitas democraticamente na Venezuela", disse.

"O Presidente e o Governo tem uma responsabilidade especial para que se restaure o espírito da Constituição e restabeleça a confiança perdida pelo seu intuito de estabelecer instituições paralelas divisórias", insistiram no comunicado, mantendo um canal de diálogo com o governo, em contraposição à linha totalmente intervencionista de Trump.

Entretanto, foi indicado que "Mogherini está trabalhando em uma resposta conjunta da União Europeia que contemple" a questão da possibilidade de sanções, como pedia a Espanha se a eleição se efetivasse.

Por sua parte, a Oficina do Alto Comissariado da ONU insistiu às autoridades venezuelanas para "que cessem o uso excessivo da força para reprimir manifestações", e reiterou a necessidade de que se respeite o princípio da liberdade de reunião pacífica.

"A ponta de lança contra o império" ou uma manobra sustentada com repressão? Dos escassos apoios que recebeu Nicolás Maduro, sobressaem os de Moscou, encontrando outro campo de batalha diante dos Estados Unidos, que chamou a comunidade internacional à "contenção" e à renúncia aos planos "destrutivos" de pressionar a Venezuela depois da votação da Constituinte.

"Esperamos que aqueles membros da comunidade internacional que querem rechaçar os resultados das eleições venezuelanas e incrementar a pressão econômica sobre Caracas, mostrem contenção e renunciem a estes planos destrutivos que podem agudizar a polarização da sociedade" venezuelana, adverte um comunicado do Ministro de Exteriores russo. "É preciso criar as condições propícias, também externas, para que a Assembleia Constituinte possa assentar as bases de uma solução pacífica para as contradições que existem na sociedade venezuelana", agrega a nota.

Moscou também lamenta que a oposição venezuelana "ignorou o chamado para a participação nas eleições" e "tenta impedir a sua realização provocando confrontos que produziram vítimas mortais".

Também, como era de se esperar, o presidente da Bolívia, Evo Morales, um dos poucos aliados com os quais Maduro pode contar na região, teve um tom de exaltação e felicitou diretamente "o povo venezuelano" pela sua participação na eleição afirmando que a Venezuela "é a ponta de lança contra o império. A soberania e a dignidade está na consciência do povo no poder da democracia". Para Morales, "a vocação democrática do povo garante a unidade e soberania da Venezuela, demonstrando que o voto pode mais que as balas".

A chancelaria boliviana emitiu um comunicado em que expressa "seu reconhecimento e congratulações ao povo venezuelano" que participou na eleição de representantes constituintes. Também lançou um chamado à comunidade internacional "a respeitar o processo democrático", e que, segundo a chancelaria boliviana, "somente os cidadãos e as cidadãs deste país podem definir seu futuro na Assembleia Constituinte".

Para além da retórica anti-imperialista que elabora Morales em apoio a Maduro, esta Assembleia Constituinte não é mais do que uma manobra do presidente venezuelano, quase um "último suspiro" para seguir se sustentando no poder, cada dia mais deslegitimado, reprimindo e esfomeando o povo trabalhador. Mas a hipocrisia dos Estados Unidos, da União Europeia e seus organismos internacionais como a ONU, somado ao coro de governos totalmente subordinados à vontade imperialista como os de Macri e Temer, em conjunto com a direita venezuelana, devem ser rechaçadas imediatamente, já que não tem relação alguma com os verdadeiros interesses de democracia para o povo pobre e trabalhador.




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