Cultura

LITERATURA

Conspiradores da literatura

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 28 de novembro| Edição do dia

Muita gente já percebeu o quanto as atividades artísticas que negam a moral dominante, são marginalizadas e intimidadas por aqueles que defendem com unhas e dentes a ordem capitalista. Embora isto não seja novidade na história deste sistema, deve-se prestar atenção no fato de que atualmente no país a ofensiva contra os trabalhadores brota no mesmo terreno político em que as bandeiras moralistas são erguidas contra os artistas contestadores. Para que a resposta possa vir a cavalo, a esquerda precisa valorizar na produção artística sua natureza subversiva. Parece obvio? Nem tanto, já que geralmente existe uma mentalidade estreita na definição daquilo que abrange o protesto artístico.

Para a maioria dos marxistas é unânime que a arte é uma força que contribui com a educação e a politização da classe trabalhadora(esta é uma evidência militante que precisa ser sempre relembrada pela crítica marxista; tal evidência abrange uma necessária e pulsante tradição revolucionária que envolve gente como Maiakóvski, Eisenstein, Brecht , Rivera e muitos outros). Paralelamente existem também formas de conspiração poética que, como já tratei em outros artigos, ajudam a quebrar a louça toda. Num Brasil em que a intolerância é o principal sintoma de uma direita que se lambuza nas redes sociais, a literatura encontra-se intimidada na sua voz dissidente, na sua capacidade mesma de contradizer/questionar um modo de vida em que as coisas são como são e não poderiam mudar nunca. No reino puritano da pequena burguesia é tabu questionar os limites da falsa liberdade, que não vai além da cerca do rebanho. É por essas e outras que precisamos de poetas conspiradores.

Uma das forças que certamente ajudam a desmistificar a ideologia dominante, é a poesia que articulando o corpo do texto com o corpo do poeta incita uma rebelião contra o universo fechado/repressivo da comunicação e do comportamento. Ainda que estejamos falando de um poeta “ decadente “, doidão, boêmio, individualista e completamente estranho à disciplina do militante comunista, ele é um aliado valioso na luta cultural anticapitalista. Este modelo de intelectual rebelde, transgressor e boêmio, é importante porque coloca em descredito as convenções burguesas. E não é coisa superficial de “ rebelde sem causa “. Se no capitalismo os homens são zumbis, ou seja, não é o ser humano quem sai para comer, beber ou passear mas sim o dinheiro dele( que ao converter qualquer coisa em mercadoria assume o lugar/controle do sujeito), o clássico triângulo familiar estudado por Freud e o fundamentalismo religioso apaziguam/ocultam a verdadeira condição humana a partir de justificativas moralistas e imagens celestes, transcendentais. Neste contexto, o poeta maldito exerce uma antítese formidável.

Recorrendo à morte e ao diabo, exaltando o ambiente decadente, exteriorizando assuntos “ desagradáveis “, o conspirador das letras( mesmo sem imprimir um ponto de vista proletário) está em confronto com a classe dominante. Enquanto artista ele revela o mal estar na sociedade burguesa. Certo, muitas destas atitudes poéticas envolvem escapismo e fantasmagorias que não partem de uma perspectiva materialista. Entretanto, existe um caráter antagônico/dissidente que nega a ideologia burguesa. Insisto mais uma vez em dizer que nos quadros da Revolução permanente, existem diferentes estratégias artísticas: engajamento/agitação pode coexistir numa boa com manifestações cujo aspecto negativo(e até mesmo antissocial) contribuem para abalar as imagens mentirosas do sistema.

O poeta maldito é um agente secreto que age no campo inimigo(Benjamin usa estas expressões quando refere-se ao poeta Baudelaire). E olha que existe uma larga tradição dentro desta postura rebelde: dos poetas amaldiçoados da França do século XIX(Rimbaud, Lautréamont e o mencionado Baudelaire) aos escritores beats dos Estados Unidos do século XX. Ainda hoje é possível encontrar um ou outro poeta que reivindica esta tradição destruidora: lá está ele, num boteco qualquer, registrando por volta das 3 h da madrugada suas visões e sua fúria em versos escritos num papel de embrulhar pão. É problema dele se não reconhece o operário como sujeito histórico que pode colocar um ponto final na cultura burguesa que ele tanto odeia; aliás, pior para o poeta maldito se achar que seus versos estão acima(ou à margem) do movimento da história. No entanto, a literatura dos malditos é importantíssima para desiquilibrar a sociedade capitalista.

Na hora de pensarmos os aspectos culturais contidos na Revolução permanente, podemos aprender um bocado com a energia libertária destes poetas malditos. As estações do inferno ou as flores do mal não anunciam com todas as letras a Revolução socialista. Mas são necessárias para trincarmos o céu privatizado do burguês.




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