Educação

ENSINO REMOTO

Conselho Universitário autoriza a maior evasão da história da UFSC!

Luiz Pustiglione

Doutorando em educação pela UFSC e professor da Rede estadual de SC

segunda-feira 20 de julho| Edição do dia

Foto: Frente pela Educação de Qualidade. FEQ realiza intervenção em frente à reitoria da UFSC para denunciar a evasão que o Ensino Remoto causará na instituição. A intervenção foi realizada na véspera da aprovação da medida pelo Conselho Universitário.

Nessa última sexta-feira (17/7) o Conselho Universitário da UFSC determinou a forma da volta às aulas de forma não presencial a partir de uma proposta de minuta construída pela Reitoria e suas comissões assessoras de crise (montadas a partir da pandemia). Ainda falta votar a parte do calendário, o que ocorrerá nessa segunda-feira (20/7).

Entre os principais absurdos aprovados por este conselho composto em sua amplíssima maioria de docentes, está a possibilidade de que todas as atividades – INCLUSIVE PROVAS E OUTRAS AVALIAÇÕES - possam ocorrer de maneira síncrona (com todos inscritos na disciplina conectados ao mesmo tempo). Se até mesmo a reunião desse conselho universitário já teve que ser atrasada por mais de 20 minutos por problemas na conexão do Reitor, imaginem o que vai ocorrer se um simples estudantes não conseguir conexão em um momento de avaliação, para ficar só em um de vários exemplos possíveis.

A presença de setores reacionários e até mesmo negacionistas no conselho também ficou marcada por alguns votos contrários à responsabilização do setor de pessoal em fornecer EPI’s para os técnicos e permitir que estes trabalhem remotamente de forma assíncrona. Essa votações, apesar de derrotadas, revelam o ódio aos trabalhadores que determinados setores da elite universitária sentem.

Mas por que autoriza a evasão?

Em recente pesquisa da associação das faculdades particulares, identificou-se que, apenas entre abril e maio, mais de 265 mil estudantes abandonaram seus cursos de nível superior. Vejam que aqui falamos de estudantes de universidades que não abriram debates sobre o que fazer frente ao momento, mas implementaram o EaD (eufemisticamente chamado de ensino remoto) rapidamente e algumas chegaram até a oferecer descontos em mensalidades. Mesmo assim o nível de evasão foi esse e o principal motivo apontado por 82% dos entrevistados foi a dificuldade financeira causada (ou piorada) pela pandemia e consequentes medidas de isolamento social, fechamento de comércios e serviços etc.

Em que planeta vivem essas pessoas que acham que o maior problema da vida dos estudantes nesses tempos seria ficar sem ter aulas (remota ou presencialmente) e que os estudantes das federais não enfrentam parte desses mesmos problemas que os estudantes da rede privada?
Pesquisa da ANDIFES aponta que “40% dos estudantes das universidades federais estavam desempregados e em busca de trabalho” e que “dentre os 30% de estudantes que exerciam atividades remuneradas, 46% trabalhavam mais de 30 horas semanais e 44% em trabalhos precários”.

Em um mar de mais de 7,8 milhões de novos desempregados desde o início das medidas restritivas há, certamente, uma quantidade considerável de jovens universitários que trabalhavam em funções extremamente precarizadas, sem qualquer vínculo formal e proteção, mas que agora nem isso tem mais. Desses 7,8 milhões, quase 6 eram empregos precários. Como que a universidade quer se afirmar pública e não começa a pensar nos problemas da pandemia por essas pessoas?

A situação é tão dramática para esses setores que uma nova favela chegou a se formar em São Paulo, basicamente, por motoristas e entregadores de aplicativos e desempregados pela crise sanitária/econômica.

Afinal, a perversão do capitalismo é tão grande que, mesmo com o aquecimento dos lucros e aumento do uso dos aplicativos de entregas,os entregadores registraram queda da renda média.

Esses dados nos permitem afirmar que o processo de ampliação da exclusão que será gerado pelo agravamento da desigualdade social e econômica concreta que há entre estudantes nas universidades públicas, graças, em grande medida, às ações afirmativas, vai gerar um recorde de trancamento de matrículas e abandonos. Essa evasão em larga escala vai se dar em quantidade ainda maior entre os cotistas e os estudantes mais pobres e que estarão impossibilitados, por uma lista de razões, de acompanhar o “novo normal” que a universidade quer impor.

Situação dramática para uns e extremamente lucrativa para outros!

Chamar de ensino remoto não muda o fato de que o que está sendo feito é a conversão de cursos presenciais em cursos à distância ou “híbridos”. Esse escamoteamento da realidade pretende fazer uma solução emergencial que pode parecer bem intencionada diante do contexto enraizar-se e aprofundar seu alcance de forma permanente.

Em excelente texto os professores Olinda Evangelista e Artur Gomes de Souza nos lembram de um detalhe nada irrelevante: em 2018, Bolsonaro, em campanha para a Presidência da República, vociferou que todos os níveis de ensino poderiam ser a distância!!! No mesmo texto lembram que ainda antes disso: “i) Os dados de 2018 fornecidos pelo IBGE (2019), evidenciam que apenas 25,2% dos jovens entre 18 e 24 anos frequentavam ou haviam completado cursos de educação superior no país; ii) as matrículas EaD: em 2018, as instituições privadas ofertaram 1.883.584 matrículas na modalidade EaD, o que representa 30% do total das matrículas privadas. Das novas matrículas privadas no Ensino Superior brasileiro, em 2018, 46% foram na modalidade EaD. A expansão dessa modalidade foi tão forte no setor privado que, faltaram somente 20.970 matrículas para ultrapassar as públicas presenciais. No caso das Licenciaturas, das 1.628.676 matrículas públicas e privadas 816.888 (50%) eram na referida modalidade.”

Ou seja, o que está, de verdade em jogo, não é a preocupação com “o futuro de toda uma geração” que argumentam que a pandemia pode fazer se perder (enquanto é o capitalismo que, de fato, mata esse futuro), mas sim o futuro de contratos como o celebrado entre a Google e o Governo de SC logo no início do período pandêmico e que preveem mais de 6 milhões de reais para que o Estado entregue todos os seus dados para serem administrados por uma multinacional (com todos os problemas de segurança e políticos decorrentes disso que não cabe analisar nesse texto).

Enquanto estudantes relatam ouvir aulas nos seus celulares com baixa capacidade de conexão e memória enquanto fazem entregas de bicicleta pela cidade ou estão com sérias dificuldades para manter-se de forma digna nas cidades onde residem para estudar, há quem prefira advogar pelo Google. Pior: alguns o fazem debaixo de discursos de inclusão ou da necessidade de dar atenção aos estudantes que não podem perder o vínculo com as universidades e atrasar suas formaturas.

Fica a pergunta: quais as perspectivas de futuro em uma “nova normalidade” que sequer permite que direitos mínimos, como o de estudar, sejam mantidos? Fazer enormes sacrifícios para se formar e acabar – ou continuar - em cima de uma moto ou alugando um carro para ter seu trabalho gerenciado por uma inteligência artificial que te controla pelo celular?

Há, por trás de dados já expostos e outros que ainda estão por vir, reflexos ainda não revelados de desilusão ou medo do futuro por parte desses jovens que abandonaram ou pensam em abandonar os estudos. Somente a luta poderá dar perspectivas diferentes para esses jovens e para o futuro da humanidade. Comecemos por derrotar a exclusão que quer se impor pelo ensino à distância e organizar a resistência pela base em cada escola, curso de graduação e pós e criar uma grande campanha contra o atual estado de coisas da educação em tempos de pandemia!




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