Política

GOVERNO BOLSONARO

Conheça o que pensa o reacionário Ernesto Araújo, chefe do Itamaraty de Bolsonaro

O problema do ocidente é o iluminismo, o casamento de marxismo cultural e globalização, para destruir a pátria e o gênero. Conheça essa e outras pérolas do apologista das Cruzadas e de todo reacionarismo dos últimos séculos que Bolsonaro nomeou para o Itamaraty.

quinta-feira 15 de novembro| Edição do dia

Foto: Sérgio Lima

Antes desconhecido, o diplomata elogiado por Olavo de Carvalho comandará o centenário Itamaraty. Atualmente servia como chefe da seção para Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Descrito pela grande mídia como “Bolsonarista” e “Trumpista”, essa descrição não dá conta do nível de reacionarismo e pusilanimidade intelectual do futuro ministro.

Defensor do “Ocidente” e seu “Deus Vivo na História” é um inimigo confesso do iluminismo e de todas ideias progressistas dos últimos séculos. Não prognosticamos quanto implementará de sua retrógrada visão de mundo, mas a nomeação de tamanho avatar de excrescências marca o reacionarismo do governo Bolsonaro. Para submeter o Brasil aos interesses estrangeiros nada melhor para Bolsonaro e sua trupe que colocar alguém que seja uma expressão intelectual de um alimento apodrecido regurgitado.

Qual a missão de Ernesto Araujo?

Bolsonaro não escolheu qualquer diplomata. Trata-se de um “diplomata junior” que é um ideólogo. Ele não só elogia Trump e Bolsonaro, mas até mesmo as Cruzadas! Sim as Cruzadas com todo seu sangue e carnificina e queima de livros e pessoas. Traça uma Grécia mais heróica que aquela do filme “300” e uma Pérsia ainda mais caricata. Os mouros batidos por seu astro-guia Dom Alfonso I merecem menos respeito que um cão atropelado na estrada. Defensor da patética ideia que o nazismo era de esquerda e socialista. Eis o “diplomata” bolsonarista.

O sinal de não escolher o equivalente diplomático de um “general 4 estrelas” mostra, como Bolsonaro tem insistido, que quer promover uma caça às Bruxas no Instituto Rio Branco.

Tal como o falacioso “Escola sem Partido” que é uma verdadeira ode à censura e ao pensamento único, o novo presidente do Brasil brada sobre o fim da ideologia nas relações exteriores, mas na verdade, quer impor uma ideologia, profundamente reacionária. O reacionarismo de Araujo está a serviço do programa de selvagem submissão aos EUA, com entrega de todos recursos nacionais e sangria permanente da pátria com a dívida pública.

Toda definição de pátria de Araujo, como mostraremos, é feita de forma negativa. Não há uma linha de nacional. Tudo é uma batalha genérica do Ocidente contra as heranças do Iluminismo. Não há um pensamento ou pensador brasileiro. É reação yankee com citações em outras línguas e vestes eruditas para florear a entrega do país.

A missão de Araujo é dupla, por um lado é de promover no Itamaraty a suposta “regeneração do Brasil” – sua entrega portanto – como diz Bolsonaro no tweet que oficia de Diário Oficial da União:

E por outro lado, como anseia a mídia, casar isso com algum “pragmatismo” digno da história centenária da política externa brasileira e a manutenção de determinadas “margens de manobra” para a elite e o precário Estado nacional construído ao longo de décadas.

Há um pouco de “pensamento positivo” (Araújo adora usar expressões em inglês, latim, alemão e grego, então usemos um barbarismo anglicista “positive thinking”) na mídia, querem e desejam que ele seja um atenuador de Bolsonaro, que agiria, como a maioria dos diplomatas, para aparar arestas e assim deixar que “políticas de governo” não interfiram em “políticas de Estado”. A saber, que o Brasil não se alinha a blocos políticos, que persegue interesses econômicos e políticos da elite sem levar em conta as ideias de seus parceiros comerciais.

Seguramente haverá um poderoso lobby para isso. Há tradição no Itamaraty, desde Jânio condecorar Che Guevara às relações da ditadura com o Leste Europeu, e mais forte que as tradições há interesses materiais. Os exportadores de proteína animal, e seus bilhões em recursos – que tem como maior mercado os países islâmicos – são um fator de contenção a Bolsonaro em sua aproximação com Israel. As plataformas integradas das multionacionais no Brasil e na Argentina também atuam contra maiores tensões com o vizinho ao sul, e um longo etc.

Mas não é bem assim que se expressa o novo chanceler.

O que o intestino de Ernesto Araujo pensa através de suas palavras?

Em seu blog, Metapolítica17 se insurge contra esse pragmatismo, primeiro como submissão intelectual e moral:

A aplicação dessa ideologia à diplomacia produz a obsessão em seguir os “regimes internacionais”. Produz uma política externa onde não há amor à pátria mas apenas apego à “ordem internacional baseada em regras”. A esquerda globalista quer um bando de nações apáticas e domesticadas, e dentro de cada nação um bando de gente repetindo mecanicamente o jargão dos direitos e da justiça, formando assim um mundo onde nem as pessoas nem os povos sejam capazes de pensar ou agir por conta própria. O remédio é voltar a querer grandeza. Encha o peito e diga: Brasil Grande e Forte.

Ou dito de outro modo, deixando mais claro que “há mais” que o pragmatismo, ele diz em seu artigo publicado na revista do Itamaraty:

“o Brasil – mesmo que o não queira – faz parte do Ocidente, e esse Ocidente está – mesmo que não o veja – em um conflito de gigantescas proporções por sua própria sobrevivência. Mas para posicionar se em tal cenário é preciso não enxergar a realidade apenas pelas lentes da política. De fato, ao lado da política, no sentido normal de processo decisório estatal e tudo o que o cerca, percebe se cada vez mais a existência e importância de uma metapolítica, ou seja, o conjunto de ideias, cultura, filosofia, história e símbolos que agem tanto no nível racional quanto no nível emotivo da consciência. Assim também, ao lado de uma política externa, o Brasil necessita de uma metapolítica externa, para que possamos situar nos e atuar naquele plano cultural espiritual em que, muito mais do que no plano do comércio ou da estratégia diplomático militar, estão se definindo os destinos do mundo. Destinos que precisaríamos estudar, não só do ponto de vista da geopolítica, mas também de uma “teopolítica.”

Teopolítica? Eis um pensamento “moderno” de nosso ministro-diplomata.

O amor à pátria de Ernesto Araujo é um capítulo à parte, cava no mais profundo sentimento de vira-lata, tudo que ele define do Brasil é pela negativa, pela falta. Sua visão de pátria é um amálgama de devaneios do Ocidente definido pela intervenção divina e coragem de antepassados estrangeiros: a batalha de Termópilas, a conversão ao cristianismo dos vikings, as cruzadas, a reconquista ibérica, o clamor por Deus que só ele vê em Trump...trata-se de pensamento que não fez as pazes com o século XVIII e em termos nacionais com o movimento modernista de 1922. Esse reacionarismo está em função de “batalhas culturais” mas principalmente da submissão e entreguismo ao imperialismo americano. A reação intelectual é só a sombra que acompanha o corpo do entreguismo e submissão econômica e geopolítica.

Para o pensador Araujo e as lombrigas que fazem as vezes de seus neurônios, Trump seria um “passe hail mary” do Ocidente, um tipo de jogada desesperada e esperançosa do futebol americano. Com essa ideia abre o artigo “Trump e o Ocidente” que publicou em revista do Itamaraty, onde não se cansa de elogios da missão de Trump em salvar o ocidente, tal como os gregos (com seus escravos e suas esposas escravizadas salvaram o ocidente). O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Neste artigo lemos a mistura de um mito fundador do “Ocidente” atravessando os séculos e as grandes batalhas da Grécia, Roma, Portugal misturado às passagens exemplares da crítica ensandecida de um movimento de destruição deste “Ocidente”, de dominação do mundo, destruição do ser humano pela via do casamento de globalismo e marxismo cultural (sic) via “ideologia de gênero”, ele diz:

“Querem um mundo de pessoas “de gênero fluido” e cosmopolitas sem pátria, negando o fato biológico do nascimento de cada pessoa em determinado gênero e em determinada comunidade histórica. Aliás, ainda sou do tempo em que ouvia professores marxistas na universidade conclamando cada jovem de todo o mundo a “lutar pela libertação da sua comunidade histórica”, o que soava falso, mas que pelo menos ainda continha um eco de Ésquilo, uma maneira leninista de dizer eleutheroúte patrída. Já hoje o marxismo conclama a destruir o conceito de comunidade histórica, a nação, e não fala mais de liberdade, hoje quer um mundo de fronteiras abertas onde todos são imigrantes e ninguém pode identificar se com a sua terra nem com a sua gente sem ser chamado de fascista. Nos dois casos, a negação do gênero e a negação da nacionalidade, o marxismo cultural busca o mesmo objetivo: enfraquecer o ser humano, torná lo uma paçoca maleável incapaz de resistir ao poder do estado, criar pessoas inseguras, desconectadas, incapazes de assumir um papel social próprio ou de ter ideia” (p.339)

Os fundamentos históricos desta perversão do “Ocidente”, inseparável de cristianismo e particularmente de catolicismo sebastianista é para ele o iluminismo e a Revolução Francesa:

“A Revolução Francesa subitamente contesta a nação. Como em tantas revoluções, o povo que queria pão, respeito e liberdade, mas que amava a monarquia como símbolo nacional, foi rapidamente traído pela elite intelectual que o manobrara para chegar ao poder e que imediatamente começou a dar lhe opressão, miséria e discurso ideológico, juntamente com a cabeça de Luís XVI, que ninguém pedira. Os revolucionários mais extremos queriam um mundo sem classes, sem fronteiras, sem Deus, sem família, sem tradições, sem nação.” (340)

E insiste na próxima página: “Mas não terá sido a Revolução Francesa o laboratório onde se criaram os vírus de todos os despotismos que avassalaram o mundo desde então?”

A revolução francesa é alvo de todo reacionarismo desde sempre. A entrada triunfal do povo em cena é o maior temor e ideia a ser pra sempre banida da história. Ideia que Araujo comunga com todos reacionários que o procederam desde 1789.

A esquerda anti-cristo e Bolsonaro e Trump como Messias feitos homens

É de uma profundidade ímpar a seguinte tese de Araujo em seu blog, em uma entrada de 27 de setembro:

Haddad é o poste de Lula.
Lula é o poste de Maduro, atual gestor do projeto bolivariano.
Maduro é o poste de Chávez.
Chávez era o poste do Socialismo do Século XXI de Laclau.
Laclau e todo o marxismo disfarçado de pós-marxismo é o poste do maoísmo.
O maoísmo é o poste do inferno.
Bela linha de transmissão.

Toda filosofia de Araujo resume-se a estas associações, é um pensamento que descobriu e está fascinado com o liquidificador. A descrição de seu blog explícita melhor a ligação do nefasto plano em curso de dominação planetária:

“Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.”

Para se enfrentar contra “tudo que está aí”, há alguns séculos, Araujo recorre ao ideólogo de Trump, Steve Bannon e a leitura de cabeceira dele, Rene Guenon. Para o novo ministro a missão de Bolsonaro, tal como a de Trump, quando o “mito encontra a história” é a da “luta titânica entre a fé e sua ausência, entre o mundo construído pela fé e o mundo que vai sendo destruído pelos “valores”. Podemos não querer estar do mesmo lado de Trump nessa luta, mas precisamos reconhecer que ele a postula, que ele é um líder nesse combate, que não é um “bilionário governando para bilionários” como algum detrator o chamou. Bilionário não diz we want God.

Araujo quer Deus. O imperialismo quer business. Sua putrefação intelectual está a serviço de servir a um Deus-Dólar crendo – ou dizendo – estar servindo na batalha de salvação do Ocidente e seu Deus.

E é necessária a intervenção divina para salvar o Brasil, sabe-se lá se esperamos um Deus ex Machina do Deus de Israel ou do novo mandatário da Casa Branca. Essa confusão entre Deus e Trump, entre Ocidente e EUA é funcional ao plano de submissão de Bolsonaro e dos generais:

“Somente um Deus poderia ainda salvar o Ocidente, um Deus operando pela nação – inclusive e talvez principalmente a nação americana. Heidegger jamais acreditou na América como portadora do facho do Ocidente, considerava os EUA um país tão materialista quanto a União Soviética e incapaz da autopercepção metafísica indispensável à geração de um “novo começo”, como ele dizia, essa refundação do Ocidente que repetiria em outros termos o primeiro começo gerado pelos antigos gregos. Talvez Heidegger mudasse de opinião após ouvir o discurso de Trump em Varsóvia, e observasse: Nur noch Trump kann das Abendland retten, somente Trump pode ainda salvar o Ocidente.”

Eis como em linhas muito tortas o imperialismo escreve seu capítulo de reacionarismo no país. Ideias podres para acompanhar a entrega do pre-sal, das estatais e chacoalhar o continente para ainda mais perto de Wall Street.




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