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FRANÇA

Conheça o operário Philippe Poutou, anticapitalista que se destacou no debate presidencial da França

Philippe Poutou, operário da Ford e candidato anticapitalista pelo NPA (Novo Partido Anticapitalista), foi o grande destaque do debate presidencial na França, enfrentando abertamente os candidatos dos capitalistas e sendo “trending topic” mundial no Twitter e assunto em todos os locais de trabalho nesta terça-feira. Uma candidatura que foi possível, a partir da batalhar que a Corrente Comunista Revolucionária (CCR), organização irmã do MRT na França foi parte importante, junto a outros setores do NPA, para superar os obstáculos antidemocráticos do regime burguês e o boicote de setores da própria direção majoritária do partido.

André Acier

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 5 de abril de 2017| Edição do dia

O primeiro grande debate presidencial na França teve enorme repercussão mundial nesta terça-feira. Isso não se deveu à performance dos principais candidatos da burguesia, como o ex-banqueiro Emmanuel Macron ou a racista e xenófoba Marine Le Pen. O grande personagem de um debate cheio de políticos corruptos da classe dominante foi um operário metalúrgico da Ford, candidato anticapitalista do NPA (Novo Partido Anticapitalista), Philippe Poutou.

O “Grande Debate”, veiculado em rede nacional pela BFMTV e a CNews, contou com a presença dos 11 candidatos presidenciais. Além de Macron e Le Pen, outros três (Benoît Hamon do Partido Socialista, François Fillon da direita conservadora e o neoreformista Jean-Luc Mélenchon) disputam como favoritos. Assim se apresentaram os candidatos, sóbrios e engravatados, na foto “familiar” que reunia todos antes do debate. Todos exceto um.

Poutou deu o tom do que viria a seguir já no início: se recusou a sair na foto “amigável” com os políticos dos capitalistas. Sentado na tribuna, de camiseta larga como quem volta do trabalho, dissipava ao olhar de todos a farsa daquela cena.
Começou mostrando as diferenças entre os políticos naquele debate: “Junto com Nathalie Arthaud [Lutte Ouvrière], creio que sou o único nesse debate a ter um emprego normal...acredito que posso falar em nome de milhões”, referindo-se à compreensão, na própria pele, das condições de exploração e opressão da população trabalhadora francesa, nativa e imigrante.

(Para ver legendas, clicar "Legendas/CC)

Poutou falou o que os candidatos que se dizem “de esquerda”, como Mélenchon, calaram. Parecia haver um “pacto de não agressão” contra os candidatos capitalistas – todos envolvidos em múltiplos escândalos de corrupção. O operário atacou frontalmente Macron, Fillon e Le Pen, desmascarando em cada um deles a vontade de aplicar os ajustes pedidos pela Alemanha.

Contra Fillon, o metalúrgico da Ford foi taxativo “Quanto a Fillon, na minha frente, quanto mais buscamos, mais encontramos e sentimos a corrupção; ele é parte dos senhores que querem nos explicar a necessidade de do rigor econômico e da austeridade, quando se beneficia metendo a mão no dinheiro público”. Fillon foi acusado nas últimas semanas de um escândalo de corrupção envolvendo lucros ilícitos com verba pública.

O ódio de classe de Fillon saiu por todos os poros, balbuciando em meio à intervenção do candidato do NPA, “vou te meter um processo na cara”.

Logo depois, Poutou se voltou contra a candidata da formação da extrema direita Frente Nacional, Marine Le Pen. Foi o ponto alto do debate:

Também temos aqui Marine Le Pen, que desvia dinheiro dos cofres públicos, não só aqui na França, mas em toda a Europa. O mais cínico é ver que a Frente Nacional, que se diz anti-sistema, se protege graças às leis do sistema, graças à imunidade parlamentar

Le Pen dispensou o comparecimento a uma investigação judicial sobre casos de corrupção e não prestação de contas, alegando imunidade parlamentar. Le Pen cortou Poutou para dizer “Não imaginava que você estivesse do lado da polícia”. Ao qual Poutou respondeu “Quando nós trabalhadores somos chamados pela polícia, não podemos alegar imunidade operária. Sinto muito”. Arrancou aplausos do público presente, que fez questão de quebrar as regras de “não intervenção” no debate.

Os analistas franceses, depois do debate, usaram este exemplo de Poutou para concluir que ninguém antes havia dito que Le Pen era parte do sistema, razão pela qual a direitista sofreu um duro golpe contra seu principal argumento.

(Para ver legendas, clicar "Legendas/CC)

Além disso, o candidato do NPA desmascarou a mentira da candidata da Frente Nacional, segundo a qual “os delegados sindicais tem proteção trabalhista”. “Isso é mentira,” disse Poutou. “Não existe proteção aos delegados sindicais na França, hoje os delegados sindicais são ameaçados ou demitidos, como acontece na Goodyear ou na Air France. E quando são chamados pela polícia, eles tem de ir!

A Macron, ex-banqueiro e já integralmente mesclado com as jogatinas políticas dos capitalistas (foi Ministro da Economia do governo Hollande), Poutou disse que “Já se vê que você não entende nada do que se passa com a vida cotidiana das pessoas”.

A modo de conclusão do debate, e como resposta ao nacionalismo tradicional que fica implícita na expressão “dirija aos franceses suas considerações finais”, Poutou disse não iria dirigir-se “aos franceses”, mas “a toda a população, especialmente aos explorados”, ou seja, também aos estrangeiros e imigrantes. Referiu-se entusiasticamente à greve geral na Guiana Francesa, pela população negra que combate os baixos salários, “um movimento contra a pobreza e os serviços públicos, contra os restos do colonialismo francês. A Guiana Francesa mostra que é possível resistir contra a opressão e a acumulação de riqueza”. “Votar no NPA é um voto útil: uma perspectiva de revanche, de luta social, para que os capitalistas paguem pela crise”.

A mídia francesa e de toda a Europa destacou a intervenção do metalúrgico da Ford, como o britânico The Guardian, The Herald, Huffington Post, os franceses Le Point, Le Figaro, Mediapart e FranceTV (que fez uma série de 10 vídeos com as melhores frases de Poutou) e especialmente o Le Monde, cujo vídeo expressando as intervenções do candidato do NPA chegou a 4 milhões de visualizações em poucas horas.

Muitos periodistas nacionalistas, escandalizados com esse combate anti-imperialista em rede nacional, começaram a assinalar uma suposta falta de respeito por parte de Poutou, que acima de tudo não quis sair na foto com reacionários e xenófobos.

Para nós, que como MRT no Brasil somos parte da Fração Trotskista pela Quarta Internacional, é um orgulho enorme poder acompanhar e fortalecer esse combate anticapitalista e anti-imperialista de Philippe Poutou.

Nossa corrente no interior do NPA, a Corrente Comunista Revolucionária (CCR), foi parte dos que batalharam contra o regime antidemocrático francês, a fim de que Poutou pudesse colher as absurdas 500 assinaturas de prefeitos franceses, exigidas para que o NPA pudesse ter candidatura.

Mas esse não foi o único obstáculo. Essa enorme militância pela candidatura de Poutou se deu inclusive contra setores da ala majoritária do NPA (dirigida pelo Secretariado Unificado), que boicotou desde o início a campanha militante por uma candidatura operária e anticapitalista independente do NPA. Não fosse essa batalha decidida da qual a CCR foi parte, o partido sequer teria candidato.

Trata-se de apostar em intervir, de acordo com as exigências das circunstâncias, inclusive no terreno inimigo das eleições burguesas, combatendo o parlamentarismo burguês "do alto da tribuna parlamentar", como dizia Lênin; pensamento comum esse que motivou a participação do MRT com candidaturas anticapitalistas pelo PSOL nas eleições municipais de 2016, ou mesmo a intervenção do parlamentarismo revolucionário do PTS na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores na Argentina.

Um acerto enorme, demonstrado no próprio debate presidencial. A grande repercussão internacional da intervenção de Poutou mostra o espaço de construção para uma esquerda verdadeiramente revolucionária, anti-imperialista e internacionalista, que ao contrário dos novos reformismos como Mélenchon na França, confia irredutivelmente na força da classe trabalhadora, para que os capitalistas paguem pela crise.

Transcrição dos vídeos: Jean Miranda e Odete Cristina

Legendagem: Daniel Avec




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