Cultura

CONTRA O CONGELAMENTO DA CULTURA EM SP

"Congelar a cultura é um ato sem perdão"

Na segunda, 27 de março, dia internacional do teatro, circo e grafite trabalhadores e trabalhadoras da cultura de São Paulo se reuniram em frente ao teatro municipal, que amanheceu cercado por grades - talvez por medo de que assim como diversos órgãos culturais foram ocupados no último ano contra os ataques federais a cultura, o teatro municipal também fosse ocupado - para protestar contra o congelamento dos projetos de fomento feitos pela prefeitura.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

quarta-feira 29 de março| Edição do dia

O prefeito João Dória, "o playboy de plantão" na prefeitura, e seu secretário Andre Sturm, que iniciaram seus mandatos apagando o maior mural de grafite da América latina e criando a lei anti pixação, que criminaliza puxadores, agora anuncia também o congelamento do repasse de impostos aos programas de fomento à cultura.

Os trabalhadores e trabalhadoras da cultura saíram às ruas no II grande ato em defesa da cultura reivindicando uma cultura pública para os trabalhadores que através de sua força de trabalho geram o dinheiro que é repassado para os projetos de fomento, mas que hoje tem pouquíssimo acesso a eventos artísticos e serão ainda mais privados com o congelamento desse repasse.

Em frente ao teatro municipal, ainda na concentração do ato, vários artistas de diversos movimentos fizeram falas nesse sentido, colocando que "congelar a cultura é um ato sem perdão"; a importância social dela, principalmente em regiões periféricas; que a arte sempre existiu resistindo por não ser mercadoria e não oferecer lucro aos capitalistas, combatendo o projeto de privatização dos órgão culturais; e que a cultura "não vai deixar de arrebentar os portões do palácio quando for necessário".

O ato saiu do teatro municipal com cerca de 1500 pessoas e percorreu o centro de São Paulo indo até a secretaria de cultura na galeria Olido, que se encontrava fechada e onde os trabalhadores e trabalhadoras da cultura não foram recebidos por Andre Sturm e onde o ator Pascoal da Conceição recitou "Ode ao Burguês" vestido de Mário de Andrade; o ato terminou em frente à prefeitura.

"Ode ao burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
Um colar... ?Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!... "

Fotos: Rafael Barros




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