Educação

PROFESSORES DE SP

Confusão e caos são a marca do retorno ao trabalho dos professores da rede pública de ensino paulista

Nessa quarta-feira (22) os professores da rede pública de ensino do Estado de São Paulo retornaram ao trabalho. Após a suspensão das aulas e adiantamento das férias os professores tiveram três dias de replanejamento. O que esse primeiro momento de retorno ao trabalho revela das intenções, insuficiência e demagogia do governo? Debates sobre qual a função da escola e o papel que os professores podem cumprir em meio à pandemia estão na ordem do dia.

sexta-feira 24 de abril| Edição do dia

Os professores da rede de ensino paulista desde o dia 22 de abril retornaram ao trabalho (teletrabalho). Após o término das “férias”, que foram adiantadas por conta da pandemia, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo sem qualquer diálogo organizado com a comunidade escolar e entidade de classe (sindicato) impôs um cronograma de replanejamento (22, 23 e 24 de abril) e a consequente retomada do ensino (à distância).

Em meio a uma situação excepcional João Doria (PSDB), governador do Estado de São Paulo, e Rossieli, secretário da educação do Estado de São Paulo, querem instalar um clima de normalidade no ensino e de comprometimento com a vida das centenas de milhares de crianças e jovens da rede pública de ensino paulista. Basta pisar no chão da escola ou, já que estamos em meio a uma pandemia, viver a realidade do cotidiano de um estudante da rede pública de ensino para saber que isso não é verdade.

Não é de hoje que não há seriedade alguma do governo com o processo educativo e a vida dos estudantes. Mas em tempos de pandemia isso fica mais evidente e cobra um preço caro: vidas! O governador anunciou, por exemplo, um auxílio alimentação para uma parcela bem reduzida de estudantes no valor de R$ 55,00 mensal. Que ser humano consegue se alimentar com R$ 1,80 por dia? Esse é nível de preocupação do governador e secretário. Em meio à fome, ao desemprego, ao desespero do luto ambos querem a normalidade no ensino e da vida. Impõe aos professores uma dinâmica de trabalho irreal/sufocante e negligencia a realidade da vida dos estudantes.

Ou seja, a qualquer custo que retomar a atividade escolar independente da forma que tiver que ser. A ânsia pela busca da normalidade do processo educativo é colocada acima da própria vida de toda comunidade escolar. Tal situação se escancarou no replanejamento do trabalho escolar.

NEGRITO Replanejamento: Confusão e Caos

Desde que iniciou o replanejamento os professores da rede de ensino paulista foram tomados por uma dinâmica extenuante de trabalho. Uma enxurrada de informações técnicas com disfarces de preocupação pedagógica em meio a palestras motivacionais que, segundo a Secretaria de Educação (SEDUC), buscam orientar o trabalho educativo no próximo período. A qualquer custo o governo quer implementar o Ensino à Distância. Vale destacar, que a própria imposição do Ensino à Distância (o governo insiste em afirmar “ensino remoto”) não à toa passou por fora de qualquer discussão organizada com a categoria.O EAD é rechaçado por professores e especialistas da educação, pois não há dúvidas que embora a tecnologia possa e deva ser uma aliada do processo educativo o saber escolar se constrói no chão da escola. Além da própria discussão em sí do papel social mais amplo da escola.

Na prática o que se observou nesses três dias de replanejamento foi, além da demagogia do governo e da imposição de um clima de “normalidade”, uma verdadeira confusão e insuficiência do sistema de teletrabalho/teleaula adotado pela SEDUC. O desespero de muitos professores diante das incertezas e assédio das direções das escolas pode ser observado no próprio chat do aplicativo criado pela secretaria (Centro de Mídias). Todos os dias a cada atividade do cronograma inúmeras mensagens foram enviadas para mostrar “olha estou aqui” com nome, escola, RG, etc. Uma espécie de assinatura de ponto.

Ao longo dos três dias o sistema adotado (aplicativos, sites, etc) esteve instável inviabilizando a participação daqueles professores que tem as condições materiais e de vida para o acesso. Vale destacar que os professores do estado conformam uma categoria majoritariamente feminina e que amarga salários baixíssimos. A crise sanitária afeta substancialmente esses setores oprimidos e precários. Nesse mês, por exemplo, a maior parte dos professores que recebem vale alimentação (não são todos que tem o direito ao benefício), recebeu do governo uma média de R$ 30,00. Um verdadeiro vale-fome em um momento que ter imunidade é fundamental.

A imposição da normalidade de uma rotina de trabalho por fora de uma preocupação efetiva com os dilemas reais que enfrentamos no agora se expressou com as orientações de preenchimento de diário, elaboração de planos de aulas, aplicação de avaliações externas como as AAPs, entre outras orientações que remetem a uma dinâmica “normal” de trabalho no cotidiano da escola. Maira Machado, do Movimento Nossa Classe Educação e diretora pela Oposição da Apeoesp, denunciou o caótico replanejamento do estado.

É importante destacar que há uma sensibilidade geral dos professores quanto às preocupações com o processo educativo dos estudantes, mas acima de tudo, com a vida dos nossos estudantes e seus familiares. Desde que iniciou a suspensão gradativa das aulas e mesmo durante o período de férias é generalizado o relato de professores que tem buscado contato com seus estudantes, seja para ajudar na orientação de estudos, entendimento da crise ou mesmo orientação para obtenção de auxílios oferecidos pelos governos. Além de campanhas financeiras e de arrecadação de alimentos, pois sabemos que os estudantes da rede pública estão passando por realidades absolutamente miseráveis. Essa solidariedade se estende aos colegas de trabalho. Uma vez que muitos professores, em especial os professores com contratos temporários e eventuais, estão passando por situações também desesperadoras.

Nós do Nossa Classe Educação, desde o início da pandemia reivindicamos a criação de um Comitê com professores, estudantes e seus responsáveis para que desde aí possamos discutir e decidir a função da escola em meio à pandemia. Expressamos o nosso absoluto rechaço ao EaD e a necessidade imediata de testagem massiva e medidas emergências para se combater a crise do coronavírus.

Os professores e as escolas podem cumprir um papel superior do que o governo demagogicamente quer nos impor. A Apeoesp segue adormecida em meio ao caos. Vale destacar que semanas atrás as centrais sindicais assinaram uma carta reivindicando o protagonismo do Congresso frente ao negacionismo de Bolsonaro. Aquele mesmo Congresso que votou favorável as reformas e cortes no orçamento da educação e saúde. Antes do replanejamento, o APEOESP incitou os professores a “boicotarem” o cronograma da SEDUC. Colocando no marco de uma decisão individual, ou seja, de cada professor sem qualquer discussão organizada sobre essa ação. Os deixando isolados e expostos ao assédio moral de suas direções. A APEOESP além de defender e exigir que ninguém, seja estudante ou professor, seja prejudicado durante esse período excepcional deveria estimular a auto-organização e que as escolas pudessem cumprir seu verdadeiro papel.

É necessário romper com qualquer ilusão de que pela via institucional encontraremos uma resposta efetiva para combater a pandemia. Bolsonaro, Mourão, os militares e setores golpistas já nos deram inúmeras provas que são incapazes de querer outra coisa senão preparar as nossas covas. A saída para a pandemia e toda crise que nos acomete só pode ser dada pela classe trabalhadora. O Nossa Classe Educação é uma agrupação nacional de professores impulsionada pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT). Acreditamos na importância de batalhar pela organização dos trabalhadores para impor medidas de emergência, mas também lutar por uma nova Constituinte, que seja livre e soberana. Que questione todo o regime e coloque as nossas vidas acima dos lucros deles.




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