Internacional

CONFERÊNCIA LATINO-AMERICANA E DOS EUA

Confira a intervenção de Javo Ferreira da seção boliviana da FT-QI no segundo dia de Conferência

Confira a fala de Javo Ferreira, dirigente da Liga Operária Revolucionária pela Quarta Internacional (LORCI) da Bolívia, organização irmã do MRT e integrante da Fração Trotskista - Quarta Internacional, no segundo dia da Conferência Latino-Americana e dos EUA. Este dia de conferência foi composto de mesas discutindo o movimento operário na América Latina e a conjuntura política do continente.

terça-feira 4 de agosto| Edição do dia

Convocada a partir da Frente de Esquerda dos Trabalhadores da Argentina (FIT-U em espanhol), a Conferência Latino-americana e dos EUA contou com a adesão de dezenas de organizações e partidos socialistas do continente interessados em discutir, a partir dos enormes processos de luta do último período, como organizar a classe trabalhadora para enfrentar a crise capitalista. O segundo dia da Conferência seguiu com mesas discutindo o movimento operário na América Latina e a conjuntura política do continente, onde Javo Ferreira da LORCI, representante da Fração Trotskista na Bolívia, realizou sua intervenção.

Veja abaixo a intervenção e sua transcrição traduzida para o Esquerda Diário

Boa tarde companheiros, sou Javo Ferreira, dirigente da Liga Operária Revolucionária pela Quarta Internacional (LORCI) da Bolívia, organização irmã do PTS e parte da Fração Trotskista - Quarta Internacional. Quero saudar os e as participantes desta conferência e aos companheiros da FIT-U que realizaram esse importante chamado. Há muitas questões para se discurtir, porém quero ressaltar 3 questões estratégicas que a luta de classes coloca e que são fundamentais para avançar na luta por construir organizações socialistas e revolucionárias.

A primeira tem a ver com o papel do imperialismo na região; a segunda com a estrutura de classes racializada que temos na América Latina e em grande parte do continente, que se traduz opressão nacional e cultural sobre os povos indígenas, alguns dos quais formam parte da classe trabalhadora, precarizada e informalizada.

O levante equatoriano de 2019, as lutas no Peru como em Espinar Cuzco, ou a resistência ao golpe de Estado na Bolívia, colocaram em evidência a enorme importância das tarefas democráticas estruturais para a classe trabalhadora. É por isso que, a partir da LORCI, temos procurado teorizar sobre esse problema estratégico para pensar a Revolução na Bolívia de hoje, recuperando dialeticamente Mariategui e as indubitáveis contribuições de Trotsky sobre a questão negra, polemizando com as correntes pós-coloniais e descoloniais que se apoiam nesse problema estrutural para sugerir políticas institucionais e culturalistas, que temos visto serem aplicadas faz quase 2 décadas e que, no caso de Evo Morales, serviram para conter e passivisar o movimento de massas, sem levar a frente mudanças estruturais para a maioria indígena.

A terceira, que é estratégica e que já foi mencionada por Jimena, tem a ver com a atitude das diversas organizações socialistas diante do Estado e, centralmente, diante de seus aparatos de repressão, a polícia e as Forças Armadas, que como destacava Lênin, é chave para distinguir os reformistas dos revolucionários. Essas três dimensões estratégicas excluem desde o início as concepções que reduzem a ação revolucionária ao mero lutismo, ou seja, ver as lutas sem considerar a estrutura e a dinâmica de classe dessas lutas, assim como o papel do imperialismo nas mesmas.

Considerando que não existe luta contra o fascismo ou a ditadura - adjetivos com os quais o POR, construído pelo lendário militante Guillermo Lora, qualificou o governo de Evo Morales - se não se luta contra o imperialismo, já que, como vimos na Bolívia, mas também na Venezuela, a ingerência golpista do imperialismo se realiza em nome da "democracia" e promovendo "lutas" a serviço desses objetivos reacionários.

O desprezo pela teorização das diversas opressões, a nacional indígena ou a do movimento de mulheres, por exemplo, é a expressão de uma concepção sindicalista e lutista de política e portanto não revolucionária. Só os que como nós procuraram teorizar a partir do marxismo revolucionário as diversas formas de opressão nacional-indígena, como no livro que publicamos graças ao IPS, a terceira edição sobre "comunidade, indigenismo e marxismo", pudemos rachaçar sem dúvidas o golpismo na Bolívia e sem brindar nenhum apoio político ao MAS de Evo Morales.

Por último, é o referido sobre a atitude frente aos aparatos de repressão do Estado. Acreditar que os integrantes dessas forças são parte da classe trabalhadora, que se mobilizava junto a grupos paramilitares e de crucifixos em mão, conduziu o POR na Bolívia a uma colaboração obscena com o golpismo pró-imperialista, que hoje se reafirma em sua negativa a apoiar a greve e o bloqueio de rodovias que começaram nessa segunda. A atitude frente ao imperialismo, frente aos aparatos repressivos do Estado, frente às demandas democratico estruturais como a opressão nacional são estratégicas caso se queira pensar não apenas a recomposição das fileiras operárias, que por exemplo na cidade de EL Alto são aymares, mas também para forjar uma hegemonia operária independente e a aliança operária, campesina e popular. Só com uma intervenção ativa na luta de classes será possível recuperar as organizações dos trabalhadores, expulsando as burocracias sindicais que hoje se veem empurradas a tomarem algumas medidas.

Para além disso, esses elementos também são seguros para conquistar uma visão sensata da realidade, evitando o liquidacionismo que significa para os revolucionários meterem-se no campo golpista nesses momentos e que está conduzindo um partido histórico como o POR a liquidar o peso do trotskismo no país.

Quero terminar afirmando que isso é importante, porém insuficiente. É necessário encontrar um caminho até as massas em luta, é necessário encontrar as formas de levar adiante essas discussões para o interior dos trabalhadores e do movimento de massas. Esse caminho, para nós, foi e continua sendo o enorme papel que cumpriu o La Izquierda Diario, não só como instrumento de luta, ao romper o brutal cerco midiático que se instalou como parte do golpe, mas também como ferramenta de organização e politização dos setores de vanguarda, onde um grupo de apenas umas dezenas de revolucionários podem semear ideias em dezenas de milhares de trabalhadores avançados, lutando por construir uma voz independente das diversas instituições burguesas, enfrentá-las e levantar uma estratégia que nos permita vencer.

Espero que possamos abordar esses três elementos até amanhã, muito obrigado e o meu abraço à toda conferência!




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