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Conferência nacional do PTR do Chile: as tarefas da esquerda revolucionária

Com representação de cerca de 50 delegados de diversas cidades do país, realizou-se em Santiago, nos dias 28, 29 e 30, a terceira conferência nacional do Partido dos Trabalhadores Revolucionários (PTR). A instância contou com a participação de Claudia Cinatti, da direção nacional do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), integrante da Frente de Esquerda e dos Trabalhadoras (FIT, em espanhol) a principal força política da esquerda argentina, e Edison Urbano, dirigente do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) brasileiro. Aqui, apresentamos os apontamentos e resoluções nacionais centrais que a conferência debateu.

sexta-feira 4 de outubro| Edição do dia

Uma direita sem hegemonia e uma nova esquerda do regime

A situação nacional está atravessada por diversas tendências: 1) O esgotamento econômico, entre o “já não mais” do crescimento alto e o “ainda não” da crise, com eixo na desaceleração ou crescimento moderado (2-3%) que, por sua vez, é a base do “choque de expectativas” com o governo de Piñera; 2) Uma crise contida do regime, com a direita sem hegemonia e um governo débil, a centro-esquerda (ex-Concertación e ex-Nova Maioria) numa forte crise e dividida, mas com peso político; 3) a emergência de uma nova esquerda do regime (PC-FA) como um fator novo em relação aos anos anteriores, que se fortalece em influência política e empalma com amplas expectativas de reformas sociais e democráticas; 4) No momento atual, um baixo nível de luta de classes (depois de uma conjuntura de greves, em junho e julho, encabeçada por professores, antecedida pela rebelião portuária de novembro e dezembro de 2018, em Valparaíso, e os protestos de vanguarda pelo assassinato de Camilo Catrillanca). Todavia, os principais movimentos não foram derrotados, e temos visto emergir o movimento de mulheres, com a força da mobilização, além de que surge a possibilidade de um movimento ambientalista nos marcos de um fenômeno internacional.

Nessa situação, primam os traços de relativa estabilidade e o cenário eleitoral ganha cada vez mais peso, não só as municipais de 2020, mas também as presidenciais de 2021.

O cenário mais provável que observamos é o de um predomínio da luta política entre partidos, principalmente no terreno parlamentar e com o ciclo eleitoral que começa no ano que vem. Ainda assim, que não haja crises, radicalização da luta de classes e/ou político-ideológica não significa que esse não seja um cenário no qual não se abrem condições para a atividade dos revolucionários, e sim o contrário. É um cenário com amplas expectativas de massas e um reformismo (PC) e neorreformismo (FA) que tende a se fortalecer. Com passividade ou sem radicalização, com sinais à esquerda, com expectativas em reformas, como expressão do que ainda não pôde ser fechado da crise do regime aberta em 2011, à qual não pôde por fim Bachelet e tampouco poderá Piñera, embora esteja contida, e embora o reformismo tenha sido importante para contê-la. Por isso, ainda que haja pouca luta de classes, também há a presença de movimentos, e com ilusões mais possibilistas, de conquistas graduais nos marcos do regime.

O exemplo das “40 horas” expressa o aumento das expectativas e das aspirações de alguns setores de massas. Tem um sinal à esquerda, e é uma enorme oportunidade para dialogar com milhares e buscar construir uma ala revolucionária e socialista nos novos fenômenos que se desenvolvem.

Esse cenário não exclui que hajam movimentos ou mobilizações. É provável que tanto a discussão das reformas (como a das aposentadorias) quanto a da redução da jornada de trabalho possam ser acompanhadas por mobilizações ou atos, mas que tendam a ser mais de “pressão” e contidas, e que a FA e o PC busquem conduzi-los cada vez mais ao terreno eleitoral. Não é um cenário de espera passiva pela luta de classes ou pela crise, e sim de intervenção política no qual possamos, no calor das discussões e dos novos fenômenos, com um diálogo e um programa transicional, forjar uma ala anticapitalista e socialista.

Um exemplo é a atual discussão das “40 horas”. Aqui, colocamo-nos no campo da luta pela redução da jornada de trabalho e buscamos ser os maiores impulsionadores dessa luta, denunciando o engodo da flexibilização e da precarização do trabalho que o governo e os empresários querem nos impor, através de uma campanha de terror. Denunciamos o autoritarismo da direita, que ameaçou recorrer ao Tribunal Constitucional da ditadura, composto por 9 milionários indicados a dedo pela casta política, bem como as ameaças de Piñera, que advertiu que usará do veto, um verdadeiro poder monárquico, caso a lei seja aprovada pelo parlamento.

Contra essas iniciativas da direita e outras que certamente farão os demais partidos do regime, propomo-nos a realizar uma campanha e a lutar para que se desenvolva um movimento pela redução da jornada de trabalho e contra o engodo da flexibilização, e chamamos as principais organizações sindicais e estudantis, a CUT, No+AFP, coordenações feministas e outras organizações sociais agrupadas na mesa de “unidade social” a impulsionar coordenação pela redução da jornada de trabalho e para sermos milhões nas ruas para conquistar essa reivindicação, apoiando-se no amplo apoio popular que, ao se ativar, poderia ser uma força poderosa.

Nossa luta é pela redução da jornada mas sem a gradualidade que sempre posterga nossos interesses e prioridades, e atacando o lucro dos capitalistas, com um salário mínimo vinculado à “cesta” básica familiar, repartindo as horas de trabalho entre empregados e desempregados.

Por uma esquerda anticapitalista das e dos trabalhadores, que enfrente a direita de forma independente da ex-Nova Maioria

O PTR luta por construir um grande partido revolucionário, anticapitalista e socialista da classe trabalhadora, que se proponha a acabar com toda a herança da ditadura e desse regime político e social governado pelos grandes capitalistas, os monopólios transnacionais e o imperialismo.

Para conquistar as aspirações sociais e democráticas que, durante esses anos, milhões de trabalhadores, estudantes e mulheres puseram no topo da agenda, é preciso romper com os capitalistas e seus partidos.

Para conquistar demandas tão sentidas, como a educação pública, gratuita, democrática e não sexista; o aborto legal, livre, seguro e gratuito, o fim das AFPs [administradoras dos fundos de pensão] e por um sistema previdenciário gerido pelos trabalhadores e aposentados; o fim do trabalho precário e a redução da jornada de trabalho; para enfrentar a depredação ambiental por parte dos grandes monopólios e transnacionais: é preciso enfrentar esse sistema!

Lutamos por uma alternativa independente dos partidos da ex-Nova Maioria. A Frente Ampla crê que é possível satisfazer nossas reivindicações dentro desse regime, e até com alianças com os velhos partidos do progressismo neoliberal como o PS. Como vimos, essa estratégia só pode levar a frustrações, como a da última acusação constitucional contra Cubillos, que resultou em fracasso depois dos votos favoráveis ao governo de cinco deputados, entre os quais dois da DC. Frente ao debate da redução da jornada de trabalho, alguns partidos que “apoiavam” o projeto de lei já falam de introduzir aspectos de flexibilidade em troca da redução. Não são uma alternativa para acabar com a herança da ditadura.

Para nós, a força não reside na “unidade da oposição” com esses partidos, mas sim em desenvolver as tendências à auto-organização que estiveram presentes nas mobilizações estudantis, operárias, do movimento de mulheres, e nas lutas regionais, com vistas a que sejam os trabalhadores e o povo que controlem as riquezas do país em benefício de todo o povo trabalhador, na perspectiva de um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Para potencializar esse chamado e um programa de independência política é que nos propomos a intervir com candidatos próprios nas eleições municipais de 2020. Para isso, iniciaremos nossa legalização em Santiago, Antofagasta e Arica e buscaremos potencializar a coleta de assinaturas que já iniciamos em Valparaiso como parte do lançamento de nosso projeto de partido a nível nacional somado às regiões onde já temos legalidade partidária (La Araucanía, Los Ríos e Los Lagos).

Nessa luta, o exemplo da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT) argentina, única alternativa independente do macrismo e do peronismo que chama a enfrentar de forma consequente o regime do FMI, é um exemplo que, se existisse em nosso país, fortaleceria muito a luta por uma alternativa de independência política dos trabalhadores.

Fortalecer La Izquierda Diario como uma voz anticapitalista

Uma das principais conquistas que tivemos esse ano como organização foi o salto que demos no La Izquierda Diario no primeiro semestre deste ano, alcançando 700 mil visitas mensais. Nas redes sociais, temos 100.000 seguidores no Facebook. No Instagram, superamos os 23 mil seguidores e, lá, nosso auditório é majoritariamente de juventude.

Acreditamos que existe um espaço que podemos explorar de maneira ativa, de modo que o diário deve ser uma das hierarquias da atividade de toda a militância partidária e das agrupações onde militamos com dezenas de independentes. Cremos que existem as condições para uma ofensiva no uso e na militância do diário, como uma tarefa de conjunto da organização, seja no próprio diário, nas redes, no audiovisual, que nos permita crescer amplamente em acessos, visualizações e materiais, como uma forma de pratica política que, usando nossas melhores ferramentas, permita aumentar nossa influência política.

Tanto o debate da jornada de trabalho quanto os principais debates que se abriram internacionalmente em relação à mudança climática abrem um espaço favorável para que se desenvolvam “novas formas de pensar”. Neste marco, a difusão das nossas ideias socialistas contra esse sistema de exploração e depredação ambiental constitui uma batalha pela conquista das novas gerações que despertam para a vida política no calor desses debates, para que enxerguem na esquerda revolucionária uma referência política com a qual desenvolver uma militância comum para combater esse sistema, sob a ideia de que só com um programa para derrotar os capitalistas e avançar em direção a um governo da classe trabalhadora aliada aos setores oprimidos será possível resolver problemas de fundo, como as crises econômicas, sociais e ecológicas.

As novas gerações usam as redes sociais como forma de comunicação, informação, discussão e organização. Os grandes partidos empresariais utilizam ferramentas virtuais para criar sensos comuns reacionários, como o ódio aos imigrantes, ou outros, mais lights, como o de que todos somos igualmente responsáveis pela mudança climática enquanto, na verdade, são os países imperialistas, as empresas e os capitalistas os principais responsáveis pela crise.

O La Izquierda Diario Chile, no ar desde 2015, e a rede internacional, em 12 países e oito idiomas, estão postos a serviço da luta contra essas políticas do sistema e para que cada vez mais setores se organizem junto a nós, formando uma extensa rede de colaboradores para ampliar o alcance das ideias revolucionárias. Além de dinamizar as respostas políticas e a geração de conteúdo de redes e de audiovisual, propusemos o lançamento da conta do LID no Spotify como plataforma para desenvolver uma política sistemática de podcasts, e também um programa central que permita conhecer nossa política, nossas posições e nossas principais batalhas.
Como parte fundamental disso, também daremos um novo impulso à seção de juventude do diário com um conjunto de iniciativas de elaboração de conteúdo e diálogo juvenil, com centro na produção de material audiovisual e gráfico para redes, e cujo motor sejam as iniciativas tanto individuais quanto coletivas.

Revolucionar nossa forma de militar: construir uma organização revolucionária de centenas de militantes

Parte dos principais debates de nossa conferência foi que as boas ideias e lutas políticas não existem se não se fazem carne em centenas de trabalhadores e trabalhadoras, jovens que se organizem como colaboradores e nas agrupações e militantes para construir uma ferramenta de combate. Como dizíamos anteriormente, a avidez existente em debates como o ambiental, o feminista, sobre a jornada de trabalho, entre outros, como educação, repressão, saúde mental, é um fenômeno de setores e nichos tendencialmente de massas.

Nesse sentido, a III Conferência propôs a hierarquização do uso das redes sociais para organizar politicamente novas camadas de jovens e trabalhadores. A boa recepção das notas de nosso portal digital, assim como os incipientes virais e vídeos criativos que temos feito, mostram um espaço importante de abertura a essas novas ideias e a possibilidade de que uma porção desses setores organizem-se em distintos níveis, tanto dentro quanto fora dos locais de trabalho e estudo onde militamos cotidianamente.

O uso dessas ferramentas (como as enquetes de Instagram e similares) constitui uma verdadeira “revolução na forma de militar” melhor acostumada à organização das/os companheiras/os mais próximos de cada lugar. Através dessa nova prática, queremos avançar na organização de novas camadas de militantes e agrupações. As atividade sociais e festivais também são muito importantes para avançar no conhecimento mútuo e no aprofundamento de experiências de trabalho, combinando experiências estudantis e operárias que permitam elevar nosso trabalho, convidando a ser parte da organização e compartilhando nossas campanhas políticas com novas/os companheiras/os, propondo-nos a estender nossa organização em novos locais de estudo e trabalho, assim como territorialmente.




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