Internacional

IX CONFERENCIA DA FRAÇÃO TROTSKISTA

Conferência Internacionalista em Buenos Aires

sexta-feira 8 de maio de 2015| Edição do dia

Com a presença de delegações do Movimento dos Trabalhadores Socialistas(MTS) do México, o Movimento Revolucionário de trabalhadores (MRT ex LER-QI) do Brasil, o Partido dos trabalhadores Revolucionários (PTR) do Chile, a corrente comunista revolucionária do NPA da França, Classe Contra Classe do Estado Espanhol, a Liga Operária Revolucionária da Bolívia, a liga de Trabalhadores pelo Socialismo da Venezuela, a Juventude Revolucionária Internacionalista do Uruguai e o grupo RIO da Alemanha.

Para compartilhar com nossos leitores as principais conclusões desta importante reunião internacional, entrevistamos Christian Castillo (Argentina) junto aos jovens dirigentes Sergio Moisens(México), Diana Assunção (Brasil), Fabián Puelma (Chile) e Daniela Cobert (França), que tem sido parte dos principais fenômenos políticos e da luta de classes em seus países, como o movimento Yosoy132 e a luta pela aparição com vida dos 43 estudantes normalistas no México, as massivas mobilizações de 2013 no Brasil e a luta dos docentes de São Paulo, ou a grande luta contra o lucro na educação no Chile.

Quais foram os temas que a conferência abordou?

CC: O “temário” da conferência abordou os principais problemas da situação internacional e as tarefas dos revolucionários para erguer partidos operários revolucionários e avançar para a reconstrução da IV internacional. Na primeira sessão houve uma rica discussão ao redor da definição do caráter da China, seus “traços imperialistas” e sua possível evolução em base a um documento apresentado por Juan Chingo.

Na segunda sessão, discutimos as tendências atuais da economia e as teorizações de economistas burgueses que mostram que estamos longe do triunfalismo capitalista anterior à crise. Este ponto se organizou sobre a base de um documento preparado por Paula Bach. Também discutimos a complexa situação geopolítica no Oriente médio, sob a luz do balanço da “primavera árabe”, tomando como ponto de partida o documento sobre o tema apresentado por Claudia Cinatti. Por último abordamos a discussão do documento de orientação política apresentado por Emílio Albamonte, partindo de que as posições conquistadas no movimento operário e estudantil e em setores oprimidos da juventude e das mulheres trabalhadoras, os parlamentares como os que o PTS tem na FIT (Frente de esquerda e dos trabalhadores) na Argentina, assim como ferramentas inovadoras para ampliar a difusão das ideias revolucionárias como o “Esquerda Diário”, tem que estar em função da construção de fortes partidos operários de combate tanto a nível nacional como internacional.

Estes documentos, enriquecidos pelas frutíferas discussões que se deram na Conferência serão publicados em um próximo número da Revista Estratégia Internacional.

Podem dar um resumo das principais discussões e definições?

SM: Desde o ponto de vista econômico analisamos a evolução da crise capitalista aberta em 2008. Apesar da aplicação por parte dos estados capitalistas das medidas de expansão quantitativa [criar dinheiro – nota do tradutor], combinadas na Europa com um duro ajuste, que lhes permitiu evitar o colapso da economia, as perspectivas seguem sendo críticas. A recuperação dos Estados Unidos, é importante comparada com outras economias centrais, porém é fraca para impulsionar um novo ciclo de crescimento vigoroso.

Na União Europeia primam tendências ao estancamento e na América Latina se sente a queda do preço das matérias primas. Além disto, se fez evidente uma desaceleração na China que foi o motor do crescimento econômico na primeira fase da crise. Apesar de que hoje os fatores mais explosivos parecem estar sob controle, nãos e pode descartas que acontecimentos como uma crise da dívida grega, ou o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos dispare novamente uma fase aguda da crise.

O panorama mundial é desalentador para os economistas burgueses como Larry Summers, ex-secretário do tesouro dos Estados Unidos, que tem “teorizado” sobre o “estancamento secular”, quer dizer, um período prolongado de estancamento ou crescimento muito baixo que só podia se superar se ocorresse algum acontecimento extra-econômico. Não casualmente, voltam a expor a relação entre a guerra e a recuperação econômica. A importância destas pseudo-teorizações burguesas é que a sua maneira confirma as principais teses que temos sustentados nós, os marxistas.

DA: É assim. E isto se vê não apenas a respeito da falta de dinâmica própria do capitalismo e sua necessidade de “bolhas” para funcionar. Em seu livro, o capital no século XXI (que se transformou em best seller) o economista Thomas Piketty deixou claro que a desigualdade é intrínseca ao sistema capitalista e que cada vez é mais aguda, ainda que a solução que coloca é utópica e se reduz a aplicar “impostos aos empresários” como se fosse possível transformar gradualmente o capitalismo. Esta tendência reformista se expressa politicamente no PODEMOS e SYRIZA.

Outra das discussões fundamentais que atravessou a conferência foi o papel que cumprirá a China no próximo período. Este país, no qual foi restaurado o capitalismo sob a direção do Partido Comunista Chinês que mantém o poder do estado, se transformou na segunda economia mundial. Com esta discussão abrimos um intercâmbio entre todos os grupos da FT para seguir avançando em uma maior compreensão deste complexo país que tem importantes consequências programáticas para África e, em particular, para América Latina, onde não só tem crescido a penetração das empresas chinesas, como também os acordos assinados por vários governos latino-americanos com a China.

Que outro tema destacado da geopolítica mundial se discutiu?

FP: No marco da crise capitalista e o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica, estão surgindo conflitos geopolíticos de grande importância, como o da Ucrânia que faz enfrentar o “ocidente” (Estados Unidos e a União Europeia) com a Rússia. Na conferência abordamos a discussão da situação do Oriente Médio, onde os conflitos e guerras atuais tem uma relação com o curso reacionário que tomaram os processos da “primavera árabe”, sobretudo os mais profundos como no Egito e Tunísia.

Na Síria, o levantamento contra Al Assad se desviou para uma guerra civil entre frações reacionárias apoiadas por potências regionais e o imperialismo como o Exército Livre Sírio. Como consequência das condições criadas pelas intervenções imperialistas na região, sobretudo a guerra do Iraque, surgiu o Estado Islâmico, uma força completamente reacionária e ela levou a que os Estados Unidos novamente estivessem envolvidos em uma ação militar na região. O outro elemento importante que está mudando a região é o acordo dos Estados Unidos com Irã, com muita resistência de seus aliados tradicionais como Arábia Saudita e Israel.

DA: Neste marco, discutimos também as lições que deixou a “primavera árabe”, que com seus limites foi o primeiro ensaio revolucionário no período aberto pela crise capitalista. Como dizíamos antes, estes processos, que tomados de conjunto tiveram uma composição popular, foram mais profundos na Tunísia e Egito, onde a classe operária interveio com suas organizações e onde fez falta que o exército desse um golpe para freá-lo e restaurar o regime mubarakista. Uma das conclusões fundamentais da “primavera árabe” é que não há possibilidade de que triunfe uma “revolução democrática” como dizia a grande maioria das correntes da esquerda mundial (entre elas a Liga Internacional Dos Trabalhadores-LIT-CI, cuja principal organização é o PSTU do Brasil) e que terminaram localizados a reboque das variantes capitalistas e inclusive imperialistas como na Líbia e Síria. Uma vez mais se demonstrou que para triunfar é necessário que a classe operária, em aliança com os oprimidos, luta para destruir o poder econômico e político dos capitalistas no caminho de conquistar um governo dos trabalhadores. Quer dizer, “a revolução permanente”, confirmou sua atualidade.

Ao calor destes processos centrais da situação internacional, também discutimos as perspectivas para avançar na construção de “partidos de combate”, baseados na luta de classes e para avançar na reconstrução da IV Internacional. Em particular na América Latina, com o desgaste dos governos “populistas” e as mudanças governamentais pela direita, se abrem fortes possibilidades para a construção de organizações operárias revolucionárias, que enfrentem não só as decadentes burguesias “nacionais” como também o imperialismo que decidiu recuperar terreno perdido nos últimos anos. Isto se expressa na política de Obama para a região, após a recente “Cúpula do Panamá”. Ainda que apresente uma cara “amável” Obama restabeleceu as relações diplomáticas com Cuba para dar um salto na restauração Capitalista, no fortalecimento da militarização como no México. No marco da queda de popularidade dos governos pós-neoliberais, têm surgido lutas muito importante de trabalhadores. O Brasil é o país no qual um novo ciclo de lutas tem mais aparecido no cenário nacional. A greve dos professores do Paraná e São Paulo, as lutas da Volkswagen e Mercedez Benz e em outros setores tem colocado em pé uma nova subjetividade do proletariado na região.

Que desafios temos os revolucionários neste período?

SM: A combinação da crise do populismo Latinoamericano com a emergência incipiente da classe operária em países importantes do continente como Brasil e Argentina, nos coloca a necessidade de redobrar os esforços para construir organizações revolucionárias enraizadas na classe operária e na luta de classes. Neste sentido, partimos de conquistas importantes, como a inserção do PTS em fábricas do cordão industrial da Zona Norte de Buenos Aires, e a consolidação da FIT como referência política para importantes “camadas” de assalariados. Um demonstração disto é a eleição do 3 de maio em Mendoza, em que Nicolás Del Canõ do PTS na FIT venceu a Frente para Vitória(FPV) ficando como segunda força no estado. O crescimento da FIT é uma tendência de ruptura, ainda incipiente, e em camadas de setores da classe operária com o governo “centroesquerdista” dos Kirchner.

DC: Na Europa, onde a crise golpeou forte e houve importantes processos da luta de classes como as paralisações gerais na Grécia, tem surgido um novo reformismo como Podemos e Syriza que busca conter a luta nos marcos do capitalismo. Grande parte da extrema esquerda tradicional tem se adaptado a estes fenômenos reformistas. Pelo contrário, nossas organizações defendem a independência de classe e a estratégia revolucionária e buscam dar esta luta em comum com outros setores da esquerda que também resiste a este curso. Por exemplo, no caso da França, a Corrente Comunista Revolucionária do Novo Partido Anticapitalista(NPA), da qual os membros da FT participamos junto a outros companheiros, tem dado importantes passos em comum com a tendência “Anticapitalismo & Revolução” no combate contra a orientação majoritária do NPA no sentido de fenômenos reformistas. Além disto, na França, realizamos uma forte campanha nacional e internacional pela liberdade de nosso camarada Gaetan, condenado a prisão por participar de uma mobilização, como parte da política direitista do Governo Hollande que acaba de lançar uma escandalosa lei repressiva que dá “caminho livre” para os serviços de inteligência e da vigilância estatal.

CC: Para intervir ativamente nesta etapa e chegar com nossas ideias a centenas de milhares e, no futuro, milhões de trabalhadores e jovens dos setores populares, temos estendido o projeto do “Esquerda Diário”, que se iniciou na Argentina e agora conta com seus próprios diários no Brasil, Chile e México, que rapidamente tem se transformado em sites de referência, superando inclusive as páginas tradicionais da esquerda. Além disto. Estão integrados ao projeto os grupos da Venzuela, Bolívia, Uruguai e os companheiros do Estado Espanhol. O “Esquerda diário” tem se transformado em um sistema de periódicos e meios audiovisuais socialistas na América Latina com o apaixonante objetivo de construir uma grande mídia de propaganda e difusão de idéias comunistas a serviço de construís fortes organizações revolucionárias. Por último, a IX Conferência Da FT reafirmou a política de impulsionar um Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista- Quarta Internacional, para confluir com setores da esquerda do movimento trotskista internacional que resistam e enfrentem o curso direitista de suas direções e com setores da vanguarda operária e juvenil, que se oriente para a revolução como método para avançar na reconstrução da IV Internacional.




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