Cultura

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Conexões entre mulheres surrealistas no México para além de Frida – Maria Izquierdo

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

sexta-feira 20 de novembro de 2015| Edição do dia

Outra das 14 pintoras que se encontram na exposição “Frida: Conexão entre mulheres surrealistas no México” é a mexicana Maria Izquierdo de quem também temos poucas informações, assim como a pintora Alice Rahon, de quem já falei aqui no Esquerda Diário.

A exposição “Frida kahlo: Conexões entre mulheres surrealistas no México” propõe um dialogo entre um grupo de mulheres artistas mexicanas e estrangeiras vinculadas ao surrealismo, que gira em torno da figura de Frida Kahlo como detonador de uma série de influências e movimentos geográficos entre México, Europa e Estados Unidos. Algumas dessas mulheres nasceram e produziram a maior parte de sua obra no México, como Maria Izquierdo e Lola Álvarez Bravo, e compartilharam com Kahlo não apenas a amizade, mas também o interesse pelo resgate da cultura e das tradições de sua terra natal.

Remedios Varo e Alice Rahon – que descobriram a fascinante cultura mexicana por intermédio de Kahlo, quando ela viajou a Paris em 1938 – fugiram da guerra e se estabeleceram definitivamente no México. Leonora Carrington e Kati Horna chegaram pouco depois e se somaram ao grupo de exiladas. Rosa Rolanda e Bridget Tichenor vieram dos Estados Unidos e ficaram no México pelo resto de suas vidas. Outras artistas como Jacqueline Lamba ou Sylvia Fein foram visitantes fulgazes, atraídas pelas culturas ancestrais, e realizaram obras que levam a marca de sua passagem por esse lugar

- Teresa Arcq, curadora da exposição “Frida Kahlo: Conexões entre mulheres surrealistas no México –

Maria Izquierdo é mais uma mulher que esteve envolvida nesse circulo social de artistas surrealistas mexicanas constituído por mulheres, que se ajudavam e se fortaleciam para estarem presentes no mundo da arte, onde prevalecia – e hoje ainda prevalece - a presença masculina.

Maria Cenobia Izquierdo Gutierrez nasceu em 30 de outubro de 1902 na Cidade do México. Foi criada pelos seus avós depois de perder seu pai aos 5 anos de idade. Muitas de suas obras fazem referência a sua infância – como os quadros “A menina indiferente” e “Eu, minha tia e meu amiguinho”, que se encontram na exposição.

Aos 25 anos entrou na academia de São Carlos, onde começou a desenvolver sua expressão artística rapidamente, sendo logo convidada a frequentar cursos avançados com grandes artistas da época, dos quais também trouxe referências para sua obra. Em 1928 também ingressou na Escola Nacional de Belas Artes.

Sua primeira exposição aconteceu no Palácio de Belas Artes, que teve grande receptividade de publico e crítica. A apresentação da exposição foi feita por Diego Rivera, companheiro de Frida Kahlo, que era na época diretor da Escola Nacional de Belas Artes e que dispensava muitos elogios à pintora. Uma de suas primeiras obras, presente nessa exposição, é a intitulada “Retrato de Belem”, onde já apontava o abandono do uso da perspectiva acadêmica, explorando e propondo um novo terreno de composição. Essa maneira de pintar rompia com o que havia aprendido com seus principais mestres, em especial o pintor Germán Gedovius. Essa obra traz o retrato de uma menina com o cotovelo apoiada em uma cômoda, sobre a cômoda um batom, uma bolsa e um buquê de flores; Maria Izquierdo já adiantava que parte da sua obra seria trazer o universo feminino para o primeiro plano.

Ainda muito jovem se casou com um homem mais velho com quem teve uma filha, após a separação se casou novamente com Candido Posadas Izquierdo e se relacionou ainda com alguns pintores. Entre os relacionamentos que viveu estão os pintores Raúl Uribe e Rufino Tamayo, com quem se relacionou entre os anos 1929 e 1933, quando o pintor a deixou para se casar com outra mulher. Nesse período suas obras se aproximaram muito do que Rufino produzia. Após o término dessa relação se relacionou com Raúl, de quem se separou mais tarde por conta dos problemas com alcoolismo que ele tinha.

Em 1930 realizou uma exposição individual com 14 obras sendo expostas em Nova York, no Arts Center Gallery, sendo a primeira pintora mexicana a realizar tal feito. Essa exposição chamou a atenção da crítica norte-americana para os pintores mexicanos, que desencadeou a exposição no mesmo ano de arte popular e pintura mexicana organizada pela Federação Americana de Artes no Metropolitam Museum of Art, que tinha como artistas expostos Rufino Tamayo, Diego Rivera, a própria Maria Izquierdo e outros.

Maria Izquierdo morreu em 2 de dezembro de 1955 na Cidade do México, por conta de um acidente vascular cerebral causado por um golpe na cabeça, que se desconhece como ocorreu.

Suas obras tem como característica retratar paisagens, naturezas mortas e muitos retratos de mulheres e autorretratos. O que mais salta aos olhos são as fortes cores utilizadas por ela, chamadas cores mexicanas. Entre suas obras presentes no Instituto Tomie Ohtake, estão “Alegoria do trabalho” – obra surrealista que traz a imagem de uma mulher nua chorando abraçando seus joelhos, vigas erguidas e caídas, como se o trabalho fosse em nossa sociedade um fardo –, que parece constituir uma dupla com a obra “Alegoria da liberdade”, que também traz em si um certo peso (a primeira obra é de 1936 e a segunda de 1937); e as suas ultimas obras, feitas após os anos 40, como a já citada “Menina indiferente” e seu belíssimo autorretrato.




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