A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.1

Como surgiu a economia mundial?

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 24 de julho| Edição do dia

Economia internacional é um tema que só ganha relevância, de dois séculos para cá, aproximadamente. Antes disso havia comércio internacional e afirmava-se uma tendência à conformação de uma economia mundial, no entanto, esta, como tal, inexistia para além da circulação de mercadorias e inicialmente, de mercadorias de luxo ou de especiarias.

O capital industrial cumprirá o papel de formatar a economia mundial, os grandes capitais irão estabelecer sua direção, sua espacialidade e sua estrutura tal como a conhecemos através de um processo desigual e combinado de mudanças permanentes.

Antes da moderna sociedade industrial capitalista, imperialista, ainda não se pode falar, em absoluto, de economia como um todo internacional, orgânico, até porque os países e regiões travavam contato comercial, não apenas em pequena escala, ou através de determinados centros, não apenas com bastante independência, mas tampouco se interpenetravam no grau e profundidade mundial e orgânica como o farão posteriormente. Não havia nada parecido com a divisão mundial do trabalho que veio a conformar-se sobretudo a partir do final do século XIX.

A “primeira” economia mundial
Por um tempo, a Europa comprava determinados produtos do Oriente, da China e os pagava com ouro e metais preciosos. O capital dominante era comercial e sediado em determinados países europeus. A Europa era importadora de mercadorias. Havia rotas através das quais os mercadores europeus buscavam alguns produtos – sobretudo de luxo – com os quais o consumidor europeu da elite feudal estava acostumado.

A Europa trazia da Ásia mercadorias manufaturadas (tecidos, jóias, tapetes etc) e especiarias. Evidentemente, estas trocas atestam que a Ásia e os árabes tinham economias mais desenvolvidas que as euro¬peias que buscavam, fora, produtos da manufatura mais avançada que a sua. Os historiadores convencionaram que a Idade Moderna começa naquele momento em que os turcos tomam uma cidade estratégica e bloqueiam o comércio da Europa com seus fornecedores indo-asiáticos e árabes. Fechada aquela via comercial, as mercado¬rias de fora ficam mais procuradas, mais caras.

[A Idade Média se encerra com a queda de Constantinopla (1453), com o Renascimento no século XV. A Idade Moderna se inicia marcada pela afirmação econômica do capitalismo, a começar pela consolidação do Estado Absolutista, de monarquias nacionais baseadas na expansão marítima, comercial (Mercantilismo) e colonial como também nas reformas religiosas por um lado e na reação feudal contra a emergente burguesia por outro].

Em decorrência daquela carestia, o capital comercial acumulado em certas cidades europeias irá buscar outra rota e, associado ao Estado, irá financiar as chamadas grandes navegações. Estava dada a largada para a busca de vias alternativas para dar continuidade àquele comércio.

No século XVI estava completado o circuito, através da via marítima alternativa, para os cinco continentes. Neste mesmo processo, os europeus vão criando colônias pelo mundo, isto é, enclaves especializados na produção para seu mercado.

Nesta ‘primeira’ economia mundial, que se conforma entre os séculos XVI e XVIII, a dinâmica colonial funciona através de uma espécie de triangulação: a burguesia europeia – sobretudo espanhola e portuguesa– traz ouro, prata, açúcar (do Brasil) e fumo (das Antilhas) das Américas para a Europa e leva escravos capturados na África para seus enclaves coloniais nas Américas. No final de contas, a burguesia comercial europeia acumula o excedente de riqueza, uma base essencial dos capitais que darão origem à indústria inglesa pouco depois (meados do século XVIII).
Ou seja, o enriquecimento da Europa ocidental e a acumulação do capital naquela região, teve tudo a ver com o saque e a relação predatória que os capitalistas europeus iam estabelecendo com cada região ‘descoberta’ e colonizada pelo mundo afora. É por essa via que foi se construindo a rede de relações que, por fim, conformarão um determinado tipo de economia internacional.

É fácil de deduzir que durante aquela fase da primeira articulação propriamente mundial da economia, a Europa é pouco mais que um entreposto comercial em suas relações com a Índia e outros países.

O capital comercial europeu que circula entre os países e precede o capital industrial, assume importância fundamental na gênese do capitalismo, ou seja, do modo de produção que irá lançar suas bases entre os séculos XVI e final do XVIII, e essencialmente em solo europeu.

É conhecido, e vigorosamente analisado por Marx em O Capital, o impacto que o comércio mundial teve sobre a formação primitiva do capital na Europa (Ver capítulo XXIV: A assim chamada acumulação primitiva).

No argumento de Mandel, desde a conquista e pilhagem do México e do Peru pelos espanhóis até o saque da Indonésia pelos portugueses e holandeses e a feroz exploração da Índia pelos ingleses, a história do século XVI a XVIII é uma cadeia ininterrupta de atos de bandidagem e também atos de concentração internacional de valores e de capitais na Europa Ocidental, cujo enriquecimento é pago, no sentido literal do termo, pelo empobrecimento das regiões saqueadas.
Pode se afirmar sem sombra de dúvida, que o aporte destas riquezas roubadas foi decisivo para a acumulação do capital comercial e do capital dinheiro que, de 1500 a 1750, criou as condições propícias para a revolução industrial. É difícil estabelecer uma cifra total. Mas limitando-se aos aportes mais importantes, obtém-se uma soma colossal (MANDEL, 1972: 60).

A economia mundial capitalista desenvolveu-se na Europa, naqueles centros onde havia reservas de carvão e concentração populacional. Certamente existiam tais elementos em outras partes do mundo, as quais, nem por isso deram passagem a formas tão desenvolvidas de economia industrial.

O auge industrial do capitalismo em terras europeias e, posteriormente, nos Estados Unidos explica-se muito mais pela amplitude de acumulação do capital comercial, pelo grau de penetração da economia mercantil na agricultura, transformações nas relações agrárias e outros elementos que não chegaram a reproduzir-se na mesma intensidade e extensão em outras partes.

(Em um conhecido trabalho o estudioso de história Robert Brenner examina o nascimento do capitalismo no seio do feudalismo a partir da luta de classes entre os grandes donos de terras e os produtores camponeses. A Inglaterra reuniu historicamente as condições – na esfera econômica, social e política – que fizeram com que o capitalismo surgisse naquele canto da Europa e não na China ou em outro local onde eventualmente havia alguma pré-condição, mas não todas. A conjunção de três fenômenos foi crucial no surgimento do capitalismo na Inglaterra: transformações agrárias que levavam à libertação dos camponeses das terras feudais; uma estrutura urbana com artesanato independente, sob estrutura gremial e produzindo mercadorias especializadas; massa de riqueza monetária acumulada, a partir do saque, da usura e do comércio (HOBSBAWM, 1981: 46). A sinergia entre as transformações agrárias e o estado da manufatura não-camponesa (urbana) deu-se mais especificamente na Inglaterra, segundo Brenner que – como foi dito - põe foco na luta de classes inglesa na gênese do capitalismo. A ênfase nas transformações rurais inglesas (alterações nas relações de propriedade e também de cultivo) será dada por Wood (1998).

Retomando o argumento: não é a presença de matérias-primas, população e quaisquer outras condições naturais que explica a gênese da economia mundial capitalista, mas essencialmente, as formas e espacialidade que foi assumindo o processo de acumulação do capital em grande escala com o passar dos anos. Este processo se dá de forma desigual e combinada pela própria natureza do capital e não por qualquer explicação climática, natural, religiosa ou racial.

“Cada nação possui numerosos ramos produtivos que trabalham antes de mais nada para o mercado mundial o qual, parece inútil lembrar, é modelado pelos movimentos internacionais de capital e não corresponde em nenhum caso a estrutura “natural” ou “geográfica” – e só vive graças às rendas destes ramos” (MANDEL, 1972: 81).

Sobre esta desigualdade – determinada pelas relações coloniais das metrópoles europeias com os enclaves que eles vão controlando mundo afora – é que será construído o mercado mundial subsequente, da era do capital e, portanto, aquilo que alguns chamam de “segunda” economia mundial. A base desta será a era industrial, quando as metrópoles de concentração do capital fabril estarão situadas na Europa, especificamente na Inglaterra.

[Continua na Nota n.2, brevemente no ED].
[Crédito de imagem: www.socialistworker.com.uk]

Referências:
Ernest Mandel, Tratado de economia marxista, 1972, Ediciones Era, México.
Ellen Wood, A origem do capitalismo, 2001, Rio de Janeiro, J Zahar Editores.
Brenner, Robert, 2003.O boom e a bolha: os Estados Unidos na economia mundial. Rio de Janeiro: Record.

Juntas, essa série de notas integra o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas.




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