Educação

Volta às Aulas

Como retornar às aulas durante a pandemia?

Grupo de professores de ES, MG e RJ que se reuniam no Grupo de Estudos Marxismo e Educação do Campus Virtual do Esquerda Diário escreveram coletivamente este texto de reflexão sobre a possibilidade de volta às aulas durante a pandemia.

quarta-feira 26 de agosto| Edição do dia

Com o afrouxamento imposto pelos governos e a flexibilização do isolamento social, um dilema vem sendo colocado: como lidar com a volta às aulas, já que ainda estamos em pandemia?

Durante a pandemia a situação já era de precariedade

Em meio a todas as contradições que estamos vivendo nesta pandemia tem sido prática, tanto dos governos estaduais quanto dos municipais, o não diálogo com os profissionais da educação. Exemplo claro foi a implementação do ensino remoto imposto pelos governos mesmo sabendo que 80% dos alunos teriam dificuldades de acessar as plataforma de forma eficiente. Esta implementação veio sem dar nenhuma garantia de acesso, como computadores ou celulares, muito menos internet. Não se levou em conta também o ambiente familiar de alunos e professores.

Está situação impôs também a alguns professores que de uma hora pra outra tornassem youtubers e passassem a ter de dominar técnicas de edição de vídeo e som, coisas que não são parte das obrigações do professor.

Se antes, em realidade “normal” já não eram garantidas as condições materiais ao trabalho e durante a pandemia também não foram garantidas as mínimas condições a professores e alunos, como fará o Estado agora, em meio a uma pandemia?

Como retornar a escola nesta situação?

Alguns estudos indicam que há um aumento no risco de contaminação frente à impossibilidade de um ambiente saudável para alunos e profissionais da educação. Ainda assim há uma grande pressão para o retorno às aulas presenciais.

O cenário de reabertura forçada põe em cheque esses trabalhadores. Também coloca mães, pais e responsáveis, que não sabem o que fazer com seus filhos, já que as escolas ainda estão fechadas. O governo provoca assim, uma tensão entre a comunidade escolar e as famílias para a reabertura. Para os pais o que se coloca é: devo expor os meus filhos ao risco de contágio e perigo para ele e a família? Onde deixar os filhos quando se tem de trabalhar?

Esse tipo de pergunta e dilema nem devia ser questionado. A escola não pode se tornar um depósito de crianças e uma bomba relógio prestes a explodir, o que pode acontecer com um surto interno de alunos e trabalhadores, como já temos presenciado na abertura das escolas no estado do Amazonas.

Ressalta-se também que as crianças estão sendo rotuladas como assintomáticas e correm menos risco, embora já haja pesquisas que comprovam que elas podem apresentar sintomas e também transmitir o vírus, como o caso de contágio em um acampamento de férias nos Estados Unidos no mês passado. Além do que, muitas crianças já apresentam comorbidades e fazem parte do grupo risco e há aquelas que coabitam com pessoas deste grupo.

Vem se desenhando um quadro de pressão ainda maior aos trabalhadores da educação, mais especificamente aos professores, que terão de ministrar os conteúdos pedagógicos e, ao mesmo tempo, cuidar de toda uma demanda sanitária em que muitas crianças ainda não apresentam maturidade para compreender, pois gostam do contato físico, de trocar materiais escolares ou de dividir o lanche, acarretando, também, numa grande perda pedagógica e de socialização.

Como está se dando o processo de retorno?

Em alguns estados, como São Paulo, finge-se uma democracia, “incentivando” a criação de comissões nas escolas compostas pelo conselho escolar, representantes da equipe diretiva, dos professores e dos profissionais administrativos com o objetivo de discutir o possível retorno. Na prática, a criação de tais comissões é a tentativa de acelerar o retorno às aulas e não existe preocupação do governo em nenhum momento com a vida da comunidade escolar e de seus alunos.

Neste exemplo de São Paulo, o governo Dória fez essa demagogia criando o “Fala Rede”, que reuniria, professores e comunidade escolar junto a secretaria. Numa destas reuniões, a professora Grazi Rodrigues, expôs muito bem a farsa desta volta. Veja o vídeo abaixo:

Por outro lado, os sindicatos, representantes dos profissionais de escolas públicas e das escolas particulares não ampliam a discussão sobre essas questões com a base, aproveitando a possibilidades de reuniões online. Assim temos a situação de que no período anterior à pandemia as assembleias estavam bastantes esvaziadas, seja por conta deste afastamento de várias direções, seja por conta dos frequentes descontos que a categoria sofreu em seus contracheques devido às paralisações realizadas. É fundamental batalhar junto aos sindicatos para que estes promovam na categoria discussões no sentido de fazê-la se reconhecer como classe trabalhadora.

Por isso defendemos que, para a volta às aulas, além da análise dos estudos dos institutos de pesquisa sobre os índices de contágio, de óbitos e de leitos em hospitais em cada região, todos os profissionais da educação e estudantes devem ser testados massivamente; que seja de obrigação do Estado a disposição de EPIs e itens de higiene, assim como um espaço escolar bem ventilado e com condições sanitárias adequadas; que as pessoas que precisam cuidar de crianças, de idosos e de enfermos tenham afastamento remunerado do trabalho; é preciso fortalecer a auto organização escolar, seja a partir de iniciativas de arrecadação de itens de assistência básica, seja por abaixo-assinados ou campanhas por melhorias das condições sanitárias das escolas, fortalecendo as comunidades escolares para que elas possam decidir, organizadas nos conselhos escolares, como e quando voltar as aulas em segurança.




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