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Como organizar a força para triunfar: coordenações e comitês em todo o país

A rebelião popular emergiu das profundezas das ruas. Nada favorável sairá dos palácios deste regime herdado da ditadura. Tomar os exemplos de coordenação, aprofundá-los e estendê-los é fundamental para que a luta pela queda de Piñera seja uma realidade.

sexta-feira 25 de outubro| Edição do dia

Nesta quarta mais de um milhão de pessoas se mobilizaram. Trabalhadores do setor primário, da saúde, docentes, mineiros, portuários, sindicatos do comércio e serviços, marcharam com lenços e bandeiras. Junto com centenas de milhares de estudantes secundaristas, universitários e jovens trabalhadores. Esta quinta, novamente milhares têm enchido as ruas e as praças. Que os militares saiam das ruas e que caia Piñera são as principais demandas das ruas.

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E agora? É o que muitos se perguntam. Hoje os poderes do regime buscam uma saída institucional para desviar a rebelião popular, ao mesmo tempo em que se mantém a brutal repressão com ao menos 18 mortos segundo os dados oficiais. Piñera reza para conseguir um acordo nacional, com uma agenda de migalhas sobre nossos mortos.

Se apontam dois caminhos. Um é o que prega o Partido Comunista e a Frente Ampla, que é buscar se sentar à mesa com o governo, exigindo um diálogo “sem exclusões” com a Mesa Social. Que aglutina as principais organizações sindicais e sociais. Um verdadeiro salva-vidas para o governo. Dizem “fora Piñera”, mas sua política leva exatamente ao contrário. Quem pode pensar que uma acusação constitucional será aprovada pelos partidos da ex Concertación no Senado? Se eles mesmos disseram que Piñera teria que “se deixar ajudar”! Agora Camila Vallejo diz que não se trata de ir contra o governo, e Javiera Parada do RD [o partido Revolución Democrática, NdT] participou de reuniões com Pñera se opondo à sua queda. Sequer cumpriram sua política de “greve parlamentar” enquanto durasse a militarização, e agora se mostram dispostos a legislar a “agenda social” do governo.

O outro caminho é aprofundar a mobilização, dar continuidade à greve geral até que caia o governo, única forma para que o grito de “fora Piñera” seja realidade. A rebelião popular emergiu das profundezas das ruas. Nada favorável sairá dos palácios deste regime putrefato.

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O sentimento de milhões de jovens e trabalhadores é que a rua nos pertence. Que os povo deve decidir e não os políticos do regime que têm mantido e aprofundado a herança da ditadura. Porém, a Mesa Social está empenhada a levar a mobilização à política de diálogo a pacto social. E isso implica se negar a impulsionar instâncias de coordenação desde a base, como têm feito desde o início da mobilização. Se opor a impulsionar algo tão elementar como organizar democraticamente os setores em luta, tem sido uma das tônicas dos dirigentes da Mesa Social.

A única forma de impor um rumo alternativo é alcançando a organização e coordenação da força dos trabalhadores, estudantes e setores populares, buscando ganhar nas organizações de massas a política de greve geral até cair o governo, nenhuma negociação com o governo nem confiança no parlamento, buscando uma saída das e dos trabalhadores e do povo, com uma Assembleia Constituinte livre e soberana sobre as ruínas do regime para liquidar toda a herança da ditadura. Como já se começa a ver, isto implica uma dura luta contra a burocracia sindical, que busca uma e mil formas de dividir e boicotar instâncias de auto-organização que escapem do seu controle.

Sob esta perspectiva é que desde os primeiros dias da rebelião, desde o PTR e as agrupações operárias que impulsionamos, a agrupação estudantil Vencer e de mulheres Pan y Rosas, nos lançamos à levantar em diversos lugares coordenações, comitês e cordões como exemplos de auto-organização e de ação. Tomando tarefas tão elementares como é a organização e o abrigo frente à repressão, a difusão e coordenação dos distintos setores, o objetivo é organizar a força da classe trabalhadora para a greve geral.

Comitê de Emergência e Abrigo em Antofagasta

No último domingo se pôs de pé o Comitê, convocado desde a comunidade do Colégio de Professores de Antofagasta. Essa instância funciona com assembleias abertas onde participaram 300 pessoas entre trabalhadores industriais, comércio, educação, saúde e estudantes, onde diversos sindicatos têm votado participar e impulsionar o comitê. Se criaram diversas comissões como a da saúde onde participam trabalhadores da saúde e estudantes de Medicina; Comissão de Direitos Humanos, com advogados e estudantes de Direito e comissão de Comunicação com docentes da universidade, jornalistas e estudantes. Também o comitê tem impulsionado pontos de encontro para fazer frente ao problema de abastecimento nos momentos mais duros do toque de recolher.

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O Comitê, que funciona na sede do Colégio de Professores, tem se transformado num verdadeiro centro de organização e discussão, organizando marchas e concentrações. Durante a jornada da greve geral, o comitê organizou uma reunião no centro de Antofagasta, onde participaram cerca de 6 mil pessoas, trabalhadoras do mundo e da educação, da indústria, portuários, do comércio, carteiros e da saúde, e milhares de jovens estudantes e trabalhadores, para unirem-se a uma marcha que que reuniu 20 mil pessoas. O comitê tem feito uma exigência aos sindicatos dirigidos pela CUT [Central Unitaria de Trabajadores, NdT] e os da mineração impulsionar esta instância em comum com delegados de base.

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O comitê defende como política a greve geral para que caia Piñera e a Assembleia Constituinte e por sua política combativa tem se chocado com os dirigentes da Mesa Social, que, hoje por hoje, estão buscando todas as vias para dividir o Comitê, porque é uma instância que não podem controlar burocraticamente. Mas a resposta foi contundente. Esta quarta novamente organizaram uma reunião no centro de Antofagasta com 3 mil trabalhadores e estudantes, denunciando a política de diálogo com os carrascos do povo e reafirmando a luta para dar continuidade à greve para derrubar o governo.

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Assembleia aberta da mesa social de Valparaíso vota estender a greve geral

Essa quarta em Valparaíso se realizou uma assembleia aberta com organizações sindicais, estudantis, sociais e organizações de esquerda onde participaram cerca de 350 pessoas. A assembleia votou a exigência de renúncia de Piñera e seu gabinete e para que parlamentares detenham processo legislativo de leis impulsionadas pelo governo. Por sua vez, se propôs dar continuidade à greve geral e esta sexta-feira estão convocando uma grande marcha até o Congresso.

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A chamada Mesa Social de Valparaíso coordenava dirigentes sindicais e estudantis da região. Nossa batalha foi para que funcionasse mediante assembleias abertas onde se discutisse e votasse democraticamente. As assembleias têm se realizado na tomada da Universidade de Playa Ancha, que foi uma resposta à política das autoridades de manter fechada a universidade e evitar que se transformasse em um centro de organização. Na UPLA se impulsionou o “comitê de emergência” como uma instância de organização e coordenação.

Assim como têm feito os dirigentes da CUT em todo o país, em Valparaíso também buscaram dividir a instância, buscando a colocar às beiras do Município e do Partido Comunista. A massividade da assembleia aberta da mesa social os têm obrigado a se fazer presentes, com o objetivo de levá-la à política de pacto social e conselhos de cidadãos.

Primeiros exemplos de auto-organização em Santiago

Em Santiago as e os trabalhadores do emblemático hospital Barros Luco têm impulsionado assembleias massivas e comuns com moradores de La Minga e estudantes da Universidade Valparaíso sede Santiago. Em torno de 250 pessoas têm participado, e esta quarta-feria marcharam em uma coluna comum até o centro de Santiago. Esta quinta-feira se realizou uma atividade comum na sede da Fenats Barros Luco, onde participaram em torno de 500 trabalhadoras e trabalhadores de alguns dos principais hospitais de Santiago, como o Sótero del Rio, San Borja e o Lucio Córdova, junto com moradores de San Miguel e professores da zona sul. E hoje têm assumido o desafio de conformar uma coordenação permanente, que pode ser um grande exemplo de organização operária e popular.

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No centro de Santiago o sindicato do Centro Cultural GAM, do Museu da Memória e do Centro Cultural La Moneda impulsionaram o “Cordão Centro”, que reúne trabalhadores, estudantes, artistas e vizinhos do setor. Se conformaram diversas comissões e se discutiu a necessidade de colocar no centro a política de greve geral até que caia o governo, nenhuma negociação com o governo e o parlamento e Assembleia Constituinte para acabar com o regime herdado da ditadura, debatendo claramente com a política da Frente Ampla e o Partido Comunista. Ao mesmo tempo que faziam a exigência às distintas organizações sindicais e sociais de impulsionar instâncias de coordenação de base, buscando aprofundar e extender a experiência do Cordão Centro.

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Durante a marcha, cerca de 150 trabalhadores, estudantes e artistas impulsionaram um bloqueio em comum com a faixa “Greve geral, fora Piñera” e para esta sexta estão convocando uma assembleia massiva, com o objetivo de unificar diferentes instâncias dispersas do setor.

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Se tratam de exemplos iniciais mas muito valiosos. Não são os únicos: essa tendência à auto-organização também se manifesta em iniciativas como os “comitês de primeiros socorros” nas marchas, dos quais participam estudantes da área da saúde, assembleias massivas em lugares de estudo, algumas primeiras assembleias territoriais. Não podem ficar como iniciativas dispersas.

Aprofundar estas experiências e extendê-las a nível nacional é urgente. A chave para aprofundar nossa mobilização é nos coordenar e auto-organizar, algo que a Frente Ampla e o Partido Comunista se opõem com todas suas forças, porque são parte da operação deste regime para canalizar nossa indignação para vias institucionais. Necessitamos organizar a força social de trabalhadores, estudantes e da população para extender a greve geral para que Piñera caia. Estas coordenações cão chave para poder avançar em uma política anticapitalista e independente de todas as variantas patronais, enfrentar a política de diálogo social com o governo, e vai nos dar mais força para torcer a mão da burocracia para que se vejam obrigados a continuar a luta.

Estas organizações devem propor medidas de ação para aprofundar a rebelião, como organizar marchas aos principais símbolos de poder como é La Moneda, o Congresso e as províncias.

Nossa perspectiva é que caia Piñera para impor uma Assembleia Constituinte sobre as ruínas do regime. Mas sabemos que uma assembleia realmente livre e soberana contará com a resistência dos grandes empresários. Contar com fortes coordenações e comitês será fundamental para enfrentar a resistência dos empresários e os poderes reais à vontade popular, e neste processo ser a base para lutar por um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo.




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