A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA / Nota n.14

Como o mundo capitalista superou o crack dos anos 1930?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 17 de março| Edição do dia

Ao crack de 1929 se seguiu estagnação econômica.
A política deflagrada pelo governo se apoiou no uso do crédito público para obras públicas, crédito ao consumidor, resgate de bancos, concessões de um país rico ao seu proletariado (New Deal) e, por fim, quando nada disso se sustentava ou permitia sair da crise, destruição maciça de forças produtivas: crédito público para o setor bélico deslanchar. Esta, aliás, a política decisiva.

Em outras palavras, as políticas públicas de Roosevelt, na base de regulação dos mercados financeiros (nove mil bancos tinham quebrado na crise), gastos públicos em casas, ticket-alimentação, frentes de trabalho e infraestrutura, só contribuiriam para alterar substancialmente o quadro de estagnação quando o presidente norte-americano, seguindo o exemplo da Alemanha hitlerista, mobilizou as forças produtivas maciçamente para a esfera da indústria militar.

A Alemanha, primeira economia a recuperar-se da Grande Depressão só pôde fazê-lo através da gigantesca intervenção do Estado criando condições de investimento para o grande capital na indústria bélica. E esmagando, antes, a resistência do movimento operário. Este exemplo, da Alemanha nazista, que recupera o pleno emprego através dos investimentos na economia da destruição, que não deixa de ser um exemplo de puro keynesianismo do tipo militar (gastos públicos geradores de demanda), será uma referência para os Estados Unidos de Roosevelt.

A primeira aplicação em grande escala das medidas keynesianas foi a política do New Deal colocada em prática nos Estados Unidos pelo presidente Roosevelt (1882-1945) a partir de 1933. Como resultado desta política, os gastos governamentais representavam, em 1939, cerca de 20 % do PNB, ou seja, o dobro do nível de 1929. No entanto, apesar desse aumento substancial dos gastos governamentais, o PNB dos Estados Unidos diminuiu 12,7 % entre 1929 e 1939, e a taxa de desemprego passou de 3,2 % para 17,2 %.

"Foi apenas o desencadeamento da II Guerra Mundial em 1939 e a intensa atividade econômica (com fins de destruição) que suscitou durante seis anos até 1945, que fez com que a economia estadunidense, com a dos demais países industrializados, saísse finalmente da Depressão e que o desemprego pudesse ser virtualmente eliminado (1,2 % em 1944). Durante este período, sob o efeito do considerável aumento dos gastos militares, os gastos governamentais anuais totais quintuplicaram entre 1939 e 1944 nos Estados Unidos. Outros países implicados na guerra experimentaram uma evolução semelhante, com o mesmo efeito de estímulo do crescimento econômico e de reabsorção do desemprego" (GILL, 2002: 592). [Grifo nosso]

Em breves palavras, os sintomas de avançado parasitismo e dificuldades na esfera da acumulação do capital, se manifestaram visivelmente naquela intervenção do Estado para “resgatar” o sistema.

“A intervenção do Estado na economia era uma necessidade dos países imperialistas para salvar o capital condenado à morte.
Em um país rico como os Estados Unidos adotou a forma ‘benigna’ – embora não tão eficiente – do New Deal, na Alemanha destruída, adotou a forma brutal do fascismo. Mas a variante propriamente americana só se mostrou verdadeiramente eficaz quando imitou o curso do seu ‘rival’ fascista e começou a armar-se para participar na carnificina imperialista” (BACH: 2008).

O governo dos países ricos entrou em ação de duas formas: pesados gastos públicos e a mão de ferro da contrarrevolução, casos da Alemanha, na Itália, na Espanha, na França.

E isso por uma razão essencial: para a guerra contra potências rivais era preciso reunir certas condições econômicas via ação do Estado e, ao mesmo tempo, controlar a luta de classes:

“A resistência do proletariado ao impulso hegemônico da burguesia e a jovem república soviética, que sobreviveu apesar dos esforços concentrados das potências imperialistas para destruí-la, constituíram enormes obstáculos à perseguição dos projetos imperialistas, particularmente para o capital europeu.

Era preciso que ambas fossem, se não eliminadas, pelo menos neutralizadas, antes que qualquer potência imperialista pudesse pretender seriamente iniciar uma nova guerra internacional.

Assim sendo, a história da preparação e do desencadeamento da Segunda Grande Guerra não apenas é a história de uma diferenciação explosiva cada vez maior dos interesses seccionais (nacionais) da burguesia mundial, mas também de seu esforço continuado e mais ou menos bem-sucedido para remover aqueles obstáculos. Em outras palavras, ela é também uma história da contrarrevolução” (MANDEL, 1989: 18).

A contrarrevolução, portanto, aplainou o terreno político para cada bloco poder lançar-se ao confronto aberto pelo poder mundial. Aquele grande confronto foi definidor da hegemonia imperialista dos Estados Unidos, que atravessou certa prosperidade nos anos 1920, afundou nos 1930 e finalmente, apoiou-se no militarismo para impor-se como potência:

“A luta pela hegemonia por parte dos Estados Unidos se manifestaria como um longo processo através dos anos 20 e 30, caracterizado tanto pela continuidade do crescimento norte-americano às custas de uma Europa devastada como pelo desenvolvimento das inevitáveis tendências ao militarismo e finalmente pela inexorabilidade de uma II Guerra Mundial, condição necessária para a afirmação da hegemonia norte-americana” (BACH, 1999: 25).

Ficava evidente para os dirigentes capitalistas da economia internacional, que qualquer recuperação, qualquer definição de hegemonia, dali em diante dependerá diretamente da ação do Estado.

E para seguir em frente, as economias mais ricas precisavam subordinar o mundo aos seus ditames econômicos. O impulso que Hitler encarnava era o impulso dos demais líderes do “mundo livre”.

Quando se pensa em “esforço bem sucedido” da contrarrevolução é preciso jamais ignorar um dado histórico:

"Quem quer que examine com ponderação a história do período 1918-45 não poderá contestar seriamente a conclusão de que o nazismo e a Segunda Grande Guerra foram o preço pago pela humanidade por aquilo que até mesmo Léon Blum chamou de renúncia, ou fracasso, da social democracia alemã em derrubar a ordem burguesa em novembro-dezembro de 1918. Stalin e seus seguidores compartilham dessa responsabilidade, devido à contribuição de sua política para a instauração do regime nazista na Alemanha, a derrota da revolução espanhola e o fortalecimento do poder burguês na França" (MANDEL, 1989: 20).

Mandel continua argumentando sobre o impulso determinante para a eclosão da II Guerra:

“a força motriz da II Grande Guerra foi a necessidade dos Estados capitalistas mais importantes de dominar a economia de continentes inteiros mediante investimento de capital, acordos preferenciais de comércio, controle monetário e hegemonia política. (...) O que se visava com a II Guerra era a subordinação não só do mundo menos desenvolvido, mas também de outros Estados industriais, fossem eles inimigos ou aliados, às prioridades de acumulação do capital de uma potência hegemônica”(1989: 13).

O confronto militar era o teste final, de força, dos imperialismos rivais, era a política, em sua condição de economia concentrada, convertida em guerra, em política por outros meios:

“Seu resultado determinou o padrão peculiar de acumulação de capital no mundo por todo um período. No mundo organizado pelo capital com base em Estados-nação, a guerra é o mecanismo para a resolução final das diferenças. Pois embora a força militar não seja a única espécie de pressão que um Estado capitalista pode aplicar sobre seus concorrentes, constitui, não obstante, a forma mais alta de força: a utilização potencial ou real de força armada para impor sua vontade constitui a prova decisiva de superioridade de um Estado imperialista” (MANDEL: 1989: 16).

Com a II Guerra, inaugura-se a era da hegemonia norte-americana.

Não se pode deixar de mencionar que se trata de uma hegemonia em vários sentidos mais frágil que a inglesa, por não fundar-se em crescimento orgânico do capitalismo e sim em condições históricas excepcionais.

Uma prova disso é que o imperialismo norte-americano não conseguiu sustentar sua hegemonia plena por mais de uma geração, mesmo contando - jamais será demasiado enfatizar -, com a colaboração dos grandes partidos comunistas do mundo (na verdade stalinistas) para poder sobreviver às crises políticas e sociais do pós-II Guerra e, mais tarde, à crise revolucionária dos anos 60 (caso do PC francês na rebelião operária do maio de 68).

Levando em conta que a guerra significou maciça destruição de força de trabalho, máquinas e equipamentos como jamais se vira.

E foi sobre esta destruição e amparada pela colaboração dos Partidos Comunistas (PCs) para a preservação da ordem capitalista europeia, foi também pela franca intervenção política e econômica do Estado – e, finalmente, pela presença de uma hegemonia estabelecida dentro da economia mundial - que a acumulação do capital pôde encontrar, por um curto período, taxas de crescimento que arrancavam a economia da depressão.

“A guerra foi lançada para conter a autarquia e abrir todo o mundo às potencialidades da expansão geográfica e do desenvolvimento desenfreado e ilimitado. Essa solução perseguida intensamente sob a hegemonia dos Estados Unidos depois de 1945, teve a vantagem de se colocar sobre um dos patamares mais selvagens de desvalorização e destruição que jamais tinha sido registrado na história violenta do capitalismo.

Além disso, foram obtidos benefícios não apenas da imensa destruição de capital, mas também da distribuição geográfica desigual desta destruição. O mundo se salvou dos terrores da grande depressão, não por algum ‘novo acordo’ glorioso ou pelo toque mágico da economia keynesiana nas tesourarias do mundo, e sim pela destruição e morte na guerra global” (HARVEY, 1990: 447).

Não há nenhum exagero em avaliar uma economia fundada nestas bases como economia da morte. E muito menos em avaliar a sobrevivência desse sistema como um fardo cruel e de alto custo social para a classe trabalhadora e as massas pobres.

GILL, Louis, 2002. Fundamentos y límites del capitalismo. Madrid: Editorial Trotta.
MANDEL, Ernest, 1989. O significado da Segunda Guerra Mundial. SP: Ática.
BACH, Paula, 2008. Falácias del ´humanismo´ keynesiano. In Suplemento EconoCrítica n.6, Buenos Aires, septiembre 2008.
BACH, Paula, 1999. Introducción a Naturaleza y dinámica del capitalismo y la economia de transición, León Trotsky, Buenos Aires, CEIP, p. 9-29.
HARVEY, 1990. Los limites del capitalismo y la teoria marxista. México: Fondo de Cultura Econômica.

[Crédito de imagem, modificada: www.msn.com/en-us/news ]
[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas].




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