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Como lutamos contra o terror policial

Publicamos o artigo do Left Voice (da rede do Esquerda Diário, em inglês) sobre os casos de assassinatos, racismo e brutalidade policial nos EUA. Um debate vivo no movimento #BlackLivesMatter e na esquerda.

segunda-feira 1º de agosto de 2016| Edição do dia

Vão te matar, armado ou desarmado. Vão te matar faça chuva ou faça sol. Vão te matar se você tiver um trabalho o se for desempregado. Vão te matar se você respeitá-los muito ou se responder. Eles vão te matar se você for trans, cisgênero ou heterossexual. Vão te matar com seu filho de quatro anos no banco de trás. Se a história dos Estados Unidos nos ensina algo, é que a polícia mata o povo negro.

A fúria contra o assassinato de negros tornou-se internacional, e com ela a pergunta sobre como lutar contra o terror policial. Já estamos nas ruas, protestando e cortando rodovias e pontes na frente da polícia e dos políticos. Protestar é fundamental, mas e a estratégia? O que se pode fazer frente às injustiças? A solução não é ter mais negros em posições de poder. Elegemos prefeitos negros, governadores e até um presidente negro, no entanto o racismo, a brutalidade estatal, e o encarceramento em massa só aumentaram nos últimos 30 anos.

Frustrados, alguns chamaram os afro-americanos a nos armarmos contra a polícia. Temos o direito de nos defendermos contra o terror e a brutalidade policial. Mas como? Nenhum indivíduo pode golpear o sistema onde realmente importa. Nenhum atirador solitário pode acabar ou sequer deter o avanço da brutalidade policial.

Quando um policial é removido de seu cargo, centenas aparecem para substituí-lo. Cinco policiais foram assassinados em Dallas: eles, também, serão substituídos. Os políticos tentaram usar estas mortes e as de Baton Rouge para deter e intimidar o movimento Black Lives Matter. No entanto o movimento experimentou uma renovada onda de resistência. Mas a pergunta continua: como paramos estes policiais racistas e assassinos?

A desigualdade social e a divisão de classes no capitalismo reforça e perpetua o racismo, que não acabará nunca sem atacar suas bases estruturais. Devemos nos organizar como trabalhadores e lutar juntos contra os capitalistas, a polícia e o estado, é a única maneira de avançar.

Socialistas revolucionários não são pacifistas, mas o martírio e a vingança individual não têm lugar em nossa estratégia. Indivíduos negros armados não podem defender a comunidade do racismo policial. As organizações armadas isoladas puderam se defender durante um tempo, mas assim que se tornaram uma ameaça para o capitalismo americano e suas instituições, foram esmagadas pela repressão estatal.

Defender a Comunidade Negra

Os exemplos dos Panteras Negras, o Exército de Liberação Negro e outras organizações armadas nos anos 60 e 70 se alimentaram da frustração popular com o pacifismo. No entanto, as armas sozinhas não puderam deter os ataques policiais. Em 1969, os Panteras puderam deter a recentemente formada equipe da SWAT da polícia de Los Angeles durante os ataques a seus quartéis. Mas isto foi graças à mobilização popular para defendê-los, em parte por seus projetos de clínicas e programas de café da manhã grátis. No entanto, a polícia e o FBI usaram as armas dos Panteras como pretexto para levar a cabo um brutal ataque à organização e seus membros. Os integrantes que sobraram não estavam preparados para enfrentar o estado em uma luta armada.

A polícia mirou e destruiu os Panteras. Apagaram seu potencial revolucionário por meio do fogo e o peso do sistema judiciário: processos, multas e fianças caras, casos montados e confinamento solitário.

Hoje em dia, se um fenômeno similar liderado pelos negros, os oprimidos ou grupos revolucionários se levantassem, seria violentamente dizimado, a não ser que fosse uma força de milhares, milhões. Faz algumas semanas, vimos como a polícia de Dallas muito tranquilamente detonava uma bomba, executando Micah Johnson sem julgamento, nem evidências apresentadas em um tribunal.

A organização da comunidade é uma maneira de resistir. Os Panteras conseguiram o apoio da comunidade por meio de serviços de saúde e programas de café da manhã para as crianças. As pessoas os procuravam, em vez de procurar a polícia, para resolver os conflitos na comunidade.

A defesa da comunidade significa solidariedade. Ações de solidariedade nas ruas contra os assassinatos policiais, se transformam em protestos que podem parar toda a cidade. Podemos e devemos tomar as ruas. Com maior organização as mobilizações podem parar bairros comerciais e bloquear rodovias. Mas há um poder que temos à disposição e que não podemos desperdiçar: o poder da classe trabalhadora.

Comitês Civis: a comunidade é capaz de controlar a polícia?

A perspectiva de “Controle comunitário da polícia” argumenta que haveria uma vigilância civil sobre a polícia. Algumas organizações e grupos da esquerda vêm impulsionando esta perspectiva. Também foi proposta no passado pelo Pantera Negra Bobby Seale, que defendia que ter civis com autoridade sobre a polícia, com poder para contratar e demitir, era rechaçado pela polícia de cada cidade onde isto era proposto. Atualmente , a Comissão da Polícia de Los Angeles é usada por membros da comunidade para fazer suas reclamações sobre a polícia. Os membros são escolhidos pelo prefeito. A comissão não tem poder sobre o LAPD (Departamento de Polícia de Los Angeles) para disciplinar, contratar ou demitir oficiais. Inclusive, quando discordam, não têm poder sobre o departamento de polícia, e assim a polícia segue cometendo assassinatos impunemente.

Frente a esta farsa de comissão, outras organizações propuseram uma comissão civil-policial. Mas estas comissões seriam uma maneira para a comunidade controlar a polícia? Unión del Barrio, uma organização revolucionária mexicana e internacionalista baseada em Los Angeles, propôs recentemente que estas comissões sejam implementadas na polícia tomando como exemplo as comissões educativas de Los Angeles (Los Angeles School Board). No entanto, é preciso ver que os policiais não são professores, são o braço armado da burguesia e inimigos de classe. O propósito da sua profissão é o de salvaguardar a ordem capitalista e reprimir o descontentamento.

Por isso, a comunidade poder tomar algumas decisões sobre a polícia confunde o papel da força policial. Queremos acabar com a polícia, não contratar policiais mais amáveis ou amigáveis. Não buscamos maior representação dos oprimidos na polícia. Por décadas, houve um recrutamento da juventude negra e latina pobre: campanhas milionárias e recrutamento especialmente voltado para os jovens homens e mulheres de cor direto do ensino médio.

Uma força policial multicolor não muda a natureza racista da instituição e sua função. A instituição policial sempre vai reprimir sem importar a raça do policial (sem ir mais longe, a polícia de Los Angeles é a mais assassina do país e está composta em sua maioria por negros e latinos). Sem poder real sobre as forças da lei e da ordem, uma comissão civil-policial que toma parte no processo de recrutamento, só daria uma fachada “democrática” à polícia e ao Estado.

Nos organizarmos como classe

A exploração da classe trabalhadora assegura a contínua concentração e acumulação de capital e poder das classes dominantes. Este dinheiro e este poder são garantidos por e investidos no Estado, suas forças repressivas (polícia, guarda nacional, etc.), e as instituições capitalistas “suaves” (segregação educacional, grande mídia corporativa, etc.). Vamos trabalhar todos os dias e deixamos nossos chefes mais ricos. Enquanto nos mantivermos passivos, a “fonte” da polícia – e o racismo que sistematicamente exercem – nunca vai secar. Sem os trabalhadores para produzir riquezas, as cidades chegariam à paralisia. Sem nosso trabalho, os chefes não são nada. Sem nosso trabalho a nação não é nada. Nossa primeira tarefa é nos unirmos como classe, para lutar contra os cães da burguesia, a polícia.

Por mais que esta sociedade de supremacia branca odeie os negros, por mais que insistamos e lutemos para assegurar que as vidas negras sim importam, em uma sociedade onde isso não é um fato, os negros não podem combater a violência policial sozinhos. O sistema capitalista se baseia na divisão. As classes dirigentes e os supremacistas brancos desejam manter a opressão sistemática das pessoas de cor, e enganar a classe trabalhadora branca para que defenda os ricos e políticas reacionárias, em última instância anti-operárias, em vez de se alinharem com os oprimidos. Trump personifica esta falsa consciência entre os trabalhadores brancos, aproveitando-se da desunião da classe trabalhadora. Necessitamos nos organizarmos todos juntos e construir uma organização combativa que una as experiências dos oprimidos da classe trabalhadora.

Os sindicatos devem defender os trabalhadores e a comunidade. Devemos levar a luta para que os sindicatos se levantem contra a violência racista da polícia. Isto significa fazer paralisações cada vez que a polícia mata um de nós, marchar contra a brutalidade policial, organizar-se contra o terror policial, e expulsar os policiais das organizações de trabalhadores e dos sindicatos.

As organizações de trabalhadores devem unir-se em uma grande frente contra os assassinatos racistas da polícia sob o slogan “Nenhum policial em Nossos Sindicatos” e “Greves Contra o Terror Policial”. Isto tem o potencial para construir uma solidariedade ativa para enfrentar a polícia. Temos que levar estas propostas a nossos lugares de trabalho, assembleias sindicais, e para as organizações da classe trabalhadora. A campanha impulsionada pelo Left Voice é parte do Greves Contra o Terror Policial (StrAPT, Strike Against Police Terror) que busca organizar e mobilizar pessoas sindicalizadas, não sindicalizadas, desempregados e trabalhadores com contrato precário de todos os gêneros, etnias e deficiências, como uma só força para golpear contra o terror policial. Usaremos nosso poder como classe e como oprimidos para lutar contra o capitalismo e suas forças repressivas: a polícia.

O Cemitério dos Movimentos Sociais

Tanto os democratas como os republicanos governaram em base à tortura e ao assassinato dos negros e ao encarceramento em massa. Chefes de polícia, prefeitos, governadores e presidentes: de cima abaixo, eles sustentam o sistema racista.

Em 19 de maio de 2015, um mês depois de que Freddie Gray havia sido assassinado pelo trauma na coluna vertebral causado pela polícia de Baltimore, o presidente Obama assinou a lei de “alerta azul” para proteger a polícia, ao criar um sistema nacional que os avisaria sobre qualquer ameaça. Em 28 de maio de 2016, o governador de Louisiana John Edwards transformou o projeto de lei “as vidas azuis importam” [cor do uniforme da polícia nos EUA] em lei para incluir a polícia nos “grupos protegidos” pelos estatutos de crimes de ódio. Ao fazer isto, o governador Edwards equiparou as pessoas e comunidades oprimidas com as forças armadas contratadas e treinadas para reprimir, prender e matar.

Depois dos assassinatos de Alton Sterling e Philando Castile e depois dos tiroteios de Dallas, o Caucus Congressual Democrata de Negros, e outros políticos de Capitol Hill se alinharam para exigir “um debate sobre o controle de armas”. Nenhuma medida contra o assassinato dos negros pelas mãos da polícia foi discutido. Nenhuma ocupação pelas vidas de mais de 130 homens, mulheres e crianças negras assassinados neste ano pela polícia foi proposto. Estas leis estão sendo criadas para garantir a segurança dos policiais enquanto eles nos matam a sangue frio.

As propostas dos líderes do Partido Democrata pretendem desencorajar o movimento de resistência que vem crescendo por todo o país. Qualquer organização política que seja financiada pelos capitalistas, só será controlada por eles. Devemos romper com os políticos e os partidos da classe capitalista.

A questão sobre a polícia não é uma questão moral; a polícia é o braço armado do estado, o mesmo estado que assegura os lucros dos capitalistas e oferece miséria para a maioria dos trabalhadores e a população. Os policiais são os guardiões deste sistema. Que o racismo esteja muito disseminado entre os policiais e na instituição policial não há dúvidas. O poder para contratar o demitir policiais não muda seu papel social. Enquanto existir o capitalismo, existirá a polícia o protegendo. As comunidades oprimidas não controlarão a polícia até que consigam acabar com esta instituição. Ou seja, até que o capitalismo receba seu golpe fatal, e não haja mais necessidade de força especial que proteja os ricos e mantenha os oprimidos sob controle.

Devemos nos organizar e unir como uma só classe para acabar com a brutalidade racista da polícia, pois a dissolução da polícia só é possível mediante a abolição do sistema de classes e das relações sociais desiguais que precisam da polícia para se manter.

Tradução: Francisco Marques




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