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I Encontro de Estudantes Africanos da USP

Como foi o I Encontro de Estudantes Africanos da USP

Pablito Santos

Trabalhador do bandejão da USP e membro da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo, do Sintusp

terça-feira 15 de agosto| Edição do dia

No dia 11 de agosto realizou-se, no Anfiteatro de Geografia da USP, o I Encontro de Estudantes Africanos da USP. Este importante evento foi uma iniciativa que partiu dos próprios estudantes africanos da USP, que procuraram a Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo do SINTUSP como apoiadores. A construção deste Encontro teve um caráter simbólico muito importante e um papel extremamente significativo por tornar realidade um espaço tão importante de organização de entre estudantes africanos da USP e outras universidades, trabalhadores e estudantes afro-brasileiros e haitianos que articularam juntos ações, que desvelam e pautam o enfrentamento e combate ao racismo. Este evento foi ainda mais importante num momento em que observamos o histórico crescente do genocídio da juventude negra brasileira, pelas forças repressivas do Estado racista no Brasil; pelo reacender do discurso xenófobo e racistas que culminaram no fortalecimento de grupos nazistas, e defensores da supremacia branca como a KKK nos Estados Unidos, além de tragédias como a que observamos milhares de negros africanos morrendo, dia após dia, na travessia do Mar Mediterrâneo, saindo da África para a Europa, em busca, muitas vezes em vão, de sobrevivência.

No I Encontro dos Estudantes Africanos da USP estiveram presentes discentes de Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, Costa do Marfim, Gabão, Chade, Camarões, Peru, Nigéria, Haiti, França, Jamaica, da USP e de outras universidades do país, além de membros de organizações de refugiados africanos e haitianos.

O Encontro foi um importante espaço de integração entre estes estudantes e trabalhadores africanos e afro-brasileiros, sobretudo por possibilitar a troca de experiências e a unidade no que se refere a busca de medidas para enfrentar as dificuldades originadas no sistema racista acadêmico e estrutural que atrapalham, de forma singular, na conclusão qualitativa dos estudos, ou mesmo, na permanência ou obtenção dos documentos exigidos à esta comunidade, para manter sua legalidade como imigrantes.

O Encontro foi aberto por Enola Júlio Mango, estudante guineense e por Aida Duarte Binze, pesquisadora moçambicana, no período da manhã, momento no qual o Núcleo de Consciência Negra da USP, a Organização Koinonia dos Imigrantes e Refugiados , OKOIER e Julia Wallace, militante do movimento negro nos Estados Unidos e da rede internacional de diários Esquerda Diário, fizeram saudações a esta iniciativa. Em seguida, o arte educador Dos Santos, fez a contação de historias da boneca Abayomi. Na sequencia ocorreu a Mesa I, de nome África: desafios do conhecimento e do saber que teve como mote promover o compartilhamento de conhecimentos acerca das pesquisas e trabalhos desenvolvidos em prol de demandas sociais, econômicas e culturais africanas e afro-brasileiras ao mesmo tempo que colabora com a interação e integração entre discentes e trabalhadores africanos e afro-brasileiros de diversas instituições acadêmicas, regiões do Brasil e países africanos, foi composta por pesquisadores africanos e brasileiros, estudiosos sobre o desenvolvimento de conhecimento produzido por negros africanos e ou afrodescententes de diversas partes mundo, assim como as visões de África no Brasil e as diversas formas de organização já experimentadas e outras, a serem forjadas pela população negra em defesa de seus direitos.Nesta mesa, os pesquisadores palestrantes africanos presentes foram: a moçambicana Aida Duarte Binze, (pesquisadora moçambicana) e o o chadiano Mbaidiguim Djikoldigam, filosofo, graduando em Teologia e pesquisador sobre a tradição e modernidade em África. Já entre os pesquisadores palestrantes brasileiros presentes estavam Carlos Eduardo Machado, historiador , professor e pesquisador da USP e o Prof. Acácio Almeida, da Universidade Federal do ABC. Esta mesa foi mediada por Mónica Vani Vieira Lopes da Silva, estudante de Cabo Verde e, pela brasileira Janeide S. Silva , Coordenadora Pedagógica do Projeto Alavanca Brasil, professora na Creche Unificada da USP e integrante da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao racismo, do Sintusp. Durante o almoço, os presentes puderam apreciar a apresentação artística do Cia da Capoeira com a intervenção Capoeira EnCanto.

Na parte da tarde ocorreu Mesa II, de nome Racismo Acadêmico e Racismo Estrutural, na qual o objetivo era desvelar o percurso institucional e estrutural pelo qual o Racismo Acadêmico e o Racismo Estrutural se engendra ocasionando a desqualificação ou precarização da vida da população negra, africana e afrodescendentes, dentro e fora da universidade e exaltar a urgência de ações que potencialize o enfrentado do racismo além de promover formas possíveis de combatê-lo. Esta mesa contou com a participação de pesquisadores carbo-verdianos, brasileiros e haitianos, como Francisco João Lopes, doutor em Letras; a mestra Eliete Edviges Barbosa, assistente social, e pesquisadora sobre a militância das mulheres negras; doutoranda Mariana Machado Rocha, arte-educadora e pesquisadora da FGV ; de Fedo Bacourt , coordenador da União Social de Imigrantes Haiti; e de Marcello Pablito, integrante da Secretaria de Negros do Sintusp e editor do livro A revolução e o Negro, e contou com as mesmas mediadoras da Mesa I. Na seqüência houve a apresentação artística, Meu Nome é Ousadia, da brasileira Mariana M. Rocha e, a dança moçambicana Marrabenta, com Ainda e Vivi de Moçambique.

No final da tarde, aconteceu a plenária final que foi conduzida pelo marfinense, Tanoh Kwa Frederic, pela guineense Cadijatu Jalo e pelo brasileiro Marcello Pablito. Este momento foi fundamental para que os estudantes africanos da USP e de outros estados, os imigrantes refugiados e o público em geral pudessem colocar suas necessidades e reivindicações, demonstrando a dificuldade para obtenção de documentação, moradia e alimentação, que são necessidades básicas, assim como desnudaram o dificultoso trâmite acadêmicos que atrapalha significativamente o aproveitamento dos estudos. A Secretaria de Negros também apresentou propostas de resoluções que foram debatidas no I Encontro de Trabalhadores Negros da USP com o objetivo de ligar o combate ao racismo a uma perspectiva internacional e da luta de classes.


As atividades do I Encontro de Estudantes Africanos da USP tiveram inicio as 8h da manha e a partir das 12h e 18h foram servidas um delicioso cardápio típico africano, com o Caldo de Mancarra, da Guiné Bissau e o Calulu, de Angola e São Tomé e Príncipe, preparadas por Janete Sousa Silva, técnica de nutrição, cozinheira do HUSP e integrante da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo, do Sintusp. No período da noite, todos foram convidados para celebrar. O momento festivo contou com a apresentação do Maculele e roda de Capoeira com o grupo Fonte do Gravatá, com a apresentação do grupo “Palancas Negras”, que fez uma apresentação de Kizomba , ritmo musical angolano e encerrou as atividades as 23:30h, com uma animada discotecagem com musicas de vários países africanos. Por fim, gostaríamos de registrar nosso mais profundo e sincero agradecimento a companheiros da Secretaria de Negros, Negras e Combate ao Racismo do Sintusp como Herbert, Irene, Silvia, Cleber, Bira, entre outros, sem os quais não seria possível a realização deste evento, além é claro, dos próprios estudantes africanos desta universidade. Em breve divulgaremos também as resoluções deste evento. Na Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo, do Sintusp, nossa e sua negritude tem vez e voz! Participe você também! Confira aqui o álbum de fotos do evento no link da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo, do Sintusp

Livros de autoria dos palestrantes neste evento:

Machado, Carlos Eduardo Dias e Loras, Alexandra Baldeh. Gênios da Humanidade: Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente. São Paulo, DBA Artes Gráficas, 2017.
Pablito, Marcello e Daniel Alfonso . A revolução e o negro (Textos do trotskismo sobre a questão negra), São Paulo: Edições Iskra, 2015.
Barbosa, Eliete Edwiges. Mulheres Negras : interseccionalidade e resistência na periferia. In A Luta
Contra o Racismo no Brasil. São Paulo: Edições Forum, 2017.
Rocha, Mariana Machado. Meu Nome é Ousadia. São Paulo: APMC, 2016.




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