Juventude

POLEMICA UFABC

Como estudantes da UFABC superemos a impotente frente democrática, mobilizar para derrotar Bolsonaro e as reformas

Passada as eleições mais manipuladas da história do Brasil "democrático", os estudantes da UFABC reuniram pela primeira vez o Comitê Antifascista votado na assembleia do dia 11/10, que até então funcionava apenas pelo whatsapp e exclusivamente para organizar panfletagens eleitorais. Novamente, a reunião do Comitê foi um espaço de debate de estratégias e neste artigo queremos aprofundá-las, buscando avançar num debate permanente de como enfrentar o avanço da extrema direita e do golpismo no Brasil.

Virgínia Guitzel

ABC Paulista | @virginiaguitzel

quarta-feira 7 de novembro| Edição do dia

Este é o segundo artigo que desenvolvemos para debater com o conjunto dos estudantes sobre os desafios do movimento estudantil nacional na luta contra Bolsonaro. No primeiro artigo, desenvolvemos dois debates fundamentais de ordem estratégica: a necessidade de fomentar a auto-organização e a necessária aliança com a gigantesca classe operária do ABC.

Neste, pós-eleições, queremos contribuir com analises mais profundas da situação nacional e aprofundar o significado do avanço do que chamamos de bonapartismo judiciário e os limites da “frente democrática” que se consolida por meio das principais lideranças de esquerda. Na nossa opinião, cabe ao movimento estudantil superar esses limites e fazer pesar sua poderosa força, aliado à classe trabalhadora.

Pós-eleições: vencem os representantes do golpe, mas ainda não seus objetivos

Bolsonaro venceu as eleições mais manipuladas da história recente do país. Com as manobras judiciais e a tutela das Forças Armadas, para que as eleições fossem a continuidade e o aprofundamento do golpe institucional de 2016, Bolsonaro se beneficiou da radicalização do sentimento antipetista e do derretimento da direita tradicional (especialmente da catástrofe do PSDB). Mas sua vitória não significou um cheque em branco para que faça o que bem queira. O próprio escândalo do caixa 2 serviu para demonstrar a tentativa do judiciário de disciplinar esse governo, isto é, um recado para que não se esquece de quem o colocou lá e para que objetivos.

No dia seguinte as eleições, Haddad desejou boa sorte para Bolsonaro. Assim, ele e o PT passaram para uma “oposição responsável” contra o que, até então, chamavam de "fascismo", legitimando as eleições manipuladas e propondo uma “frente democrática”, cujo objetivo se limita a preparar uma resistência parlamentar pensada para daqui a 4 anos, quando ocorrerá novas eleições. Mesmo com Lula preso arbitrariamente e sem provas, com sua candidatura impugnada, com o vazamento ilegal da delação de Palocci às vésperas do primeiro turno, com o desprezo do governo às resoluções da ONU, que diziam que Lula deveria concorrer às eleições, e com a conivência do TSE em relação ao caixa 2 milionário das fake news de Bolsonaro, Steve Bannon e os empresários que o apoiam, o PT segue firme em defender a “normalidade institucional”.

Apesar de o PT negar a conclusão mais transparente: todas estas e outras medidas – com a tutela dissimulada do Alto Comando das Forças Armadas – fizeram do judiciário o principal agente do golpe dentro de uma numerosa legião de instituições golpistas. Sem dúvida, o símbolo máximo dessas manipulações judiciais que comandam a política nacional é Sérgio Moro, ninguém menos que o superministro da Justiça do governo da extrema direita de Bolsonaro.

Se, por um lado, é inegável uma vitória da extrema direita e da narrativa do golpe institucional, por outro, é importante lembrarmos que os objetivos do golpe são justamente descarregar a crise econômica nas costas da classe trabalhadora, a partir do ajuste fiscal e suas reformas. Não é à toa que os principais ataques na ordem do dia são a Reforma da Previdência e a tentativa de calar os professores e o movimento secundarista com o Escola Sem Partido.

Crise orgânica de Junho de 2013 a Bolsonaro: Decifra-me ou te devoro

Fim do ciclo pós-neoliberal na América Latina, fruto do desenvolvimento da crise econômica internacional e o fim da base econômica que permitiam esses governos de conciliação de classe, abriu espaço para a direita empresarial e o populismo fascista. Mas, em política, não basta tratar os termos como adjetivos, precisam expressar uma caracterização que nos permita pensar como intervir na realidade dada. Para isso, é preciso entender o papel das jornadas de Junho de 2013, na forma do choque entre as aspirações das massas com os limites do gradualismo lulista, no ativismo juvenil expressar uma quebra na forma até então de dominação burguesa existente e na abertura de uma etapa que chamamos de crise orgânica, para utilizar o termo de Antonio Gramsci.

Gramsci define,

“em cada país o processo é diferente, mesmo que o conteúdo seja o mesmo”; “[…] a crise de hegemonia da classe dominante”, que ocorre porque “ela fracassou em algum grande empreendimento político que exigiu ou impôs pela força o consenso das grandes massas” ou porque “vastas massas (especialmente camponesas e intelectuais pequeno-burgueses) passaram repentinamente da passividade política para uma certa atividade e levantaram reivindicações que em seu conjunto caótico constituem uma revolução”. “[…] de brechas entre ‘representados e representantes’ que a partir do terreno dos partidos […] se transmite a todo o organismo estatal, reforçando a posição relativa do poder da burocracia (civil e militar), das altas finanças, da Igreja e em geral de todos os organismos relativamente independentes das flutuações da opinião pública.” E depois continua dizendo que “os grupos sociais estão separados de seus partidos tradicionais” e que “quando essas crises se manifestam, a situação imediata torna-se delicada e perigosa, porque o terreno é propício a soluções de força, a atividade de poderes obscuros, representados por homens providenciais ou carismáticos.”

Desde essas manifestações que reuniram milhões de pessoas, o Brasil não é mais o mesmo. A Copa do Mundo não foi só festa. E, por meio de diferentes maneiras, a burguesia foi tentando restabelecer sua forma de dominação, mas certamente cada vez mais precariamente, até o golpe de 2016. As eleições manipuladas deste ano são mais um capítulo desse desafio. Depois da aposta fracassada no PSDB, a burguesia decidiu favorecer o candidato da extrema-direita. E a cada novo acontecimento coloca em evidência a mais importante lei da dialética: “a verdade é sempre concreta”. Daí surge o que chamamos de Bonapartismo.

Leon Trotski, um dos dirigente da Revolução Russa 1917, dizia que "O Bonapartismo surge de um equilíbrio de forças, de um impasse entre as duas classes fundamentais da sociedade capitalista, a burguesia e o proletariado, e frente a essa espécie de equilíbrio catastrófico se criam as condições para que uma figura surja, como que se elevando sobre as classes, para submeter a sociedade através de uma ditadura militar. Enquanto nos países imperialistas o bonapartismo se eleva sobre as disputas entre a burguesia e o proletariado, para governar a serviço da primeira se apoiando numa ditadura militar, nos países atrasados ou semicoloniais, a burguesia local é relativamente débil em relação à burguesia imperialista, e o bonapartismo nesses países pode oscilar entre um governo que se apoia na classe operária para barganhar com o imperialismo pequenas vantagens para a burguesia nacional ou que se apoia no imperialismo para submeter o proletariado local através de métodos ditatoriais.

Um governo que se eleva sobre a nação não se apoia, todavia, no ar. O eixo real do atual governo passa pela polícia, pela burocracia, pela guerra. Diante de nós, uma ditadura milico-policial, ainda ligeiramente encoberta por uma decoração parlamentarista. Mas um governo de sabre, na qualidade de juiz mediador da nação, é isso o que é o bonapartismo. Ao se levantar politicamente sobre as classes, o bonapartismo, assim como o seu antecessor, o cesarismo[4], em um sentido social, sempre foi e continua sendo o representante da parte mais forte e resistente dos exploradores; o atual bonapartismo não pode ser, consequentemente, nada além de um representante do capital financeiro, que dirige, inspira e corrompe as altas burocracias, a polícia, a oficialidade e a imprensa”.

Isso seria diferente do fascismo pelo simples fato de o fascismo ter sido, como fenômeno histórico, um modo especial de mobilização e organização políticas da pequena burguesia pelos interesses sociais do capital financeiro. Sob o regime da democracia, o capital se esforça para inculcar nos trabalhadores a confiança na pequena-burguesia reformista e pacifista. A transição para o fascismo, ao contrário, é impossível sem que a pequena burguesia tenha sido previamente impregnada do ódio ao proletariado. Nesses dois sistemas, o domínio de uma única e mesma supraclasse exploradora, o capital financeiro, apoia-se diretamente nas relações opostas das classes oprimidas (Bonapartismo e Fascismo).

Construir a resistência em cada local de trabalho e estudo para superar a Frente Democrática parlamentar impotente para derrotar nossos inimigos

Os estudantes foram os primeiros a se organizarem em atos, assembleias e comitês contra Bolsonaro. A resposta da extrema-direita e do judiciário golpista foi invadir as universidades para retirar faixas, proibir atividades políticas e censurar campanhas da UNE. Rechaçamos todos esses absurdos, assim como a criminalização dos movimentos sociais e das organizações de esquerda. Somos a geração que ocupou escolas e universidades contra o congelamento de gastos públicos, a geração da primavera feminista que exibe orgulhosamente sua sexualidade e sua identidade negra.

Na primeira reunião do Comitê Antifascista, levamos críticas sobre a separação do combate nas urnas, de transformar esse combate em luta de classes. Explicando que pela política do DCE, de ter reduzido o Comitê a um grupo do WhatsApp com a única tarefa de “tirar votos do Bolsonaro”, nos encontrávamos despreparados como movimento estudantil para resistir ao autoritarismo judiciário que chegou inclusive a prender dois estudantes da UFABC por “crime eleitoral”. O problema central que novamente se coloca aqui é que ao não combatermos a estratégia petista, que se impõem em âmbito nacional ao conjunto do movimento contra Bolsonaro, de abaixar as bandeiras e desmobilizar a luta nas ruas contra Bolsonaro e construir uma “ampla frente democrática” baseada apenas em resistência parlamentar, acabaremos trabalhando para essa mesma estratégia e não poderemos construir uma verdadeira oposição nas entidades estudantis, como a UNE e a UBES, e no movimento operário, nas centrais sindicais que seguem sem convocar nenhuma forma de luta contra a extrema-direita. O PSOL, como principal partido à esquerda do PT, que praticamente dobrou seu número de deputados, não pode apenas se limitar a se somar a esta estratégia petista. Mas precisa convocar ações massivas para enfrentar nas ruas a extrema-direita, questionando o autoritarismo judiciário e exigindo das entidades que parem de trégua com os golpistas.

Mas percebemos que há uma importante confusão fruto da descaracterização de cada ferramenta de luta. Aqui, então, queremos clarificá-las, a partir da nossa visão, e ao mesmo tempo propor uma alternativa à estratégia petista de “esperar a poeira baixar”, a fim de organizar uma resistência baseada nos instrumentos de luta do movimento estudantil.

Na nossa opinião, o termo "Comitê" vem sendo utilizado pelo DCE como apenas um sinônimo para assembleias, pois, assim como defenderam na última reunião, não devem ser periódicas e nem por cursos, ou seja, ser um instrumento centralizador, sendo um único comitê quinzenal em horários e campi alternados. Dessa maneira, não se distingue o papel das assembleias gerais (que deliberam sobre o movimento de conjunto e a posição política dos estudantes) das ferramentas de auto-organização (comitês) que permitam o desenvolvimento de uma ativismo estudantil mais ampliado, atrelando a política da vanguarda com a massa dos estudantes, assim “criando poder” e confiança nas nossas próprias forças. Para tal, é necessário que as entidades estudantis sirvam para impulsionar ferramentas ágeis e deliberativas que permitam com que a base do movimento possa não apenas participar, fruto dos horários, mas que possa intervir e fazer com que suas opiniões de maioria e minoria se expressem posteriormente nas assembleias por representantes eleitos.

Imaginem quantos estudantes poderiam relacionar suas vidas com o futuro da educação pública e com as reformas já anunciadas pelo governo Bolsonaro se cada período de cada curso tivesse um comitê próprio? Se cada estudante puder intervir e assim disputar suas opiniões, podendo propor ações imediatas para seu próprio comitê e propostas para a assembleia geral? Assim não se garantiria, de fato, maior democracia do que se tem em reuniões quinzenais, em horários que não abarcam o conjunto dos estudantes, como a única possibilidade de intervir, com tão pouco tempo, e terminando sempre com menos da metade dos participantes?

Por esse motivo, nós, junto com outros estudantes e outras correntes políticas do movimento estudantil, intervimos defendendo que as reuniões fossem semanais, nos dois períodos (matutino e noturno). A isso nos responderam dizendo que seria “dispersivo”, pois as pessoas não iriam a duas reuniões. Trata-se de uma diferença de como organizar a luta que seguimos com o DCE: seu controle burocrático de ocupar todos os espaços deliberativos, controlando assim o movimento através da política que defendem contra a auto-organização que permite a ampla participação e o debate de ideias, expressando posições de maioria e minoria dentro da universidade.

Na reunião do Comitê, os companheiros, além de nos chamarem de "arrogantes e academicistas" por denunciar o papel de trégua dado pelas centrais sindicais que estão hoje nas mãos dos partidos de Haddad (PT) e Manuela D’Ávila (PCdoB), defenderam que não deveríamos exigir, mas dialogar com essas direções, exatamente como foi publicada a carta da última assembleia, ainda que naquela situação tivéssemos aprovado claramente o termo exigência. Para ganhar a votação, tiveram que confundir propositalmente a exigência às direções dessas centrais com suas bases ou ainda com trabalhadores comuns, como colocou a presidente do DCE.

Talvez aí esteja uma das expressões mais concretas do papel da tradição stalinista dessa corrente: lutam contra a auto-organização e encobrem o papel traidor das direções do movimento operário, o que só podem nos levar à submissão de estratégias impotentes para enfrentar os nossos inimigos que visam a submeter ainda mais o nosso país à espoliação imperialista. Para tal, vale utilizar até mesmo argumentações pós-modernas como se um movimento em luta não pudesse se dirigir a outros, especialmente quando estamos num dos principais polos operários do país e mesmo com a vitória de Bolsonaro em eleições completamente manipuladas, nenhuma assembleia ainda foi convocada na Mercedes-Benz, Volkswagen, GM para falar só de alguns dos batalhões de nossa classe.

O que a UP não é capaz de responder é: senão é falta de vontade dessas direções, como o diálogo cordial que propõem – e já foi testado pelo movimento estudantil, que mesmo sem ter aprovado essa cordialidade toda, teve uma carta que não teve êxito algum - irá agora promover a unidade que precisamos para a luta de classes?

Exigimos que a UNE, como a principal entidade estudantil do país, organize milhares de comitês para lutar contra Bolsonaro, tendo como primeira tarefa preparar um plano de luta contra a Reforma da Previdência e o Escola sem Partido. Queremos ser a geração que vai derrotar as medidas dos empresários capitalistas e imperialistas contra a classe trabalhadora, na luta pela construção de uma nova sociedade livre de toda exploração e opressão. E seguiremos denunciando o papel das centrais sindicais, nos colocando lado a lado dos trabalhadores para que eles retomem suas entidades para a luta!

Contra a tentativa de despolitizar as discussões nos fóruns estudantis que “pedem unidade” e dizem “que não é momento de divergência”, apostamos que somente construindo uma força estudantil, com um programa para que os capitalistas paguem pela crise, e que se enfrente com as manobras e medidas burocráticas da atual gestão é que poderemos resgatar o caráter combativo do movimento estudantil e fazê-lo pesar no cenário nacional. Frente à radicalidade da extrema-direita que quer vender o Brasil aos Estados Unidos e ganhou uma eleição fraudada saudando torturadores e intimidando a esquerda dizendo que fariam uma “limpa”, nós precisamos oferecer uma alternativa revolucionária para enfrentar os ataques. Chamamos os estudantes a construir junto ao Esquerda Diário e ao MRT essa alternativa.




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