Política

EDITORIAL

Como combater a direita?

Nas redes sociais trolls e robôs infernizam, nas cortes uma casta super bem-remunerada dá liminar para autorizar “cura gay”; no Congresso, um antro de empresários e corruptos, não faltam propostas reacionárias em prol dos interesses da mineração, do latifúndio, dos empresários e de suas hipócritas morais cristãs recheadas de isenção fiscal, criminosas concessões de rádio e TV e fartas propinas. O reacionarismo presente tem a ver com vitórias dos empresários. Essa ligação profunda entre capitalismo e reacionarismo precisa ser entendida para combater a direita.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quinta-feira 21 de setembro| Edição do dia

Doente não são os LGBT, mas é o capitalismo. O capitalismo faz do Mediterrâneo uma vala comum de negros e asiáticos fugindo de guerras que o imperialismo produziu, faz de vales férteis como do Rio Doce e de Mariana a morte e faz da vida de milhões de pessoas um duplo inferno: da exploração capitalista e das mil e umas opressões que ele produz e reproduz .

O capitalismo precisa de machismo, racismo, homofobia. Precisa para dividir a classe trabalhadora para que seja mais difícil lutar, para que humilhados e perseguidos pessoas não se vejam como sujeito, para produzir ideologia que coloquem uns contra os outros, e do ponto de vista econômico para garantir que exista trabalho doméstico não remunerado para baratear todos trabalhadores, para que as abissais diferenças salariais entre mulheres negras e homens brancos sirvam para rebaixar o salário de todos.

O capitalismo é uma máquina de produção e reprodução de opressões para maximizar lucros e dominação por uma minúscula minoria. É assim que faz mais sentido como grandes defensores de privatizações costumam também ser da “cura gay”, defensores de “fim dos sindicatos” também são do patriarcado e que as mulheres façam como diz Temer, ajudem em casa a alegrar a família. Claro que há capitalistas “ilustrados” (tipo FHC) mas seu interesse de classe sempre pesa mais alto que sua defesa das liberdades individuais e se contentam a emitir um lamento no facebook “que horrível tal evento”. São “ilustrados” mas ainda precisam de negros e negras servindo em suas fábricas, fazendas e Casas Grandes.

A força – relativa – que se vê em alguns discursos e medidas de direita são reflexo direto do fortalecimento dos capitalistas no país. São produto primeiro do golpe institucional de 2016 e agora da sobrevivência de Temer no poder graças a suas corruptas astúcias mas muito mais que isso à traição dos sindicatos que impediram a continuidade do caminho da greve geral.

Estaríamos diante de uma “fascitização” como afirmam alguns intelectuais?

Há claros elementos de direita na conjuntura e na situação política do país. Coisas que a direita sonhava mas não podia nem falar em voz alta agora é dito em alto e bom som. “Escola sem partido”, “cura gay” entre um sem fim de defesas da abolição dos direitos dos trabalhadores. A direita parece ter saído do armário. Mas esse elemento não esgota a realidade. No sul do país uma forte greve de professores marca toda a conjuntura local, nas redes sociais um grito contra a “cura gay” ecoa fundo, entrando até mesmo dentro das fábricas.

Algumas das medidas duras da direita estão encontrando pronta resposta e uma politização (pela esquerda) de massas que mostram como essas tentativas de obter o “máximo de reacionarismo que a conjuntura permitir” se chocam com elementos subjetivos de mais longo prazo, da etapa política, com forte questionamento às instituições, com forte sentimento de “igualitarismo” e revolta com tudo que cheirar a preconceito e que (re-)force desigualdades culturais, sociais.

Por outro lado temos uma passividade em meio a grave ataque aos direitos dos trabalhadores como a PEC 55 que estrangula os gastos da saúde e da educação, a terceirização irrestrita e a reforma trabalhista. Mas uma passividade que não estava dada. Essa passividade foi construída pelas centrais sindicais, seja as amigas (e compradas por Temer como a Força Sindical) ou por aquelas que só se preocupam com Lula 2018 (como a CUT). Esse mesmo país que está assistindo privatizações, ataques que teve a maior greve geral de sua história em 28 de Abril e poderia ter tido uma greve geral ainda maior em 30 de junho não fossem as direções burocráticas das centrais.

É possível enfrentar essa direita e se preparar para derrotá-la. Como?

Em primeiro lugar tendo clareza da conjuntura e da situação. Há elementos reacionários mas não consolidam ainda uma mudança no que a etapa política que Junho de 2013 abriu. Uma etapa que tem como marcas principais uma divisão entre alas do regime político, com o fortalecimento do judiciário, e um aumento na "crise de representatividade" com a falência da hegemonia lulista de conciliação de classes.

A vitória de Temer, os ataques garantem lucros e permitem reacionarismos até mesmo no nível do dono da Riachuelo se dizer perseguido porque o Ministério Público do Trabalho o denunciou por trabalho escravo. Essas conquistas da burguesia ainda não se configuram na construção de uma nova hegemonia, de novas formas estáveis para as instituições e sobretudo para “controle das classes sociais”. Porém, muitos ataques sem luta podem pouco a pouco minar essa confiança e dar maior estabilidade não só para Temer mas para seus parceiros de golpe institucional da FIESP mas também Malafaia, Bolsonaro.

É preciso tomar o que há de mais “contestador” na conjuntura e ajudá-lo a se desenvolver. É preciso lotar as ruas nessa sexta-feira contra a Cura Gay e pela imediata revogação da liminar, apoiar ativamente a greve dos correios contra a reforma trabalhista e a privatização dessa estatal, apoiar os professores gaúchos contra os cortes de salário e suas reivindicações. Cada luta dessa se for vitoriosa, será um ponto de apoio contra os empresários e os reacionários que os servem na política, nas cortes, na mídia e locais “de culto”.

Os correios em uma greve nacional pode, se virar uma grande causa de todos trabalhadores, transbordar a outras categorias que também enfrentam a ameaça da reforma trabalhista em suas data-base, como os petroleiros e metalúrgicos.

É possível se apoiar nessas lutas para impedir retrocessos no plano da liberdade individual, sexual, mas também nos direitos sociais e trabalhistas.

Porém, para combater a direita precisamos mais. As dificuldades na crise política e econômica do país indicam que a polarização não deve refluir no curto prazo, muito pelo contrário, é necessário se preparar para embates mais duros. Esse reacionarismo é produzido e alimenta o capitalismo, nosso combate deve ser anticapitalista.

O PT sempre se mostra impotente ou até mesmo conivente com a direita e os empresários. Foi aliado de Cunha (!), Feliciano (!) e agora faz tour no nordeste com Renan. A CUT não organiza nenhuma resistência às reformas nem procura colocar a força dos sindicatos para se enfrentar com a escandalosa homofobia da “cura gay” agora em voga. Faz isso porque sua estratégia não é de combater essa podre democracia dos ricos e esse capitalismo racista, machista, homofóbico; querem é conciliar interesses que são inconciliáveis.

Contra a “doença” da homofobia, do machismo, do racismo podemos erguer a luta pela unidade da juventude com os trabalhadores, tomando não só as redes sociais mas as ruas para fazer um combate a esses reacionarismos e sentar bases para que a classe trabalhadora supere preconceitos que a burguesia ajuda a difundir. Para avançar nessa perspectiva é também necessário retomar os sindicatos das mãos da burocracia sindical que não só concilia com os patrões e governos mas mantem e reproduz essa divisão. Assim seria possível se enfrentar com a divisão dos trabalhadores entre efetivos e terceirizados, lutando por sua incorporação, por igual salário entre homens e mulheres, negros e brancos. A retomada dos sindicatos é o que pode melhor permitir retomar o caminho da greve geral e colocar toda força da classe trabalhadora na rua, para se enfrentar com a “Cura Gay”, com as reformas, com Temer. A “resistência” de hoje pode abrir caminho a derrotar a direita e os empresários e avançar num caminho anticapitalista.

Cada matéria que viralizou essa semana neste Esquerda Diário, pelo interesse e iniciativa de nossos leitores, são para nós uma parte da tarefa de erguer ideias e instrumentos, "online" e nos locais de trabalho e estudo, para essa orientação política anticapitalista e revolucionária, que precisa de mais e mais força, de sua ajuda. Façamos do apoio às greves e da luta contra a Cura Gay um primeiro passo para combater a direita e fortalecer os trabalhadores e os oprimidos na atual conjuntura.




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