Teoria

Como chegou a esquerda espanhola ao golpe de 1936?

Breve percurso histórico desde a Comuna de Asturias, o golpe de 36, a revolução em Ctaluña e as estratégias da esquerda. Por que não triunfou e por que a vitória era possível.

segunda-feira 24 de julho| Edição do dia

(Manifestação em Mieres durante as mobilizações da outubro de 1934)

A decomposição do regime

Por 1931 a Espanha se encontrava num contexto de crises econômica e política, provocados pelo crack da bolsa de valores de Wall Street de 30 e devido ao fim da Primeira Guerra Mundial, onde se apresentou como exportadora de matérias primas paras as grandes potencias. O regime monárquico espanhol estava em decomposição e as velhas classes sociais, como a nobreza e o clero, se aliavam com a alta buerguesia que não podia resolver as principais demandas democráticas como a reforma agrária, absolutamente necessária para milhões de camponeses em estado de pobreza, e a liberdade dos povos oprimidos da península ibérica (Ctaluña, País Vasco principalmente) e do protetorado de Marruecos que passara a ser o principal bastião da reação.

Com a queda do Primo Rivera, que havia entrado no governo mediante um golpe, a coroa real ficava muito debilitada e terminou cedendo a pressão das mobilizações operárias, campesinas e estudantis a convocar eleições municipais.

O panorama político

Foi esmagador o triunfo nas eleições municipais por parte dos socialistas e republicanos, no 14 de abril de 1931, situação que determinou a saída de Alfonso XIII e a instalação da Segunda República.

Para o revolucionário russo Leon Trotsky, a partir da queda do antigo regime se abriu um longo processo revolucionário. Uma situação muito mais dilatada em tempo, sem embargo, a que viveu o proletariado russo.

Cataluña se encontrava em pleno processo de radicalização das massas trabalhadoras pela independência. Nesta localização onde a Izquierda Comunista Española (ICE) liderada por Andreu Nin e Juan Andrade, que se identificavam com o trotskysmo, e o Bloque Obrero e Campesino (BOC) cujo dirigente era Joaquín Maurín teriam maior desenvolvimento. Os dirigente anarcosindicalistas da Confederación Nacional del Trabajo (CNT) aglutinavam importantes frações da classe trabalhadora mas se dividiam entre aqueles que se somaram as ilusões republicanas e aqueles que se lançaram as aventuras insurrecionais, situação que expôs e debilitou importantes setores da vanguarda. O pequeno Partido Comunista Espanhol naquele momento se encontrava a deriva devido a um período de marcado sectarismo que teria por então a Terceira Internacional: tachavam de socialfascismo a socialdemocracia e isto não os permitia ter um diálogo fluído com aplos setores da classe trabalhadora, situação que sem embargo revisaram mais adiante.

Neste contexto de radicalização, a juventude do Partido Socialista Obrero Español (PSOE) viraram a posições mais para a esquerda, momento em qual Trotsky suscitava a entrada da ICE ne Din no Partido Socialista aproveitando apelo que faziam alguns dirigentes deste partido ao trotskysmo para ajuda-los a lutar contra a ala direita do PSOE. A ICE tomou uma postura sectária que optou por se fundir com o BOC de Maurín, partido cuja estratégia era hostil ao trotskysmo e cujo programa havia sido criticado faz tempo por Trotsky e o mesmo Nim. Anos mais tarde esta aliança daria lugar ao Partido Obrero de Unificación Marxista (POUM).

Trotsky qualificou este partido de “centrista”, em suas palavras “o centrismo de esquerda, sobretudo em condições revolucionárias, está sempre disposto a adotar de palavra o programa da revolução socialista (...) sempre pensa que é prematuro, há que preparar a opinião das massas, em troca teme romper suas relações amistosas habituais com seus amigos da direita (...)” (A Vitória era possível, CIEP, Introdução).

Foi uma primeira oportunidade perdida. As diferenças entre Nin e o revolucionário russo se iriam aprofundando porque, como indicava Trotsky, se bem o PC era um partido pequeno levava consigo as bandeiras que haviam usurpado da Revolução de Outubro e desta maneira conseguiu capitalizar o desencanto da juventude socialista com suas direções, ampliando sua corrente militante e dando passo ao stalinismo no território espanhol.

Milícias do POUM

La Comuna de Asturias

O período em qual republicanos e socialistas ocuparam o governo se o denominam bem reformista e foi um processo no qual as massas fizeram sua experiência e ficaram desencantadas ao ver que as promessas de reforma agrária eram insuficientes para um campesinato que começava a tomar a demanda por iniciativa própria. Neste contexto foram reprimidos pela República no Massacre de Casas Viejas. Isto significou a perda de um importante apoio popular que desembocaria na saída do governo socialista de Manuel Azaña nas eleições de 33, onde cehga ao poder a união de Derechas y Agrarios, dando início ao bem conhecido biênio negro.

Foi um período caracterizado pela ascensão da repressão e prisões políticas; onde se derma processos revolucionários cada vez mais radicalizados. Em 34 das paralisações nacionais, em Madrid e Barcelona, são derrotadas em grande parte porque suas direções terminaram cedendo. Distinto foi Asturias onde as direções se veem atropeladas pelas massas chegando a insurreição. A direção da CNT anarquista jogou um papel nefasto e em lugar de paralisar o serviço de trens, evitando a chegada das tropas de Franco, deixou ingressar as mesmas e a Comuna termina sucumbindo com um saldo de centenas de mortes e milhares de presos, gerando uma importante perda a vanguarda operária.

A propósito da Frente Popular e o golpe de 36

A Frente Popular estava constituída pela socialdemocracia, os republicanos, o PC – e anos depois de sua fundação – se integrariam ao POUM e os anarquistas da CNT chegando a ocupar cargos na Generalitat de Ctaluña. Estava baseda na colaboração de classes e a proteção da propriedade prvada ameaçada pelos operários que colocaram a produzir as fábricas e os serviços de transporte sob gestão própria; também adiaram a reforma agrária por tempo indefinido. Enquanto, os trabalhadores impulsionavam organismos de auto-organização e potencializavam o duplo poder. Já antes do ingresso do POUM, que se havia distanciado de Trotsky e chegou a expulsão dos trotskystas da Quarta Internacional do partido, este frente se dedicou a desarmar as milícia operárias, e reforçar o exército republicano oficial e a reprimir abertamente as greves campesinas.

Grande parte do exército oficial, quando foi a insurreição franquista de 36, se passou ao bando reacionário. A política criminosa de não armar o povo em defesa da república, por parte da Frente Popular, foi ignorada pelos trabalhadores que uma vez mais tomaram as armas. Mas esta contrainssureição proletária entrou em sua fase de retrocesso em 37 colocando fim ao heroico processo revolucionário espanhol, não sem antes derramar rios de sengue da classe trabalhadora.

A vitória era possível

Seguindo Trotsky “a responsabilidade desta situação recai diretamente sobre os stalinistas, os socialistas e os anarquistas, e mais exatamente, sobre seus dirigentes, que foram subordinando a revolução aos interesses da burguesia”.

O revolucionário russo insiste em que, perante o avanço do fascismo, devia-se defender a democracia burguesa mas com os métodos da luta de classes que prepararia a queda daquele sistema de opressão sobre a classe trabalhadora, para substituí-lo por um onde os trabalhadores acreditem m seus próprios organismos de governo e domínio.

“No processo de defesa da democracia burguesa o partido do proletariado não deve assumir nenhuma responsabilidade relação a democracia burguesa, não deve entrar em seu governo, senão que deve conservar plena liberdade crítica, de ação, frente a todos os partidos da Frente Popular”, Leon Trotsky.

Exatamente o oposto as tarefas que tomou o POUM, devido em grande parte, a seu balanço de que na Espanha não havia situação de duplo poder como se houve na Rússia. A partir da tal conclusão o partido de Nin formou parte da Frente Popular supondo que a burguesia seria calda do mesmo e ocorreu exatamente o oposto, o POUM se converteu no conselheiro “revolucionário” do resto dos partidos hegemônicos da frente, que exclamavam “primeiro a guerra e depois a revolução”.

Na Espanha onde as condições estavam dadas para uma revolução socialista fazia falta um partido com uma perspectiva revolucionária que, em lugar de fazer frente com o stalinismo e a burguesia, fizesse apelos ao campesinato a tomar as terras, armar a classe operária, e instalar a que se desenrolasse seus próprios organismos de auto-organização em substituição dos da democracia burguesa. A chave era organizar uma Frente Única com o resto dos sindicatos e organizações de “esquerda” para ganhar o melhor para suas fileiras e repelir o fascismo e, na retaguarda, lutar contra o “termidor” stalinista.

Tenho aqui a grande diferença com a Revolução de Outubro. Mas a pesar de tudo isso Trotsky sempre destacou a valentia das fileiras da CNT e do POUM, e inclusive de Nin, assassinado pelo stalinismo. A enorme luta que deu o proletariado e o campesinato espanhol, e as várias amostras da superioridade demonstrada pela gestão socialista, permitiram a redução da jornada de trabalho e colocando em funcionamento serviços essenciais, como o transporta, reduzindo amplamente as tarifas. Restam enormes lições a serem estudadas com atenção por todo aquele que aspire a uma sociedade sem opressores e oprimidos. Para não repetir os mesmo erros e dar com os mesmo acertos, porque perante tudo, a vitória era e será possível.

Tradução Douglas Silva




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