Teoria

TEORIA

Como Trotski explica a vitória do fascismo na Itália?

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 18 de agosto| Edição do dia

Apresentação

O texto a seguir integra a abundante produção de Trotski daqueles anos que antecedem a vitória de Hitler na Alemanha, em 1933. Nele, Trotski trata de tirar “as lições da experiência italiana”, título, aliás, deste texto.

Ele tem importância capital – assim como todos os demais daquele momento, do mesmo autor, – para explicar a vitória de Mussolini e, a seguir, de Hitler. Trotski foi o autor que melhor decifrou a lógica e o caráter de classe do nazi-fascismo, fato reconhecido inclusive por estudiosos não-trotskistas. O breve texto a seguir é uma amostra. Ali aparece claramente a explicação de que Mussolini [ou Hitler] era um dos cenários e no caso alemão, um cenário perfeitamente evitável, caso a direção do PC alemão [Thälmann & Stalin] tivesse adotado a política correta, de frente única operária para a ação comum, PC-social-democracia. Em 1931 o PC ganhara 5,3 milhões de votos, contava com grandes batalhões operários; a social-democracia, idem e, juntos, barrariam facilmente o terror fascista. Faltou a política necessária.

Trotski fala – em outro texto, de “condições políticas excepcionalmente favoráveis”, mas o PC se recolheu na mesquinha impotência, chamando a social-democracia de fascista, barrando a unidade de ação do proletariado revolucionário dos dois grandes partidos. Não se dava conta que o fascismo somente se impõe a partir da derrota do proletariado e que não é um regime de direita a mais, sequer um bonapartismo policial a mais, e sim um “regime de guerra civil aberta contra o proletariado”.

O PC, com a política de igualar social-democracia com fascismo, bloqueou sua influência sobre o proletariado social-democrata, impediu um acordo dos dois partidos para ações práticas anti-ascenso de Hitler e contra os bandos nazistas; em nome de uma futura revolução proletária [era o argumento stalinista - , impediu a ponte necessária para a vitória futura da revolução, a frente única operária. Uma lição que já vinha da frente de ação com Kerenski, em 1917, para derrotar o golpista Kornilov e, em seguida, a vanguarda operária aplastar Kerenski. Foi a tática bolchevique.

No texto abaixo Trotski recolhe, da experiência italiana de dez anos antes, lições políticas para a Alemanha pré-Hitler: a ala Bordiga do jovem PCI, minimizou o fascismo como apenas mais um governo de direita [uma “reação capitalista” a mais] e não se dava conta que o nazi-fascismo é um fenômeno novo, da era da decadência imperialista, não se dava conta de que é um fenômeno orgânico do capitalismo decadente e que o Estado fascista “equivale ao estrangulamento completo de todas as organizações independentes de massas”. E que, portanto, diante de sua ameaça [de Korrnilov a Hitler] se impõe a política de frente única das organizações operárias, a frente única operária, tema da mais atual importância no debate da esquerda contemporânea.

Gilson Dantas

As lições da experiência italiana
LEON TROTSKI

O fascismo italiano foi resultado imediato da traição da insurreição do proletariado italiano, pelos reformistas. Desde o fim da guerra, o movimento revolucionário na Itália foi sempre crescendo e resultou, em setembro de 1920, na ocupação das usinas e das fábricas pelos operários. A ditadura do proletariado tornava-se um fato e só restava organizá-la e tirar dela todas as conclusões. A social- democracia teve medo e recuou. Depois de esforços audaciosos e heroicos, o proletariado se viu diante do vácuo. A interrupção do movimento revolucionário foi a premissa mais importante para o crescimento do fascismo. Em setembro, a ofensiva revolucionária do proletariado foi interrompida; já em novembro se verificou a primeira demonstração de forças importante dos fascistas (a tomada de Bolonha).

É verdade que o proletariado foi capaz de lutas defensivas mesmo depois da catástrofe de setembro. Mas a social-democracia só se preocupava com uma coisa: retirar da linha de fogo os operários, a preço de concessões ininterruptas. Os social-democratas esperavam que a atitude dócil dos operários erguesse “a opinião pública” da burguesia contra os fascistas. Mais do que isso, os reformistas contavam até mesmo com o auxílio de Vítor Manuel [rei da Itália, NR]. Até o último minuto, refrearam com todas as suas forças os operários na luta contra os bandos de Mussolini. Mas em vão. Depois das altas esferas da burguesia, a coroa se colocou do lado do fascismo. Convencidos, no último momento, de que não se pode combater o fascismo pela docilidade, os social-democratas chamaram os operários para uma greve geral. Mas o seu apelo foi um fiasco. Os reformistas tinham molhado por tanto tempo a pólvora, temendo que ela explodisse, que quando finalmente lhe aproximaram o fósforo com a mão trêmula, ela não pegou fogo.

Dois anos depois do seu nascimento, o fascismo chegou ao poder. Consolidou suas posições graças ao fato do primeiro período de seu domínio ter coincidido com uma conjuntura econômica favorável que sucedeu a depressão dos anos 1921-1922. Os fascistas esmagaram o proletariado em retirada por meio da força ofensiva da pequena burguesia. Mas isso não se deu de uma vez. Já no poder, Mussolini avançava no seu caminho com certa prudência: ainda não tinha o modelo feito. Durante os dois primeiros anos, a Constituição nem mesmo foi modificada. O governo fascista tinha um caráter de coligação. Nesse período, os bandos fascistas trabalhavam com paus, facas e revólveres. O Estado fascista, que equivale ao estrangulamento completo de todas as organizações independentes de massas, foi criado pouco a pouco.

Mussolini conseguiu isso à custa da burocratização do próprio partido fascista. Depois de se ter utilizado da força ofensiva da pequena burguesia, o fascismo estrangulou-a nas malhas do Estado burguês. Não podia agir de outra maneira, porque a desilusão das massas por ele reunidas se transformava em um dos perigos mais imediatos para ele. O fascismo burocratizado se aproximou enormemente das outras formas de ditadura militar-policial. Não tem mais o seu apoio social precedente. A principal reserva do fascismo - a pequena burguesia - esgotou-se. Só a inércia histórica permite ao Estado fascista manter o proletariado num estado de dispersão e de impotência. A relação de forças muda automaticamente a favor do proletariado. Esta mudança deve levá-lo à revolução. A derrocada do fascismo será um dos acontecimentos mais catastróficos na história europeia. Mas todos esses processos, como mostram os fatos, exigem tempo. O Estado fascista existe já há uma década. Quanto tempo durará ainda? Sem arriscar-se na previsão dos prazos, pode-se dizer com segurança: a vitória de Hitler na Alemanha significará uma nova e longa possibilidade para Mussolini. A derrota de Hitler será o começo do fim para Mussolini.

Na sua política contra Hitler, a social-democracia alemã não inventou uma única palavra: ela não faz mais do que repetir de um modo mais pesado o que realizaram, no seu tempo, com muito mais temperamento, os reformistas italianos. Estes últimos explicavam o fascismo como uma psicose do pós-guerra; a social-democracia alemã vê no fascismo a psicose de “Versalhes” ou, inclusive, a psicose da crise. Em ambos os casos, os reformistas fecham os olhos para o caráter orgânico do fascismo, como movimento de massas, oriundo da decadência do capitalismo.

Temendo a mobilização revolucionária dos operários, os reformistas italianos colocaram toda a sua esperança no “Estado”. Sua palavra de ordem era: “Vitor Manuel, aja!” A social-democracia alemã não tem um recurso tão democrático como um monarca fiel à Constituição. Pois bem, contentam-se com um presidente: “Hindenburg, aja!”

Na luta contra Mussolini, isto é, no recuo diante dele, Turati lançou a sua fórmula genial: “É preciso ter a coragem de ser covarde.” Os reformistas alemães são menos brincalhões nas suas palavras de ordem. Exigem “coragem para suportar a impopularidade”. (Mut zur Unpopularitat). É a mesma coisa. Não se deve temer a impopularidade provocada pela própria adaptação covarde ao inimigo.

As mesmas causas provocam as mesmas consequências. Se a marcha dos acontecimentos só dependesse da direção do partido social-democrata, a carreira de Hitler estaria garantida.

É preciso reconhecer, no entanto, que o Partido Comunista alemão também não aprendeu muito com a experiência italiana.

O Partido Comunista da Itália nasceu quase ao mesmo tempo que o fascismo. Mas as mesmas condições de refluxo revolucionário que faziam o fascismo subir ao poder, entravavam o desenvolvimento do Partido Comunista. O Partido Comunista não tinha uma noção exata da extensão do perigo fascista, embalava-se com ilusões revolucionárias, foi irremediavelmente hostil à política de frente única, foi atingido, em suma, por todas as doenças infantis. Não há nisso nada de surpreendente: tinha só dois anos. Só via no fascismo uma “reação capitalista”. O Partido Comunista não discernia os traços particulares do fascismo, que a mobilização da pequena burguesia contra o proletariado lhe apresentava. Segundo as informações dos amigos italianos, com exceção de Gramsci, o Partido Comunista nem mesmo admitia a possibilidade da tomada do poder pelos fascistas. Uma vez que a revolução proletária tinha sofrido uma derrota, que o capitalismo tinha sabido resistir e a contrarrevolução tinha triunfado, como poderia advir ainda um golpe de Estado contrarrevolucionário? É, em qualquer caso, impossível que a burguesia se insurja contra si mesma. Foi esta a essência da orientação política do Partido Comunista italiano. Não se deve esquecer, contudo, que o fascismo italiano foi então um fenômeno novo que estava ainda em vias de se formar: seria difícil, mesmo a um partido mais experiente, definir os seus traços específicos.

A direção do Partido Comunista alemão repete hoje quase literalmente a posição inicial do comunismo italiano: o fascismo não é mais do que uma reação capitalista; a distinção entre as diferentes formas de reação capitalista não tem importância do ponto de vista proletário. Este radicalismo vulgar é tanto menos perdoável quanto o partido alemão é muito mais velho do que era o partido italiano na época correspondente e, além disso, o marxismo está hoje enriquecido da experiência trágica da Itália. Afirmar que o fascismo já está no poder ou negar a própria possibilidade de sua chegada ao poder é politicamente a mesma coisa. A ignorância da natureza específica do fascismo paralisa inevitavelmente a vontade de luta contra ele.

É claro que a maior culpa cabe à direção da Internacional Comunista. Os comunistas italianos, mais do que todos os outros, deveriam levantar a voz para prevenir esses erros. Mas Stalin e Manuilsky os obrigam a renegar as mais importantes lições de seu próprio esmagamento. Já vimos com que solicitude servil Ercoli adotou as posições do “social-fascismo”, quer dizer, as posições de espera passiva da vitória fascista na Alemanha.

A social-democracia internacional consolou-se durante muito tempo dizendo que o bolchevismo só é concebível em países atrasados. Em seguida, a mesma afirmação foi aplicada por ela com relação ao fascismo. A social-democracia alemã é agora forçada a sentir na própria pele a falsidade desse consolo: os seus companheiros de jornada pequeno-burgueses passaram e continuam a passar para o campo do fascismo, ao passo que os operários a abandonam para aproximar-se do Partido Comunista. Só esses dois agrupamentos crescem na Alemanha: o fascismo e o bolchevismo. Embora a Rússia, de um lado, e a Itália, do outro, sejam países muito mais atrasados do que a Alemanha, uma e outra serviram, contudo, de arena do desenvolvimento dos movimentos políticos peculiares ao capitalismo imperialista. A Alemanha adiantada é forçada a reproduzir os processos que atingiram o seu desenvolvimento completo na Rússia e na Itália. O problema fundamental do desenvolvimento alemão pode ser agora formulado assim: ou o caminho da Rússia, ou o da Itália.

É claro que isso não quer dizer que a estrutura social desenvolvida da Alemanha não tenha importância do ponto de vista do desenvolvimento dos destinos do bolchevismo e do fascismo. A Itália é, muito mais do que a Alemanha, um país pequeno-burguês e camponês. Basta lembrar que, para 9,8 milhões de homens empregados na economia agrícola e florestal, há na Alemanha 18,5 milhões de homens empregados na indústria e no comércio, isto é, quase o dobro. Na Itália, para 10,3 milhões empregados na economia agrícola e florestal, há 6,4 milhões empregados na indústria e no comércio. Esses algarismos abstratos estão longe ainda de dar uma ideia do peso específico considerável do proletariado na vida da nação alemã. Mesmo a cifra gigantesca dos desempregados é uma prova negativa da força social do proletariado alemão. Tudo consiste em traduzir essa força na língua da política revolucionária.

A última derrota importante do proletariado alemão, que pode ser colocada na mesma escala histórica das jornadas de setembro na Itália, foi a do ano de 1923. No período de oito anos que decorreu, muitas feridas cicatrizaram, veio uma nova geração. O Partido Comunista alemão representa uma força incomparavelmente maior do que a dos comunistas italianos em 1922. O peso específico do proletariado, o intervalo considerável que o separa da última derrota, a força considerável do Partido Comunista - são três vantagens de enorme importância na apreciação geral da situação e da perspectiva.

Mas para utilizar essas vantagens, é preciso compreendê-las. E é o que não acontece. A posição de Thälmann em 1932 reproduz a de Bordiga em 1922. Nesse ponto, o perigo toma um caráter particularmente agudo. Mas aqui também há uma vantagem complementar que não existia há dez anos. Nas fileiras revolucionárias da Alemanha encontra-se uma oposição marxista que se apoia na experiência da década decorrida. Esta oposição é fraca numericamente, mas os acontecimentos dão à sua voz uma força excepcional. Em certas condições, um leve abalo pode produzir toda uma avalanche. O abalo crítico da Oposição de Esquerda pode ajudar em tempo a mudança da política da vanguarda proletária. É nisto que consiste hoje a tarefa!

L. Trotski

[Este tópico corresponde às páginas 191-195 de Revolução e contrarrevolução na Alemanha, Trotski, 2011. São Paulo: Sundermann. Tópico VII, do texto E agora? A revolução alemã e a burocracia stalinista]

E. Thälmann [1886-1945] – dirigente do PC alemão, stalinista, cuja política permitirá a vitória de Hitler.
A. Bordiga [1889-1970] – dirigente do PC italiano, por um tempo da ala italiana da Oposição de Esquerda trotskista, mas um recalcitrante sectário, se separando da Oposição de Esquerda Internacional em 1932, visceralmente contrário à frente única operária.




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