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MOVIMENTO OPERÁRIO

Comissões de fábrica, instrumento do proletariado na luta contra a burocracia sindical

Na luta contra os aparatos hegemônicos que constrói a burguesia dentro do movimento operário, sendo o principal a burocracia sindical, como trincheiras suas capazes de desorganizar os movimentos emancipatórios do proletariado e dar respostas organizativas que correspondam a seus interesses, é necessário à classe operária organizar instrumentos próprios, aparatos hegemônicos seus, que como forma inicial de contra-poder possam funcionar como trincheiras em sua luta contra a ditadura do capital.

sábado 13 de agosto| Edição do dia

As comissões de fábrica se constituíram historicamente como um desses instrumentos, desses aparatos hegemônicos proletários, em sua luta contra a burocracia sindical. Aqui se busca fazer uma pequena reflexão, que em nada se pretende conclusiva, sobre as comissões de fábrica e seu papel na luta contra a burocracia encastelada nos sindicatos.

Os sindicatos na época imperialista

Os sindicatos são instrumentos centrais da luta da classe trabalhadora. Congregando parte significativa do proletariado (no entanto praticamente sempre minoritária) os sindicatos sempre foram ferramenta essencial na luta pelas demandas mais sentidas e imediatas de nossa classe. Em suas lutas salariais, por maiores direitos, pela regulamentação da jornada de trabalho, contra os ataques da patronal, os sindicatos foram peças históricas chave que construíram os trabalhadores para lutar por seus interesses comuns.

No entanto, de ferramentas organizadas pelos próprios operários para defender seus interesses, quando surgem no século XIX na Inglaterra, os sindicatos vão sendo cada vez mais absorvidos para dentro das engrenagens do aparelho estatal, cada vez mais a patronal vai buscando cooptar as direções sindicais, tornando elas parte de seu aparato hegemônico.

Organismo perene, primeira forma de organização dos trabalhadores, forma mais elementar de sua consciência de classe, a burguesia cada vez mais compreende que a melhor forma de lutar contra a organização sindical da classe operária é não um embate direto, sua proibição, por exemplo, mas atrair os sindicatos para sua esfera de influencia. Faz isso através de toda uma nova camada de burocratas sindicais, que com a estabilização da organização sindical passa a existir em todos os países, e funcionam como representantes dos interesses da patronal dentro do movimento operário.

Esse processo de degeneração dos sindicatos se aprofunda na época imperialista, com a necessidade para a burguesia de impedir uma organização própria dos operários e ter portanto que dar uma resposta organizativa sua própria para a classe trabalhadora, que os mantenha organizados dentro de marcos estritamente aceitáveis para o capital e em nada questionem sua dominação. A necessidade de uma classe operária dócil, que seja massa de manobra para as ações da burguesia “nacional” é fundamento para a cada vez mais profunda integração do aparato sindical oficial ao organismo estatal, diretamente ou de forma indireta, na época imperialista.

Disso não se deve concluir que os revolucionários devem virar as costas aos sindicatos, mesmo os mais burocratizados, muito pelo contrario. As contradições para a burguesia e seus lacaios na burocracia sindical de organizar massivamente os trabalhadores permitem que com uma hábil e inteligente política os revolucionários possam ganhar influencia nesses organismos e assim desmascarar o papel traidor da burocracia.

Em cada luta parcial que a burocracia muitas vezes é obrigada a levar a frente (ou fingir levar a frente) os revolucionários devem ser a linha de frente em defender as demandas parciais, mesmo as mais elementares, dos trabalhadores, ligando essas demandas a necessidade de uma luta decidida contra os patrões e mostrando que a luta parcial não pode resolver os problemas de fundo da classe operária. Uma política de frente única, portanto, ligada a política de exigência e denúncia cumpre papel fundamental em desmascarar a burocracia frente a classe operária.

As comissões de fábrica como aparato hegemônico AD-HOC do proletariado na luta contra a burocracia

Se não devem os revolucionários virar as costas aos sindicatos de massas, mesmo os mais burocratizados, pois esses congregam grande parte da classe trabalhadora, também não podem se adaptar a sua realidade burocratizada. Buscar formas organizativas que permitam aos trabalhadores mais radicalizados e de vanguarda se organizar de forma independente e em luta direta contra a burocracia é forma essencial de forjar um setor revolucionário dentro do próprio proletariado.

Historicamente as comissões de fábrica foram um desses instrumentos criados pelos trabalhadores para lutar contra a burocracia sindical. Se organizando muitas vezes de forma semiclandestina nas fábricas, dada a ditadura patronal apoiada pela burocracia sindical, as comissões de fábrica foram forma de organizar os setores mais conscientes e combativos de nossa classe contra os burocratas e contra os patrões.

Reunindo um grupo de trabalhadores, algumas vezes, quando possível, de forma eleita, quando impossível de forma totalmente clandestina, esses trabalhadores passam a pensar política junto, como se organizar em defesa de seus direitos, por melhores salários, contra os assédios da patronal, como lutar contra as amarras da burocracia, até a discutir a situação nacional, política de conjunto, entendendo de maneira cada vez mais profunda que a política levada a frente pelos partidos dos patrões é expressão condensada de seus interesses econômicos, de sua necessidade de atacar a classe operária e a manter passiva frente a esses ataques.

A relação da comissão de fábrica com o sindicato

É impossível estabelecer uma relação geral que deveria ter uma comissão de fábrica legitima e o aparato sindical, pois isso depende de como se organiza o sindicato. Em momentos como o que vivemos no Brasil hoje, onde a maior parte do aparato sindical é uma gigantesca burocracia as comissões de fábrica não podem deixar de ser semiclandestinas.

Não devemos nos adaptar a democracia burguesa; ao contrário, devemos ter claro que ela também é forma de ditadura patronal. É necessário que as comissões de fábrica sejam semiclandestinas hoje, pois se são abertas a burocracia sindical, mancomunada com a patronal, irá persegui-las, cassá-las, demitir seus integrantes. Assim, para que ela possa ser trincheira organizativa dos trabalhadores conscientes ela tem que se organizar clandestinamente.

No caso de um sindicato que não seja burocrático, realmente de luta, ligado as bases e efetivamente representando seus interesses a comissão de fábrica pode ser elemento que tenha uma relação mais orgânica com a base, sendo forma organizativa de uma relação mais direta entre uma política combativa e a base dos trabalhadores. Sem ser assim totalmente submetida ao sindicato a comissão de fábrica pode ter uma relação dinâmica e de complementação com um sindicato não burocratizado.




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