Juventude

CRÔNICA

Comer livros ou ter o que comer?

Relato de uma estudante da Unicamp que perdeu a bolsa para se manter na universidade no início do ano

Sagui

jovem trabalhadora

sábado 7 de março| Edição do dia

Comecei o Projeto de Fichas de Leituras- Associação Cultural do Negro (1954-1976) no dia 08 de maio de 2019. Os primeiros dias foram difíceis, não sabia ao certo como fazer os fichamentos e mesmo aquela carga de leitura e resumos cansava um pouco a mente. Mas apesar disso, as anotações iam saindo e eu me acostumava com a rotina.

Fiz uma amizade no suposto trabalho, conversava durantes as manhãs ou tardes que compria a bolsa. Mandava dúvidas para o orientador do projeto e combinava horários de trabalho com o outro bolsista. Por vezes achava aquela tarefa mecânica, embora necessária. Por outras me encantava pelas documentações que me mostravam uma riqueza de feitos que eu nunca soubera antes. E em muitos momento me perguntei: por que os estudante pobres, filhos da classe trabalhadora, substituem vários funcionários trabalhando nessa universidade enquanto outros podem apenas estudar?

Ao mesmo tempo que também questionava, por que não tem bolsa pra todos que precisam e nós, estudantes pobres que entram aos poucos a cada ano na universidade, temos que disputar entre nós as poucas vagas que tem? Mas embora todos seus altos e baixos, posso dizer que a bolsa permanência foi pra mim como um bom pedaço de bolo gostoso num dia inteiro de chuva.

Mas como as massas de ar vem e voltam, as chuvas voltaram e hoje não teremos bolo. Essa foi a sensação que tive quando acessei o site da SAE e consultei a nova lista de contemplados há alguns dias. O sentimento era de desânimo e frustração sem tamanho. Era justamente isso que temia durante as férias, o que me causou diversos dias de muita ansiedade combinados com um leve sentimento de desistência.

Eu disse para uma amiga, “estou tristinha por que não saí na bolsa da BAS ainda e agora não tenho nem previsão de quando vai sair, a última foi terça”. Eu Sinceramente nem ficava triste pelo fato de ter que trabalhar, porque fui acostumada desde cedo que isso é uma necessidade que eu tenho de enfrentar, mas o mais difícil seria ter que conciliar o trabalho e os estudos. Como terei menos tempo pra estudar e não tive um bom ensino escola, perder a bolsa e ter de trabalhar significa também ter um pior desempenho na faculdade, e por conseguinte, uma formação mais precária. Inclusive porque, os trabalhos oferecidos hoje após a reforma trabalhista e o maior número de desempregados quando não são precários, são também informais.

Pensei que sou descartável, o que talvez para a Universidade seja mesmo, sou só mais um número de matrícula. Fiquei um ano me dedicando a um projeto e de repente tenho que apenas me retirar, é só colocar outra pessoa no lugar. Quem tem bolsa não tem garantia de nada, ainda mais frente a uma maior necessidade de bolsas pelos estudantes. O ano passa e no próximo quem sabe vamos conseguir continuar no projeto, ou mesmo na Universidade.

Fato é, sou só mais uma. Mais uma entre vários estudantes que entram na Unicamp e em outras universidades/faculdades e não tem nenhuma garantia de permanência. Por vezes isso é uma questão determinante para a continuidade dos estudos, é quase como escolher entre comer livros ou ter o que comer. No capitalismo, a juventude mais precária pode até ter acesso ao ensino superior, mas esse também se dará de forma precária.

Por fim, eu sigo, né?! Sigo confiante de que não basta só entrar, mas transformar a universidade e todo o entorno. Às vezes ser só mais uma pode soar como desesperador, outras pode significar que não estamos sozinhas. Eppur si muove.

Segue uma colaboração de uma companheira sobre a permanência estudantil, a qual ajuda a entender melhor o descaso com a permanência estudantil, o que podemos defender e como: Permanência estudantil: a luta contra o segundo filtro de exclusão do ensino superior

Nota da autora: durante a escrita dessa crônica, mas um descaso da permanência estudantil na Unicamp ocorreu, minha casa na moradia alagou na terça-feira (3), graças a uma falta de manutenção, e a única resposta que recebemos da Unicamp, vulgo Reitoria, é que não podem fazer nada.

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O Esquerda Diário se coloca aberto a receber crônicas, relatos ou entrevistas de cada estudante que sofre com a falta ou mesmo a deficiência da permanência estudantil.




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