Sociedade

OLIMPÍADAS RIO DE JANEIRO

Começam os jogos olímpicos: a festa não esconde o descontentamento no Brasil e a crise mundial no capitalismo

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

sábado 6 de agosto| Edição do dia

“Se hoje existe um país que precisa de uma levantada com um espetáculo, mesmo que seja como exercício de relações públicas, este país é o Brasil” assim abre o New York Times o artigo de capa. A TV Globo analisou com mil e um comentaristas políticos, internacionais, esportivos como o Brasil precisava de uma cerimônia como esta para melhorar o “clima do país”. Diziam enfaticamente que as pessoas precisam aprendam a “respeitar a opinião um do outro” como lembrava Galvão Bueno.

Um retrato, televisionado, de espetáculo, e inegavelmente de um país dividido, um governo golpista sem legitimidade primeiro escondido no anúncio das autoridades presentes e depois quando finalmente apareceu por breves segundos foi vaiado ruidosamente.

No Brasil não há nem como começar a esconder os problemas sociais, econômicos e políticos, e a “festa olímpica” serve ao golpista Temer e a tantos que investiram pesado em uma imagem de um país que já ninguém acredita mais , mesmo assim o Globo insistiu nisso em editorial no dia de ontem, Carolina Cacau, professora e estudante do Rio de Janeiro, pré-candidata a vereadora na “cidade maravilhosa” respondeu mostrando as falácias dos argumentos.

O problema da Olimpíada é tamanho que o próprio Temer de manhã divulgou a toda imprensa carta sobre como ela seria oportunidade para mostrar a alegria do país, o unir, e toda uma tentativa de formar um discurso que não consegue esconder a crise, como mostra Diana Assunção, pré-candidata do MRT a vereadora em São Paulo em artigo.

A cerimônia de abertura buscou mostrar um Brasil miscigenado. Um Brasil pátria de todos. Dos negros (monstruosamente mortos pela polícia mais assassina do mundo), da loira Gisele Bundchen, garota de Ipanema na cerimônia. Um país cheio de negros, rigorosa e cuidadosamente escolhidos para falar de um “país de todos”. Um Brasil negro, feliz, mas sem Amarildos, que segue sem ser encontrado.

Na internet, em todo o mundo, o Facebook chama as pessoas a declararem o que sentem com os jogos. Todo um marketing para que bilhões se sintam “pertencendo” ao trending topic mundial. “Só você vai ficar de fora”? Mas quem está dentro do espetáculo elitizado? Com certeza não estão os que foram removidos pelas grandes obras. Não estão os brasileiros desempregados. Na arquibancada além de turistas o que se vê é um retrato em loiro e olhos azuis de um Brasil que não é aquele que anda de transporte público.

Jogos dos imigrantes e refugiados – em meio à construção de mais e mais muros

Do ponto de vista internacional a cerimônia também procurou dar conta de dois pontos fracos, entre outros, do capitalismo internacional. O centro da cerimônia foi sobre “meio ambiente”, justo no país do mega-desastre realizado por uma empresa privatizada, a Samarco, que matou quilômetros do meio-ambiente, desalojou populações para o lucro da "brasileira" Vale e da australiana BHP Billinton. Mas não só no Brasil se vê as consequências ambientais globais do capitalismo.

O outro centro do evento, muito destacado pela imprensa internacional, foi o cuidado em mostrar os imigrantes, os refugiados. Sistematicamente presos no Norte da África, na Turquia, perseguidos na Alemanha pelo Pegida, atacados por parte daqueles que defenderam o Brexit na Grã-Bretanha, perseguidos em todos países sob o “guarda-chuva da ameaça do terrorismo” que ajuda o governo Francês a aprovar ataques ao movimento operário debaixo de decretos de “emergência”. Como se não fossem estes países imperialistas o centro do evento, o pódio das medalhas, mas de forma carnavalesca uma inversão. Os perseguidos são heróis. nem que seja por um dia e para vender uma imagem que "outro mundo é possível". A cova do mediterrâneo contrasta com a pirotecnia.

Festa em meio à crise social, econômica e política no Brasil

Voltando ao Brasil, Temer se escondeu no mesmo dia que vieram à tona novas pesquisas que mostram como mesmo que a maioria não quer Dilma de volta, também não o querem governando. Temer sofre crescentes críticas tucanas e da mídia por demorar na implementação dos ataques prometidos como a reforma da Previdência.

No dia de hoje, Dilma declarou que se voltasse a seu cargo, algo altamente improvável, chamaria um plebiscito sobre novas eleições, fato que foi prontamente negado pelo presidente do PT. Esta divisão no PT expressa divisões em formas diferentes de aceitar o golpe institucional. Enquanto isso no Twitter, ela reclamava de não estar na abertura e Temer buscava insistir em discurso da união do país, como mostramos aqui. Tal como em sua posse quando discursava “não fale em crise, trabalhe”, seu discurso de união e paz não parece combinar com o país. Não porque ocorram atos de massa. Mas mesmo sem isso, há amplo descontentamento.

No mesmo dia da abertura das Olimpíadas, alguns milhares tomaram as ruas no Rio de Janeiro protestando contra seu governo golpista. Em São Paulo, manifestação contra as Olimpíadas foi reprimida e houve dezenas de presos.

No mesmo dia ofensiva repressiva se fez sentir em São Paulo em repressão, supostamente ao tráfico, na chamada “Cracolândia”.

A festa da “paz” não esconde os múltiplos elementos de crise política, crise econômica e crise social do país. Alguns milhares vaiaram Temer, alguns milhares foram às ruas, alguns poucos, mas em muitas cidades desenvolveram um novo esporte olímpico, tentar apagar a tocha, enquanto há crescentes sentimento da crise econômica, social e política e estas três crises mostram como estas Olimpíadas não resolverão a crise do país.

Ainda está por se ver quanto que o descontentamento no país olímpico virará atos importantes. Possivelmente isso não ocorra. Mas o descontamento se sente em todos lados. Hoje Temer, vaiado, pode dormir relativamente calmo. Amanhã não se sabe. Nenhum show da Anitta, de Caetano e Gil resolverá a contradição de uma promessa de futuro que já não existe, o Brasil potência, o desenvolvimento calmo e lento dia-a-dia de todos, dos empresários e trabalhadores acabou. O tempo das promessas ficou no passado. A falência das Olimpíadas, sobretudo devido a falta de empolgação com ela é mais um 7 a 1 contra a elite brasileira, mais um “grande projeto” não se desenvolve como o que a elite nacional queria que fosse, um fator para sua hegemonia, agregando elementos na crise orgânica da classe dominante do país.




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