Política

ANÁLISE

Combustíveis e juros: disputas burguesas na distribuição de subsídios aos lucros

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quinta-feira 24 de maio| Edição do dia

O bloqueio de estradas e portos por caminhoneiros toca um tema sentido por dezenas de milhões. Os combustíveis estão caríssimos. Porém esse sentimento está sendo expropriado por patronais que não estão nem aí para a população e nem mesmo para os caminhoneiros. Nenhuma das demandas toca nas condições de trabalho e salário dos caminhoneiros e se concentram somente no Diesel, não estão nem aí para quanto você paga na gasolina ou no gás de cozinha.

Diversas federações patronais e empresas de transporte manifestaram seu apoio ao movimento dos caminhoneiros. Como já afirmamos antes, não será das mãos de patrões, mas dos trabalhadores que poderemos garantir combustível barato. Isso só é possível através da luta por uma Petrobras 100% estatal sob gestão dos trabalhadores petroleiros e com controle popular.

Saiba mais: Não será das mãos de empresários que reduziremos todos combustíveis, e sim com a estatização da Petrobras sob controle operário

Os motivos para a alta dos combustíveis são simples: altos impostos e variação do preço conforme a cotação do dólar e do barril de petróleo. O primeiro motivo responde às necessidades de arrecadação do governo, e de uma economia geral do país para pagar a sempre crescente e criminosa dívida pública. O segundo motivo atende ao programa de privatização da Petrobras, a variação de preços é uma exigência imperialista para entrar no mercado nacional.

Essa "batalha" na conjuntura é somente a ponta de um imenso iceberg: a nascente disputa entre setores capitalistas para mudar a divisão da distribuição dos lucros entre eles.

Para reduzir a incidência do imposto PIS/PASEP no Diesel e baixar seu preço a Câmara votou retornar impostos que estavam zerados em diversos setores. Ou seja trocam o subsídio de um setor patronal para aumentar o de outro! Agora serão subsidiados os lucros dos grandes empresários do transporte, tipo Jacob Barata, e o agronegócio.

O programa levantado pelos bloqueios escancara como apesar da aparência popular da demanda, trata-se principalmente de uma resposta patronal a esse problema. É uma ponta do iceberg de como a burguesia está começando a disputar a parcela de lucros e mais-valia que cabe a seus diferentes setores.

Essa disputa é uma tradução brasileira de importante aspecto da "crise orgânica" em vários países: a divisão entre "ganhadores com a globalização" e "perdedores" com a mesma.

A mudança de condições na economia e política mundial podem estar rapidamente mudando as condições para diferentes patronais no país. É assim que podemos entender a rápida mudança de política de um golpista de mão-cheia como Steinbruck da CSN e vice-presidente da FIESP, que passou de porta-voz da reforma trabalhista a cotado como vice-presidente de Ciro Gomes depois de Trump impor a taxação e cotas ao aço brasileiro.

É assim que se entende como patronais sempre favoráveis ao impeachment e a Temer, como os transportes entrarem em peso para disputar sua fatia de subsídios.

É assim também que pode-se tornar compreensível, como, de repente, a FIESP começou a agitar com seus batráquios verdes pela "redução dos juros". É assim que se entende o pequeno e neodesenvolvimentista Jornal do Brasil que fez um editorial intitulado "estatização dos bancos" para na verdade defender a mais banal e "redução dos juros". É nesta mesma chave interpretativa que pode se tornar mais compreensível o sentido patronal para o conflito que tem os caminhoneiros como aríetes.

A demanda mais forte dos bloqueios de estradas e portos é o de redução dos impostos, não de aumento do preço do frete segundo a inflação do diesel, elevação de salários, direitos dos caminhoneiros, não, só impostos. E só sobre o Diesel.

A dívida é a parte submersa do iceberg que tem para fora da água suas pontinhas "combustíveis" e "juros bancários". Trata-se da nascente disputa entre setores burgueses sobre que fatia de mais-valia cabe a cada um, e todos defendendo o grande subsidio que todos eles se beneficiam: a gigantesca fortuna paga anualmente com a dívida pública.

Nesta disputa por subsídios e lucros, os trabalhadores precisam trazer à tona os grandes problemas e um programa para realmente resolver estes problemas.

Não será das mãos de empresários, de uma burocracia corrupta na Petrobras que atravessa diferentes governos, que teremos combustíveis baratos. Estão todos atuando, de forma nada oculta, para fortalecer a tentativa de privatizar a Petrobras, a política de aumento de preços é o primeiro movimento de favorecer o imperialismo. Com a redução anunciada ontem pela empresa, o "mercado" já a pune nas bolsas de valores. Temer e Parente encontrarão nova fórmula para mesmo assim seguir beneficiando a privatização e recuperar a "confiança dos mercados". Estes jogos de interesses, subsídios não tem nada a ver com o interesse popular de redução de todos combustíveis.

Só a gestão dos petroleiros pode fazer isso. Não será através de troca de subsídios dos industriais para o transporte e para o agronegócio que os trabalhadores se beneficiarão. Disputam uma fatia entre eles e entregam as fortunas do país via privatização e via uma dívida pública que não pode seguir sendo paga. Assim, partindo dos combustíveis e da dívida podemos começar a dar uma resposta de fundo à crise nacional.




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