MUDANÇAS CLIMÁTICAS E PANDEMIA

Combatendo as pragas de gafanhotos e a COVID-19

As aceleradas mudanças climáticas e as restrições da COVID-19 geraram um dos piores enxames de gafanhotos em décadas. Da África Oriental ao Oriente Médio, milhões de pessoas encaram escassez de alimentos e catástrofe econômica.

quinta-feira 30 de abril| Edição do dia

Foto: Ben Curtis

Em meio à pandemia de COVID-19, partes da África, sudeste asiático e Oriente Médio enfrentam outra praga. Um surto perigoso de gafanhotos devastou vários países desde o ano passado, destruindo as plantações e ameaçando milhões de pessoas com o cenário de insegurança alimentar. A onda atual de gafanhotos é a segunda deste ano e os cientistas preveem que não será a última.

Atualmente, a área mais atingida é a África Oriental, onde, em fevereiro, oito países enfrentaram um enxame inicial e agora são atingidos por uma segunda onda de insetos vorazes. É a maior infestação de gafanhotos da região em 70 anos. Essa pestilência surgiu da tempestade perfeita de mudanças climáticas, guerra, austeridade e imperialismo.

O inseto por trás desse flagelo é o Schistocerca gregaria, ou gafanhoto do deserto. Gafanhotos do deserto são uma espécie de gafanhoto encontrada no Norte da África, no Oriente Médio e no subcontinente indiano. Devido aos relatos na Bíblia, no Alcorão e nos hieróglifos do Egito Antigo, eles são a espécie de gafanhoto mais famosa, embora várias espécies sejam distribuídas em todo o mundo, como o gafanhoto australiano, o gafanhoto migratório, o gafanhoto sul-americano e o gafanhoto das planícies altas. Assim como outros gafanhotos, os Schistocerca gregaria costumam ser solitários, mas sob condições favoráveis, eles se tornam gregários. Em sua fase gregária, eles se unem em grandes e devastadores enxames — que atormentam a humanidade há milhares de anos.

Normalmente, o enxame ocorre quando há abundância de alimentos devido às condições úmidas, resultando no boom populacional. As condições perfeitas para um surto de gafanhotos surgiram em 2018 quando o ciclone Mekunu atingiu uma área da península arábica chamada Quarteirão Vazio ou Rub’ al Khali, um deserto de areia que inclui porções de Omã, Iêmen, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Geralmente, essa área de deserto secaria, controlando a população de gafanhotos. No entanto, de acordo com um artigo de fevereiro na National Public Radio, o Quarteirão Vazio foi atingido por um segundo ciclone no final de 2018 e outro em dezembro de 2019. O telejornal PBS NewsHour observou que houve um total de oito ciclones em 2019, um enorme desvio da ocorrência anual de um ou zero.

Antes de um ano de inundações e fortes chuvas, houve três anos de seca. O portal Space.com informou que, além das condições estranhamente úmidas no Quarteirão Vazio, o Chifre da África recebeu quatro vezes mais chuvas do que o normal, entre outubro e dezembro, na estação chuvosa curta mais úmida em 40 anos. Essas condições também promoveram a procriação de gafanhotos, uma vez que os insetos se mudaram para a região.

O raro bombardeio de ciclones causado por crises climáticas em uma área normalmente árida, aumentou a vegetação e resultou em uma explosão da população de gafanhotos. O jornal britânico The Guardian informou que apenas o segundo ciclone resultou em um aumento de 8000 vezes na população desses insetos. Gafanhotos se reproduzem em velocidade incontrolável, uma vez que uma única fêmea pode pôr 300 ovos, que eclodem em menos de duas semanas e levam apenas mais outras duas semanas para que as larvas se tornem maduras e comecem a reproduzir. Uma vez maduros, gafanhotos podem viajar mais de 140 quilômetros por dia. Sua população cresce exponencialmente, aumentando 400 vezes a cada seis meses.

Os gafanhotos se espalharam vindos do Iêmen, atingindo o Quênia, a Somália e a Etiópia mais fortemente. A National Public Radio informou que os gafanhotos atravessaram o Golfo de Áden ano passado, chegando primeiro na Somália e na Etiópia. Depois, foram vistos no Quênia em dezembro de 2019, alguns formando um enxame de mais de 192 bilhões de insetos, numa massa correspondente a três vezes o tamanho da cidade de Nova York. As Nações Unidas alertaram que um enxame do tamanho de um quilômetro quadrado pode comer tanto quanto 35 mil pessoas em um dia.

Catástrofe econômica e social

O jornal The Guardian alertou que o leste da África está sendo o mais atingido, embora devido às mudanças climáticas e à guerra, o Iêmen também tenha sido atingido com força. De acordo com o PBS News Hour, a última onda de insetos é 20 vezes maior do que o enxame de fevereiro, devido às fortes chuvas de março. Atualmente, é a estação de plantio no leste da África, e outra onda de gafanhotos deve ocorrer em junho, que é a época da colheita. 33 milhões de pessoas da região já sofrem insegurança alimentar.

Os impactos da infestação já são catastróficos. A Al Jazeera informou que meio milhão de acres de terra agrícola na Etiópia foram devastados e 8,5 milhões de etíopes sofrem de insegurança alimentar aguda. No início de abril, mais de 74.000 acres de colheitas foram destruídos, incluindo café e chá, que representam 30% das exportações da Etiópia. Em uma matéria do Los Angeles Times, a Somália já havia perdido 100% das culturas básicas, como milho e sorgo, até janeiro. No Quênia, 30% das pastagens foram perdidas e, em meados de março, a praga destruiu 2 mil toneladas de alimento na região. Mais de 173.000 acres de terras cultiváveis no Quênia foram dizimados, incluindo milho, feijão e feijão-caupi. A agricultura é responsável por 25% da economia do Quênia.

Etiópia, Somália, Quênia, Djibuti, Eritreia, Tanzânia, Sudão, Sudão do Sul e Uganda estão entre os países africanos atualmente sob ataque de enxames de gafanhotos. No final de março, enxames estavam se formando em outras partes do Paquistão, Índia, Arábia Saudita e Irã. Cerca de 140.000 acres de plantações foram destruídos no Paquistão. Calcula-se que os enxames afetarão fortemente a indústria de algodão paquistanesa, uma vez que a indústria têxtil é a maior do país, gerando empregos e responsável por 60% das exportações. É o pior surto de gafanhotos no Paquistão, desde 1993.

Os esforços para impedir a disseminação de gafanhotos foram prejudicados pela COVID-19 e pelas questões sociais que esses países já enfrentam. Os gafanhotos são normalmente controlados com agrotóxicos, que são aplicados por aviões que miram gafanhotos adultos via pulverização aérea ou por equipes de terra que visam ovos e gafanhotos jovens que ainda não podem voar. Mas fronteiras fechadas e uma desaceleração global do transporte também atrasou o transporte de agrotóxicos. A Reuters informou que na Somália, um pedido de agrotóxicos esperado para o final de março foi adiado.

A vigilância de enxames de gafanhotos é realizada por helicópteros, mas os bloqueios dificultam essa tarefa. No Quênia, os pilotos de helicóptero da África do Sul tiveram que ficar em quarentena por 14 dias antes de começar a trabalhar. Do ponto de vista econômico, 60% do PIB do Quênia foi usado para pagar a dívida antes da chegada da COVID-19 e dos gafanhotos. O impacto econômico das duas pragas faz dessa dívida ainda mais punitiva do que era antes. Desde 2017, dezenove países africanos gastam mais de 60% de seu PIB em dívidas.

Somalilândia, uma república autodeclarada na Somália, não tem recursos para combater gafanhotos. Keith Cressman, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), disse que o Sudão do Sul e Uganda também carecem de programas para os surtos. No Sudão do Sul, 200 mil pessoas vivem em acampamentos da ONU, já em condições precárias e sob risco de insegurança alimentar e da COVID-19. Cressman observou que o distanciamento social dificulta o treinamento de novas pessoas para enfrentar o problema, uma vez que isso envolve reunir pessoas em salas de aula.

Apesar dos bloqueios e toques de recolher, os trabalhadores que enfrentam o surto de gafanhotos receberam isenções para viagens. Até agora, quase 600 mil acres de terra foram tratados com agrotóxicos e 740 pessoas foram treinadas para fazer o controle de gafanhotos no solo. A FAO obteve 111,1 milhões de dólares dos 153,2 milhões que solicitou para combater os enxames. Como a maior parte do mundo está focada em lutar contra a COVID-19, tem sido difícil obter ajuda adicional para combater os gafanhotos.

Perigos no uso de agrotóxicos

Agrotóxicos são uma solução imperfeita para o problema. Quando os agrotóxicos são aplicados, vilas precisam ser avisadas para retirar o gado dos locais. Segundo o Daily Nation, uma fonte de notícias do Quênia, um dos agrotóxicos que a FAO recomenda é o Diazinon, que foi proibido nos EUA em 2004. Esse agrotóxico funciona afetando o sistema nervoso dos insetos. No entanto, humanos expostos a ele podem ter sintomas como olhos lacrimejantes, dor de estômago, vômito, tosse e coriza. Exposições longas podem causar convulsões, taquicardia e coma. A Rede de Ação contra Pesticidas (“Panna”, na sigla em inglês) alertou que pode ser prejudicial às crianças e pode causar malformações congênitas.

Uma fonte de notícias paquistanesa elegeu lambda cialotrina, clorpirifós e bifentrina como pesticidas contra os gafanhotos e citou preocupações de que os produtos químicos poderiam impactar a água potável, causar problemas respiratórios e irritações na pele. Equipes que atuam no solo, responsáveis por pulverizar o agrotóxico, podem estar sob esse risco. Em face do surto da COVID-19 e do fornecimento forçado de EPI, os trabalhadores que enfrentam os gafanhotos podem não ter a proteção necessária.

De acordo com a revista Science, a FAO também usou biopesticidas na forma de fungos na Somália. Um artigo do The Herald, uma fonte do Zimbabwe, se preocupou sobre as duas opções: agrotóxicos e biopesticidas, que dependem principalmente de esporos de Metarhizium sp. Os esporos podem não ser efetivos porque funcionam melhor em temperaturas moderadas e alta humidade, condições que não são comuns nas áreas mais impactadas pelos gafanhotos. Os esporos levam 14 dias para ter efeito e são usados principalmente contra gafanhotos jovens. Enquanto não se sabe se essa é a prática atual, o programa de pesquisa francês LUBILOSA, que desenvolveu o fungo, sugeriu que os esporos deviam ser dissolvidos em parafina ou diesel, ambos cancerígenos.

Agrotóxicos e biopesticidas também correm o risco de prejudicar outros insetos. O óleo de linhaça e o nim (árvore indiana com propriedades inseticidas) podem ter algum potencial como inseticidas naturais mais seguros. Da mesma forma, o Locust Lab da Universidade Estadual do Arizona descobriu que os gafanhotos preferem alimentação rica em carboidrato e culturas com menos carboidratos podem impedir os gafanhotos. Por exemplo, gafanhotos não se importam com milho. Diante do ataque cataclísmico e imediato de gafanhotos e o risco de fome, a pesquisa sobre alternativas menos prejudiciais é algo para exploração futura.

Socialistas pedem medidas de prevenção a longo prazo

Uma solução socialista para combater surtos de gafanhotos deveria começar com prevenção. Condições incomumente úmidas e a frequência bizarra de ciclones no último ano foram um catalisador para a crise atual. Para parar a crise climática, o capitalismo tem que acabar. Qualquer coisa menos que isso vai apenas resultar em desastres naturais mais frequentes e severos e padrões climáticos cada vez menos previsíveis. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas prevê que a África vai viver um aumento de 20% na ocorrência de ciclones, juntamente com a diminuição de 20% na precipitação. Essas condições aumentam a probabilidade de futuros enxames de gafanhotos.

Prevê-se que a ocorrência de secas, deslizamentos de terra, inundações e doenças infecciosas aumentem com as mudanças climáticas. A agricultura dependente de recursos hídricos pode cair 50% em alguns países, e a produção de trigo poderia desaparecer em 2080. As mudanças climáticas só tornarão o continente africano mais inseguro em termos de alimentação, o que irá custar inúmeras vidas.

Outra preocupação dos socialistas deveria ser se organizar contra as guerras imperialistas. Os gafanhotos se espalharam do Iêmen, que poderia ter tido um papel crucial em interromper a migração dos enxames para a África. Mas o Iêmen não estava em posição de enfrentar esse problema porque está sitiado por uma guerra brutal, que dura mais de cinco anos, entre a coalizão liderada pela Arábia Saudita – e apoiada pelos EUA – e os combatentes Houthis. O país também sofreu surtos de cólera, difteria, sarampo, dengue e, agora, COVID-19. De acordo com a Human Rights Watch, foram 2 milhões de casos de cólera desde 2016.

No último outono, quando a população de gafanhotos explodiu, 10 milhões de pessoas no Iêmen precisaram de ajuda alimentar e já estavam sob risco de morrer de fome. Quando os enxames apareceram, a população do Iêmen começou a coletá-los em sacos e vende-los e comê-los. Gafanhotos são comidos por pessoas fora das condições de fome, mas depois de experimentar a pior fome do mundo em 100 anos, eles foram uma recompensa bem-vinda para alguns.

A guerra custou pelo menos 90.000 mortes e os EUA são cúmplices da destruição. O governo norte americano forneceu armas e apoio logístico à Arábia Saudita e seus aliados, que realizaram mais de 20 mil ataques aéreos, dos quais ⅓ foram contra alvos militares. Hospitais, portos, mesquitas e escolas estão entre os alvos civis. Antes da guerra, o Ministro da Agricultura, normalmente, era capaz de controlar os surtos de gafanhotos. Atualmente, o controle dos gafanhotos é dividido entre o governo e as forças Houthi, porém ambos carecem de recursos para lidar adequadamente com o problema.

As infestações por gafanhotos devem ser capturadas precocemente e, talvez, com melhor infraestrutura ou sem a infinidade de outros problemas sociais enfrentados no Iêmen, isso poderia ter sido tratado com mais eficácia. Vários dos países que agora enfrentam a desolação de gafanhotos foram igualmente desestabilizados por guerras. Isso dificulta sua habilidade de organizar uma resposta.

Todos os países impactados foram sobrecarregados com dívidas e atrofiados por sua dependência econômica em relação às nações mais ricas. A praga atinge particularmente as economias dessas nações por causa de sua alta dívida e dependência de exportações agrícolas como café, chá e algodão. A razão pela qual esses países carecem de infraestrutura médica para combater a COVID-19 e meios para combater enxames de gafanhotos é um resultado direto da colonização e das economias de exportação subsequentes, austeridade e dívida que mantém sua dependência colonial. A África será sempre um continente de crises, enquanto grandes lucros puderem ser extraídos de lá.

Nesse momento, toda a dívida internacional deveria ser perdoada e uma ajuda deveria ser concedida incondicionalmente para evitar a ameaça de fome. Mas o desenvolvimento de países empobrecidos não pode acontecer dentro da estrutura capitalista. A riqueza que foi tirada da África deveria ser reinvestida com o compromisso de construir infraestrutura e capital com base em relações de solidariedade acima de qualquer relação de dependência.

Gafanhotos são frequentemente imaginados como um ato de Deus, mas eles existem numa realidade material, como todo o resto. A realidade é que as condições climáticas do planeta estão cada vez mais instáveis. Inundações de cem anos, tempestades de cem anos e, até mesmo, cem anos de eclosões de gafanhotos estão se tornando assustadoramente normais. A capacidade de mobilizar recursos para aliviar a fome e lutar contra essas pragas é obstruída pela guerra, dependência econômica e uma pandemia global que demanda os já baixos recursos disponíveis.

Em um mais brilhante futuro socialista, esse inseto que atormenta os humanos há milhares de anos poderia ser novamente minimizado a um gafanhoto solitário, controlado por práticas agrícolas sustentáveis e diversas, detecção precoce e condições climáticas estáveis. No caso de um enxame, a comida seria abundante o suficiente para ser compartilhada, ao invés de ser deixada para apodrecer na falsa abundância anarquista do capitalismo.

Tradução: Fanm Nwa

Esse artigo foi republicado da página Socialist Resurgence. É um artigo de Tribuna Aberta. Tais artigos não necessariamente refletem as visões da equipe de edição do Esquerda Diário. Se você também gostaria de enviar uma contribuição, por favor, entre em contato.




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