Mundo Operário

GREVE DAS ESTADUAIS PAULISTAS

Comando de greve dos trabalhadores da USP: um exemplo a ser seguido

As greves dos trabalhadores da USP trazem muitas tradições de luta do movimento operário. Uma das mais importantes é a forma como dirigem a greve, a partir de seu comando de greve. Queremos aqui apresentar um pouco de sua importância e seu funcionamento, um exemplo para todos os que lutam.

Fernando Pardal

@fepardal

sábado 21 de maio de 2016| Edição do dia

A democracia operária tem uma história tão antiga e importante quanto as próprias greves e lutas dos trabalhadores. A burguesia faz de tudo para que os trabalhadores esqueçam sua própria história e as tradições legadas pelas lutas do passado, e nós, na contramão, devemos lutar para nos apropriarmos das ferramentas que a classe trabalhadora criou, e que podem nos permitir vencer as batalhas contra governos e patrões.

Sindicatos, burocracia e democracia

Na luta dos trabalhadores, os sindicatos sempre foram ferramentas fundamentais de organização, e continuam sendo ainda hoje. Contudo, um dos maiores problemas que os trabalhadores enfrentam é a chamada burocracia sindical, que são os trabalhadores que chegam às direções dos sindicatos e começam a viver uma vida de privilégios, bem distante da de qualquer trabalhador comum, e por isso fazem de tudo para se manter por lá. Inclusive se aliar aos patrões e governos contra os trabalhadores que deveriam representar. Por isso, são verdadeiros agentes da burguesia dentro do movimento operário.

No Brasil, a burocracia sindical é muito forte, e na década de 1930 a ditadura de Vargas ajudou a consolidar isso com as leis da CLT, que ajudaram a transformar as ferramentas de luta dos trabalhadores em ninhos de burocratas. Uma das principais formas de fazer isso foi com o imposto sindical obrigatório, que é recolhido compulsoriamente dos trabalhadores e paga os salários imensos e os privilégios dos burocratas. Aquilo que era um dinheiro que os trabalhadores contribuíam para sua própria ferramenta de luta, virou algo que é estranho a ele, um imposto obrigatório. Por isso, por exemplo, é que o Sindicato dos Trabalhadores da USP não recolhe esse imposto obrigatório, recebendo apenas as contribuições daqueles que entendem a importância política do sindicato e voluntariamente contribuem.

Outra tradição democrática fundamental no Sintusp é o Conselho de Diretores de Base (CDB): são eleitos em cada unidade representantes de base que se reúnem todo mês no sindicato, durante um dia inteiro, para debater questões sindicais e também políticas, levando esses debates para sua base. O conselho, por ser mais amplo, representativo e ligado à base, está acima da diretoria do sindicato. E acima deste está a assembleia, onde todos os trabalhadores podem falar e expressar suas opiniões, votar e deliberar as posições da categoria.

O Comando de Greve expressa a democracia dos trabalhadores em greve

Quando os trabalhadores da USP votam greve, eles já sabem: pela tradição que está presente na categoria, é eleito o Comando de Greve e os diretores do sindicato passam a fazer parte desse a partir de se elegerem como delegados nos seus locais de trabalho. É este organismo que irá representar cada diferente unidade (os distintos locais de trabalho da universidade, como os bandejões, prefeitura do campus, unidades de ensino, museus, prédios administrativos etc.).

Quando as unidades votam sua greve, elegem em suas reuniões seus delegados que irão compor o Comando de Greve. Eles são aqueles que irão levar as discussões, deliberações e opiniões das unidades para o Comando, o organismo dirigente da greve que irá pensar em detalhes cada passo fundamental da luta. Mas não lhes cabe apenas levar as decisões das unidades: lá no comando as discussões serão feitas, aprofundadas, debatidas e votadas. O papel de cada delegado é levar também essas decisões de volta para as unidades, e dizer como foram deliberadas as questões. Se a reunião de unidade achar que o delegado não está votando de acordo com a opinião política dos trabalhadores ali, ou achar que não está cumprindo bem seu papel, então os delegados podem ser revogados e trocados por outros.

O Comando cumpre muitos papéis importantes: o primeiro é o de tornar a direção da greve muito mais democrática, pois agrega muito mais trabalhadores do que a diretoria e com base em discussões cotidianas feitas nas unidades, tendo uma grande sensibilidade à vontade política das bases já que os delegados podem sempre ser trocados.

Os trabalhadores como sujeitos políticos de suas próprias batalhas de classe

Mas, para além da questão democrática, ele possui um papel fundamental de formação de novos dirigentes e uma nova vanguarda que possa se colocar junto aos velhos combatentes da categoria. Em cada nova greve, vemos despontar nos comandos de greve novos ativistas. Podemos aqui fazer uma comparação lembrando das históricas greves do ABC, em que Lula dirigia assembleias multitudinárias na Vila Euclides, colocando as propostas no microfone e onde os trabalhadores simplesmente levantavam os braços; ou, para pegar um exemplo atual, as greves dos professores da rede estadual de São Paulo, em que o caminhão de som emite as propostas da direção do sindicato e os trabalhadores não tem voz. Na USP, é totalmente diferente: não apenas as assembleias são democráticas com o microfone aberto, mas no comando de greve se debate em pormenores a estratégia e como serão levadas à frente a política deliberada em assembleia.

Vejamos exemplos: em 2009, os trabalhadores estavam numa greve muito dura pela reintegração de Brandão, diretor do sindicato demitido por lutar. Os trabalhadores deliberaram por uma atividade que pudesse ao mesmo tempo divulgar a greve, angariar apoio democrático e arrecadar dinheiro para o fundo de greve poder bancar os custos da luta. Coube ao Comando de Greve pensar em detalhes a organização dessa atividade, que acabou sendo um grande show no velódromo da USP, com show de Tom Zé, B Negão, grupos de amigos e familiares dos grevistas, grupos de dança e de rap da São Remo (comunidade vizinha à USP onde moram muitos trabalhadores). Foi um grande sucesso, e só conseguiu ser organizado pela atuação decidida do Comando de Greve, cuja audácia e capacidade organizativa estavam muito além daquela da diretoria do sindicato.

O aprendizado político da greve é oposto aos privilégios de burocratas

No Comando de Greve a experiência de trabalhadores que protagonizaram dezenas de greves em defesa da educação se funde com a energia e disposição das novas gerações, que trazem novas ideias e novo vigor, e uma capacidade de aprender com a experiência dos mais velhos. Se a cada greve os trabalhadores saem com uma cabeça totalmente diferente do que entraram, pois ali se coloca na prática a questão de quem comanda a produção, com o Comando de Greve essa experiência se potencializa enormemente, pois os trabalhadores são muito mais sujeitos políticos de suas decisões. Algo totalmente diferente, por exemplo, do burocratizado Sindicato dos Bancários de São Paulo, que ao decidir a greve contrata pessoas de fora da categoria para fechar os bancos e colar adesivos de greve. Querem que os trabalhadores vão para casa e esperem a negociação a portas fechadas com os patrões, que já está toda decidida de antemão. É uma greve rotineira e burocrática, onde eles “mostram o serviço” do sindicato pros trabalhadores, e mantém eles domesticados para o patrão. Não querem que os trabalhadores sejam sujeitos da greve porque aí eles poderiam passar de questionar o patrão para questionar também a direção burocrática do sindicato, e colocar em risco os privilégios dos burocratas...

Um comando unificado para levar a greve das estaduais paulistas à vitória

Contudo, a experiência dos trabalhadores da USP não pode ficar apenas nessa categoria. Ela precisa se expandir. Nós do MRT junto aos independentes que constroem conosco a Juventude Faísca, lutamos há muitos anos para que esse avanço político se expresse em outros setores. Depois de muitos anos de debates no movimento estudantil da USP, na greve de 2011 finalmente foi aprovado ali um Comando de Greve com delegados eleitos. Antes, o que ocorria era um comando aberto e por consenso, que na prática não conseguia deliberar nem levar adiante as deliberações de assembleia, e a gestão do DCE na prática dirigia de forma burocrática a greve, frequentemente nem levando adiante o que foi aprovado em assembleia.

Hoje, o Comando de Greve dos estudantes continua a ser limitado pelo boicote que sofre das direções do movimento, principalmente o PSOL. Supostamente em nome da democracia, defendem que o comando seja “executivo”, ou seja, que não pode ter discussões e deliberações políticas, mas apenas “organizar” o que a assembleia votou, limitando totalmente seu papel de direção. As assembleias com centenas ou milhares de estudantes, como todos que participaram delas sabem, são espaços pouco democráticos onde as discussões não podem se aprofundar da mesma forma que nas assembleias de curso ou nas reuniões de comando. O que o DCE quer é que a sua gestão, onde apenas se expressam suas opiniões políticas, continue dirigindo a greve burocraticamente. Prova disso é que, diferente do Sintusp, eles não dissolvem a direção da entidade no comando de greve, e levam à cabo decisões contrárias às da assembleia e comando.

Além disso, estadualmente, quem permanece dirigindo a greve é o burocrático e engessado “Fórum das Seis”, que reúne os DCEs e Sindicatos de docentes e funcionários da USP, Unesp e Unicamp. Ali, mais uma vez, o engodo do “consenso” é usado para fazer com que prevaleçam as posições mais atrasadas: “vamos fazer um ato?” Todos estão de acordo, menos uma das entidades. Então, não há consenso, o ato não é feito. Essa forma de dirigir o conflito é totalmente engessada, burocrática, distante das bases, e tem recorrentemente impedido que as greves avancem em suas pautas, suas formas organizativas e métodos de luta, sua unificação com outros setores, como os secundaristas em luta em diversos estados, e possam assim triunfar. Queremos aqui deixar a experiência do Comando de Greve dos trabalhadores da USP para chamar todos aqueles que estão convencidos da necessidade de vencer a se somarem com o MRT à Faísca e ao Movimento Nossa Classe na luta por comandos de greve para avançar na luta, como temos defendido em cada universidade e categoria.




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