Gênero e sexualidade

MACHISMO

Com retrocessos na área do trabalho, desigualdade de gênero acabará em 2276. Esperaremos?

Segundo o Fórum Econômico Mundial serão necessários mais 257 anos para acabar com a desigualdade de gênero no mundo.

Maria Eliza

Estudante de Biologia da UFMG

quarta-feira 18 de dezembro de 2019| Edição do dia

Considerando avanços e retrocessos no quesito igualdade de gênero, o último relatório anual sobre igualdade no mundo do Fórum Econômico Mundial calcula que a igualdade de gênero só será atingida no ano de 2276. Isso porque em todas as áreas analisadas houveram avanços, exceto na área trabalhista, onde a desigualdade salarial é uma realidade, muitas vezes, estrondosa como é no Brasil entre mulheres negras e homens brancos. O resultado da pesquisa é que em 2019 o mundo se tornou mais desigual entre homens e mulheres no trabalho, sendo as mulheres as vítimas.

Foram analisados 157 países e as áreas de saúde, educação, política e trabalho. Em relação ao ano passado a média global diminuiu: de 108 para 99,5 anos para alcançar a igualdade. Mas, para a além da média, o resultado absoluto, de 257 anos, reflete uma realidade que levanta uma reflexão.

A realidade

Sem uma dedicação neste artigo em analisar os métodos da pesquisa apresentada no relatório do Fórum (qual a proporção de países ditos de primeiro e qual a proporção de países ditos de terceiro mundo; qual a proporção de pessoas, no total, que vivem nas condições oferecidas por esses países, etc) não é difícil perceber uma realidade: o sistema capitalista é incapaz de eliminar as opressões e, o máximo que consegue, é combinar avanços em algumas áreas com retrocessos em outras. As mulheres são, mundialmente, mais da metade dos miseráveis e analfabetos, ao mesmo tempo que, pela primeira vez em alguns países conquistam o direito de votar, serem votadas, e terem direito ao próprio corpo.

Não atoa, como consta no relatório, os países mais igualitários para as mulheres hoje são as principais economias, os que menos estão submetidos à crise econômica mundial que dura mais de 11 anos. São países que exportam capitais para países subjugados, com traços coloniais, onde as riquezas naturais são espoliadas e a classe trabalhadora é obrigada a ser mão de obra barata em empresas estrangeiras.

O relatório aponta que nas áreas de educação e saúde a paridade já está perto de ser alcançada e que os avanços podem ter se dado pelo aumento do número de mulheres na política, mas existem acentuadas diferenças regionais. Esses avanços devem ser comemorados e reconhecidos como fruto da imparável luta de um movimento de mulheres que foi praticamente o único a não se calar durante os anos de “sucesso” do neoliberalismo, antes de explodir e se agravar a crise que vivemos hoje. Mesmo assim, seria necessário analisar as diferenças entre países: enquanto algumas cidades elegem prefeitas LGBTs, mulheres são apedrejadas por banalidades e vereadoras negras de esquerda são alvejadas com quatro tiros apenas na cabeça.

Mas não se pode separar qualquer área analisada da área que, para os marxistas, é mais estrutural no sistema capitalista: o trabalho. A realidade é que este sistema é incapaz de acabar com a opressão de gênero (portanto nele é impossível alcançar a igualdade total entre homens e mulheres) porque o machismo é lucrativo para os grandes empresários. Embora o patriarcado seja anterior ao capitalismo, eles se combinaram de tal forma que, para citar alguns exemplos, o trabalho doméstico, que garante que algumas funções sociais sejam garantidas sem que quem as garantem receba algo por isso, seja feito por mulheres e justificado segundo uma ideologia machista; os salários de toda a classe trabalhadora “mereçam” ser mais baixos porque ela está repleta de mulheres, que segundo essa mesma ideologia merecem receber menos; a maioria dos trabalhadores terceirizados – um trabalho que só não é mais precário do que a escravidão – sejam não apenas mulheres, mas negras e negros.

Portanto, não é um detalhe que, justamente na área do trabalho, exista um retrocesso mundial, e apesar de ser revoltante, não impressiona. Diante de uma crise como esta, que desencadeia respostas radicais tanto à direita (como a vitória de Trump, Bolsonaro, e outras figuras asquerosas) quanto à esquerda (como a valente luta da juventude e dos trabalhadores no Chile, França, Equador, Haiti, dentre outros), os “donos do tabuleiro mundial” precisam aumentar a escalada de ataques aos trabalhadores e trabalhadoras para garantir sua própria existência enquanto classe dominante. Como não poderia deixar de ser diferente, as mulheres trabalhadoras são as primeiras a serem atingidas.

A reflexão

A projeção feita pelo Fórum não é absoluta. Por mais que tenha havido um avanço na média geral global, qualquer retrocesso levanta um alerta: nada garante que retrocessos maiores podem vir, inclusive na saúde, educação e política. Se com as reformas trabalhista de Temer e da previdência de Bolsonaro, ambas encomendadas por Trump, outros líderes imperialistas e por grandes empresários brasileiros e estrangeiros, as mulheres brasileiras terão que trabalhar até morrer e morrer de trabalhar, com menores salários e piores condições de trabalho, como elas e suas filhas poderão ter uma boa saúde? Como poderão se dedicar aos estudos? Com que tempo se dedicarão à política? Talvez não sejam “só” mais 257 anos.

Para os marxistas as condições materiais de vida determinam a consciência das pessoas, que atualmente, muitas vezes é machista, racista, LGBTfóbica, xenófoba. O relatório do Fórum trata de condições materiais: o salário mais baixo que as mulheres recebem, o acesso à saúde gratuitamente, o nível de escolaridade, a quantidade de mulheres em “cargos da política”. Ou seja: só será possível completar o avanço na consciência de milhões e milhões de pessoas, intoxicados desde a infância por ideias que só servem para justificar as condições materiais em que vivem, depois que estas condições forem tais que nenhuma mulher tenha necessidade de se subjugar a um homem, à família ou ao patrão para poderse sustentar. Por isso, não acabaremos com a desigualdade social esperando por 257 anos um incerto avanço gradual e linear dos quesitos avaliados pelo Fórum, acabaremos quando enterrarmos esse sistema de miséria e planificarmos a economia, possibilitando que a cultura, os costumes, a ideologia, a subjetividade, se libertem totalmente das amarras do capital.

Tampouco existe um calendário que determina que apenas em 2276 será possível varrer o capitalismo da face da Terra. A faca e o queijo estão na mão: as mulheres nunca deixaram de lutar e hoje são metade dos trabalhadores no Brasil. Metade dos que produzem, transportam e fazem tudo funcionar. A outra metade pode e deve ser sujeito dessa transformação, se aliando às trabalhadoras e às mulheres que, mesmo que não cumpram o mesmo papel social na produção hoje, são vítimas do machismo e do capitalismo e, no calor de grandes lutas como as que vivem hoje o Chile, com mulheres e meninas desafiando as amarras de um regime tão repressivo como o herdado da ditadura de Pinochet, podem convencer os homens de batalhar contra o machismo que aprenderam a disseminar e lutar pela libertação de todos e todas. Assim, muito provavelmente, em 257 anos as preocupações da humanidade serão muito mais interessantes.




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