Política

POLITIZAÇÃO DAS FORÇAS ARMADAS

Com discurso da era da “Guerra Fria”, general Villas Boas ressuscita discurso anti-comunista

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 28 de novembro| Edição do dia

General Villas Boas, o anticomunista

O anticomunismo foi a ideologia mais forte dos generais que desfecharam o golpe cívico-militar de 1964. Bolsonaro veio com o antipetismo doentio, mas os generais golpistas de 64, à semelhança de Bolsonaro precisaram, no seu tempo, no marco da Guerra Fria [“comunismo” versus capitalismo], do seu mito de época, de que o comunismo do PCB ameaçava o Brasil.

Não havia ameaça ontem como não há ameaça hoje: o PCB, de ontem, quando tinha base operária, como o PT hoje, idem, praticam a mais decidida política de conciliação de classe.

Mas eis que o general Villas Boas volta com o surradíssimo mito do comunismo.
Em seu novo pronunciamento de Twitter, ontem, ele disparou:

"Determinei ao Exército que rememore a Intentona Comunista ocorrida há 83 anos", afirmou, em postagem no Twitter.

"Antecedentes, fatos e consequências serão apreciados para que não tenhamos, nunca mais, irmãos contra irmãos vertendo sangue verde e amarelo em nome de uma ideologia diversionista".

Evidentemente alguém poderia imaginar que o general está delirando. Nem remotamente – nem como imagem de ficção – existe qualquer ameaça de uma revolução proletária na pauta do povo brasileiro hoje, nesta semana, neste momento.

Mas ele retoma a narrativa ideológica na qual se fundamentam os setores mais reacionários, defensores de torturas, do atual regime bolsonarista.
Por que então revisitar o tema da “Intentona de 1935”¹? E por que fazê-lo a poucas semanas da posse de Bolsonaro-Mourão?

Primeiro como profissão de fé: a cúpula militar brasileira é, toda ela, formada na escola ideológica do imperialismo norte-americano, cuja missão é conter qualquer revolta das massas em defesa dos seus direitos. São formados para defender a propriedade privada, os barões do país e o capital estrangeiro a pretexto de “defesa da pátria, da democracia e da família”. São as forças armadas de repressão da classe dominante contra a classe trabalhadora. E, evidentemente, transpiram seu ódio contra qualquer partido, mesmo que seja burguês, mas que tenha base operária. Seu inimigo não era o PC, não é o PT, mas a base operária que esses partidos de conciliação de classe controlam, ontem o PC, hoje, o PT.

E esses generais, que tutelam Bolsonaro, sabem que convulsões sociais são perfeitamente possíveis no Brasil – e em 2013 tiveram uma bem pálida amostra disso.

E no momento em que esse governo, apoiado no partido do judiciário, nas Forças Armadas, na grande mídia, se lança a executar os maiores ataques econômicos contra a classe trabalhadora e sua família, a descarregar a crise da burguesia impiedosamente sobre os mais pobres, evidentemente seus altos estrategistas sabem que tudo pode acontecer. E isso, por mais que a política do PT seja fundamentalmente eleitoreira, de conciliação com o regime.

Quando deputado, em 1995, Bolsonaro já declarou que o comunismo continua, hoje, através do MST [movimento dos trabalhadores sem terra]. Ali ele qualificou o MST de “satanismo marxista-leninista” e comunista. E certamente será o “comunismo” que estará de volta – no discurso dessa gente - quando setores de massas se levantarem contra a política econômica de Bolsonaro.

Não são delirantes. Fazem a propaganda, a mesma do Bolsonaro, para tentar manter as forças operárias e populares sob o cerco do discurso fascistizante, golpista; a “ameaça comunista” é funcional para isso, em especial porque o governo Bolsonaro entra no palácio do Planalto pela ação de um golpe institucional, que começou com Temer e foi consumado com a eleição fraudada, como temos explicado no Esquerda Diário.

E Bolsonaro somente controla um núcleo muito minoritário da população brasileira, sendo que boa parte dos que nele votaram não possuem a menor consciência dos ataques que ele fará, começando por obrigar o povo a trabalhar até morrer, cassando seu elementar direito de aposentadoria.

E, por último, considerando que o general Villas Boas não está fora do seu juízo [quando ressuscita ameaças comunistas] a advertência dele tem outro sentido: disciplinar o governo para seguir seu roteiro econômico e de submetimento do Brasil aos Estados Unidos até o fim ou, caso contrário, diante de qualquer “diversionismo”, sempre teremos o recurso do golpe militar. Naquele caso, contra o “diversionismo”, desfecharam o golpe militar de 1937, que instalou o Estado Novo, violentíssima ditadura militar contra o povo brasileiro para manter o Brasil no marco da vassalagem internacional e ao proletariado sob cerco, prisões, cooptação e torturas.

Notas:
[1] A quartelada de Prestes em 1935 [“intentona”], mais um dos desastrados erros do stalinismo, levada a efeito em resposta à ilegalização da Aliança Nacional Libertadora [movimento político civil hegemonizado pelo PCB], foi o grande pretexto usado por Vargas para decretar o Estado Novo, uma ditadura sinistra e que reprimiu maciçamente ao movimento operário. Em 1964, o PCB estaria aliado da burguesia janguista e dessa política de conciliação de classes jamais desembarcaria.




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