Sociedade

DESEMPREGO

Com desemprego aumentando, pesquisa mostra que dinheiro “traz felicidade”

Seria o dinheiro o fator da satisfação ou a possibilidade de poder ter uma vida plena em que se tem o necessário?

terça-feira 5 de setembro| Edição do dia

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioecônomicos (DIEESE) é um departamento que em sua apresentação se propõe a desenvolver pesquisas que subsidiem a demanda dos trabalhadores. Segundo ele, o salário mínimo deveria ser de R$ 3.899.66, sendo que o salário mínimo atualmente de R$ 937,00. Pensemos que para viver dignamente uma pessoa precisa morar, vestir, estudar, comer, etc.

A pesquisa ouviu diversas camadas da sociedade. Uma das pessoas ouvidas foi o vendedor ambulante de picolés no Rio de Janeiro, Jorge Luís de 61 anos. Segundo ele, vendendo seus picolés ganha o suficiente para suas necessidades primárias, mas precisa da ajuda dos seus parentes para sustentar sua casa em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.

Anteriormente, Jorge ganhava o equivalente a três salários mínimos, ou seja, R$ 2.811,00, um pouco mais de dois terços do indicado pelo DIEESE. Trabalhava numa prestadora de serviços para a Petrobrás, e com a perda do emprego foi-se também qualquer tipo de direito trabalhista. Sua fala é: "Naquela época nós éramos felizes e não sabíamos. Eu era mil vezes mais feliz do que hoje. Eu só consigo tirar meu sustento porque, graças a Deus, não pago aluguel e minha família me ajuda, todo mundo trabalha".

Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a máxima de que o dinheiro não traz felicidade está equivocada e os dados são da Sondagem do Bem-Estar. Segundo a pesquisa, quanto mais alta a renda do brasileiro, maior a pontuação no ranking de satisfação. Agora, seria Jorge feliz com mais dinheiro, ou na época em que possuía o emprego podia ter um pouco mais de estabilidade que lhe permitia ficar tranquilo sobre como suprir suas necessidades básicas? Sim, porque seu salário ainda não era suficiente para viver plenamente.

A coordenadora da sondagem no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), Viviane Seda, disse: "Quando você pensa em satisfação com a vida, você leva em conta vários aspectos, subjetivos e objetivos. A questão da renda é muito importante, é bastante tocada nas pesquisas de bem-estar no mundo inteiro. Quanto maior a renda, a média de felicidade é mais alta".

Os entrevistados que recebiam até R$ 1.200 por mês - a faixa de renda mais baixa da pesquisa - tiveram a menor média de felicidade, 7,58 pontos. Na faixa de renda mais alta, pessoas que recebiam R$ 10 mil ou mais mensais, o nível de satisfação subiu para 8,22 pontos. Na pesquisa da FGV, a média de felicidade foi crescendo conforme a média de renda se ampliava: de R$ 1.200 a R$ 2.600 mensais, 7,77 pontos; de R$ 2.600 a R$ 5.250, 7,94 pontos; e de R$ 5.250 a R$ 10.000, 8,09 pontos.

Diego Nicheli Chagas diz que sua satisfação aumentou a partir do momento em que ascendeu profissional e financeiramente. No tempo de oito anos passou de trainee a coordenador na área financeira do Grupo Estácio. Há seis meses veio a última promoção e tornou-se gerente de Operações Financeiras no conglomerado de educação que utiliza-se da educação como se esta fosse mercadoria.

"O salário foi ficando mais elevado, a vida começou a mudar. Eu, que era noivo, consegui me casar. Hoje minha mulher e eu temos a nossa casa. Depois de sete anos, além de ter me estabilizado financeiramente, estou estabilizado profissionalmente, estou muito mais feliz", disse ele. Mas seria o dinheiro a razão de sua felicidade ou a garantia de suas necessidades supridas e, de alguma maneira, a possibilidade de desenvolver suas capacidades produtivas no trabalho?

Com a evolução da renda, surgiram novas oportunidades, descobertas, experiências para toda a família. "Venho de uma família um pouco mais humilde. Tive uma ascensão profissional rápida e consegui conquistar muitas coisas que não imaginava. Com certeza estamos mais satisfeitos agora. Com um salário maior você tem acesso a coisas novas, restaurantes melhores, viagens internacionais. Conseguimos proporcionar até para as nossas famílias algumas dessas viagens", disse Diego.

"O Brasil é um país em desenvolvimento, tem muito a evoluir, tem que focar principalmente na redução da desigualdade. Não adianta aumentar a renda para uma faixa apenas. A renda tem que ser mais bem distribuída", afirmou Viviane. A afirmação da pesquisa só demonstra que o capitalismo, que tem como fundamento a concentração de renda para poucos, não tem como responder os anseios subjetivos e objetivos da população, pois não é capaz nem de possibilitar empregos para todos, quanto mais a possibilidade de uma vida plena em que todas as necessidades possam ser supridas e todas as capacidades possam ser desenvolvidas.

O Brasil estando em uma posição intermediária, sendo um elo débil do imperialismo não tem para onde crescer e só tende a decrescer. A renda das famílias vai diminuir gradativamente e a crise que agora sentimos na pele vai aprofundar a desigualdade social. Isso é um fator concreto e não subjetivo. Não é o dinheiro que traz felicidade, mas sim uma vida digna.

Homens são mais felizes que as mulheres. Paulistas estão mais satisfeitos do que os cariocas. A diferença pode ser também explicada pela renda. Os homens tiveram 7,98 pontos no ranking de felicidade, ante 7,90 pontos das mulheres, numa escala de 0 a 10. Em São Paulo, o nível de satisfação alcançou 7,96 pontos. No Rio, o resultado foi de 7,91 pontos. "Provavelmente essa média maior de felicidade em São Paulo do que no Rio tem a ver com a renda mesmo", contou a coordenadora da pesquisa.

O dado acima demonstra as diferenças históricas em relação a desigualdade de gênero. As mulheres são oprimidas, sendo em sua grande maioria “o trabalhador chinês da família”, que tem que fazer os serviços mais brutalizantes da casa, como cozinhar, lavar, limpar e passar e, quando além disso, conseguem um emprego ganham menos do que os homens. A felicidade é algo que se sente concretamente, a partir da vida material, nessas condições é óbvio que as mulheres são mais infelizes. Além disso, sendo a capital paulista maior concentradora de renda, as pessoas são mais satisfeitas.

Na média geral, os países da América Latina têm pontuação alta em relação a outros lugares do mundo, lembrou Viviane Seda: "Isso acontece por conta da questão do convívio social maior, mais interação entre as pessoas, isso ajuda na sensação de bem-estar". A Sondagem do Bem-Estar ouviu 2.594 moradores das cidades do Rio e São Paulo. A primeira fase de coleta ocorreu entre os dias 1.º de junho e 4 de agosto de 2016, enquanto a segunda etapa foi a campo de 5 de setembro a 31 de outubro do mesmo ano.

Se o capitalismo não é capaz de possibilitar as condições mínimas que garantam o desenvolvimento do indivíduo em um nível que permita que esse sinta-se pleno e feliz, então merece perecer. O comunismo quer que o ser se desenvolva em todas as suas capacidades, pois: “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades” (Karl Marx).




Tópicos relacionados

precarização   /    Desemprego   /    Sociedade   /    São Paulo (capital)

Comentários

Comentar