Com capacete e mira laser, policia diz que chacina em São Gonçalo foi um sucesso

O depoimento de um jovem que sobreviveu a três tiros de fuzil no corpo deixa em evidência a falta de transparência das autoridades e a mentirosa versão oficial sobre a operação. Quem atirou, relatou o jovem, estava escondido na mata, vestia roupa preta, capacete e portava armas com marcador laser.

quinta-feira 23 de novembro| Edição do dia

De acordo com declaração dada pela mãe de uma das vítimas da chacina ocorrida no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, do dia 11 de novembro, para a polícia a operação foi “um sucesso.”

“Ao sairmos da delegacia, um policial bateu no ombro do meu cunhado e disse que a operação tinha sido um sucesso. Ficamos em silêncio. Mas eu teria dito que foi uma operação de assassinos”, relata.

Essa operação de assassinos, que ocorreu há 12 dias, nomeada de “operação conjunto entre a Policia Civil e o Exercito”, até hoje não teve seus objetivos oficiais declarados.

Se não bastasse todos os absurdos oficiais declarados após a operação através do Comando Militar do Leste e da Policia Civil do Rio de Janeiro, o depoimento de um dos sobreviventes contradiz as versões oficiais sobre o caso e revela ameaça de policias durante o período em que esteve internado.

De acordo com o jovem sobrevivente, um grupo de policiais visitou o quarto de hospital aonde estava internado e disseram que “iriam furar seu soro e colocar veneno dentro”. O jovem de 19 anos, que foi alvejado com 3 tiros de fuzis, nas duas mãos e numa coxa, recebeu a ameaça após responder aos policiais que não era bandido e que trabalhava como padeiro.

“Me joguei na beira da vala, quando uns seis homens de preto com capacete saíram do mato com miras laser”, relembra o jovem um dia depois de ter tido alta hospitalar. “Pegaram meu telefone e falaram que iriam voltar para me matar. Tiraram fotos nossas. Eles quebraram as lâmpadas dos portões das casas onde a gente estava e ficou muito escuro”

O jovem, que trabalha numa padaria próxima da sua residência desde os 12 anos e sustenta a mãe, só foi socorrido por volta das quatro horas da manhã pela sua irmã e seu patrão, o único conhecido com carro que a família tem. “Fiquei perdendo sangue no chão durante horas. Vi passar um caveirão e um tanque de guerra mas ninguém me ajudou. Perdi muito sangue. Eu só pensei que iria morrer”. Ele não sabe se conseguirá voltar a trabalhar, já que teve as duas mãos alvejadas por tiros de fuzil.

Ele é, hoje, a principal testemunha do caso que teve 7 mortos e que possui feridos internados em estado grave. Misteriosamente "não há" nenhum responsável pelos disparos.

Os relatos deste jovem e de mais três testemunhas colocam em cena um elemento que a Polícia e o Exército escondem: homens de preto, mascarados, com armamento dotado de lanterna e mira laser, e capacetes.

Testemunhas também afirmam que os encapuzados, embora tivessem acabado de atirar, responsabilizavam as mortes a uma suposta briga entre facções. “Me disseram: ’Olha o que a facção rival fez!", relata a mãe de outra vítima. "Briga de facção com caveirão, quando se viu isso?"

A Policia Civil e o Exercito são os principais responsáveis pela operação que ocorreu 4 dias depois de uma mega operação das Forças Armadas, que ocupam o Rio, e da Policia no mesmo Complexo de favelas da Região.

A chacina realizada em Salgueiro não só evidenciou uma operação assassina, mas também os efeitos Lei 13.491/17, nomeada por diversos movimentos sociais como "Licença para Matar", sancionada no mês passado pelo golpista Temer, de acordo com a qual o caso ganha respaldo legal para não possuir investigação. Isso porque a referida lei altera o conceito de crime militar passando a abranger também os casos de homicídios dolosos cometidos por Militares. A nova legislação define que mesmo os casos em que houve intenção de matar sejam investigados e julgados exclusivamente pelas forças militares.

Enquanto a Policia Civil se preocupou em revelar as passagens policiais de alguns dos mortos, mesmo não revelando qual o objetivo da operação daquela madrugada, o Exercito declarou que não haverá investigações internas sobre o caso.

É preciso dizer um basta à ocupação do Rio nas favelas e periferias pelas Forças Armadas e pela policia. É inadmissível que eles, por meio de suas corporações, sigam nos assassinando. O Estado ou se nega a investigar os casos ou protagoniza supostas investigações que não chegam a lugar algum, pois é ele mesmo responsável pelo seu próprio julgamento.

As chacinas, tal qual a do Complexo do Salgueiro, e os homicídios cometidos pela policia precisam ser investigadas e julgadas por júris populares compostos por membros da comunidade, familiares e pelos movimentos sociais.

Fonte: El País




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