Gênero e sexualidade

LGBT

Com bombas, agressões e ameças de morte, 24 travestis denunciam repressão da PM em bairro nobre de SP

Depois da escandalosa denúncia da prisão arbitrária de 9 travestis no Largo do Arouche na semana passada, uma nova denúncia aparece para mais uma vez demonstrar o caráter LGBTfobico e racista da polícia brasileira. Desta vez, a denúncia publicada pelo G1 e também transmitida pelo Bom dia Brasil (Globo) foi feita na Zona Sul de São Paulo, onde policiais militares que fazem "bico" usam da violência para tentar acabar com a prostituição.

Virgínia Guitzel

ABC Paulista | @virginiaguitzel

quarta-feira 11 de outubro| Edição do dia

Enquanto a Corregedoria da Polícia Militar apura o caso apenas na esfera administrativa, uma vez que agentes da corporação são proibidos de fazer ‘bicos’ não oficiais, mesmo durante as suas folgas, a realidade é que desde julho deste ano, PMs sem farda vêm batendo nas travestis com socos, chutes e armas. A denuncia feita na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), policiais atiram balas de borracha nas costas e nádegas delas, chegando até a jogar bombas de efeito moral para afastá-las da Avenida Lineu de Paula Machado.

Dispostas a dar um basta a essa perseguição por parte dos vigilantes, as travestis decidiram gravar e fotografar as agressões. Numa filmagem é possível vê-las correndo de dois homens, apontados por elas como os policiais que as aterrorizam. Enquanto o discurso da polícia seria ter sido contratada por moradores estariam recebendo até R$ 5 mil por mês para expulsá-las de lá. Os moradores negam qualquer tipo de contratação.

Voltamos a Operação Tarantula dos anos 80?

"Os invertidos que saírem a rua usando batom, roupas justas e serem escândalos serão presos, a partir de hoje, pelos investigadores da Delegacia de Costumes, por ordem do Sr Francisco de Assis Gouveia, que tem um plano de moralização da cidade".

"Se boneca fizer passeata, apanha. Se os travestis teimarem em fazer passeata de protesto na cidade, vai ser recebidos com bomba de gás lacrimogêneo e cassetetes "tamanho família". A advertência é do proprio Secretário de Segurança Joaquim Ferreira Gonçalves".

Esses são dois trechos extraídos do livro Ditadura e Homossexualidade:
Repressão, Resistência e a Busca Da Verdade sobre a política do Estado sobre as travestis durante os anos de chumbo.

A conjuntura reacionária em que vivemos, com o governo golpista de Temer conseguindo aprovar reformas importantes contra direitos históricos da classe trabalhadora e avançando cada vez em pautas conservadoras como a redução da maioridade penal, a volta da "Cura Gay" e a proibição do aborto em todos os níveis demonstram que muito além de aumentar a exploração descarregando a crise nas costas da classe trabalhadora, querem aumentar a humilhação e a já precária situação de vida da comunidade LGBT, e em especial, das pessoas trans.

As denúncias da polícia militar não são novas, o caso da travesti Laura Vermont ou Verônica Bolina, que foi recentemente presa de novo, comprovam a relação intrinsecada deste Estado e seus agentes, como a Justiça que mantém impune os assassinos, e a polícia que em muitos casos é o agento direito de nossa opressão. O recente documentário do Netflix "Morte e Vida de Marsha P. Jhoson" recupera seu legado na revolta de StoneWall, onde as LGBT se enfrentaram com a polícia que constantemente as agredia. O assassinato de Marsha, que por muitos anos foi tido como "suicídio", segue até hoje como a maioria dos casos de transfeminicidio: impune.

Transfeminicidio, polícia e Estado: uma cadeia capitalista de violências impunes

No começo de setembro, uma manchete chamava atenção da comunidade LGBT: "Acusados pelo assassinato de Dandara podem ser primeiros julgados entre 115 homicídios de travestis no ano no país". Isto é, pela primeira vez, um caso de transfeminicídio que ganhou repercussão internacional teria um julgamento. Outro caso recente no Piauí chamou atenção por ser a primeira vez que um caso de LGBTfobia vai a juri popular. O assassinato da travesti Makelly Castro em 18 de julho de 2014, só agora em outubro de 2017 teve um encaminhamento. O resultado foi o reconhecimento do crime, mas a absolvição do professor Luís Augusto Nunes.

Estes dois casos evidenciam que os assassinatos de pessoas trans não são casos isolados ou motivados por problemas individuais, mas um drama social chamado: transfeminicidio, assassinato em série de pessoas trans pelo fato de serem trans. Nos EUA há inclusive uma medida protetiva para os assassinos, que apresentam como estratégia de defesa "Panico Trans", que seria uma explicação de um "surto provocado pela descoberta das pessoas trans" que justificaria seu assassinato.

Como viemos denunciando pelo Esquerda Diário, a repressão sofrida pelas travestis e pessoas trans ao longo da história é parte da repressão sexual e da identidade de gênero estrutural da sociedade capitalista. Existe uma longa cadeia de violências que partem da naturalização de ideias de que pessoas trans "nasceram em corpos errados", que "são homens ou mulheres fingindo serem mulheres ou homens", que "enganam" seus companheiros, que somos aberrações da natureza. Essa naturalização dessa ideologia propagada por grupos conservadores, que são legitimadas pelas escolas que não tratam sobre estes temas, que recebem o aval da Igreja que com um "Papa progressista" segue tratando as pessoas trans como "bombas nucleares", que tem apoio da Justiça para manter os assassinatos impunes e pela exclusão quase que absoluta do mercado de trabalho, tem como último elo de uma longa cadeia as agressões, mutilações, suicídios e o transfeminicidio.

Nós colocamos nossa diário a serviço da construção de um movimento LGBT anticapitalista que questione todas as instituições e este Estado capitalista enquanto segue ao lado de milhares de LGBT todos os dias nas lutas por melhores condições de vida e em defesa de cada direito elementar. Denunciamos a polícia, os assassinos e a Justiça sem depositar qualquer confiança que seja possível garantir uma verdadeira justiça para estes casos, muito menos evitar os próximos. Sob a ordem capitalista, não acreditamos que seja possível ter "orgulho para algumas de nós, sem a libertação de todas nós", nas palavras de Marsha.




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