Política

DEBATE COM O MAIS

Com as Diretas do PT e de costas para a auto-organização: debate com Valério Arcary

Edison Urbano

São Paulo

terça-feira 25 de julho| Edição do dia

1) Os companheiros que fundaram o MAIS terão dentro de poucos dias seu primeiro Congresso.

Como dissemos em várias oportunidades, sua ruptura com o PSTU, no calor do processo do golpe institucional de 2016, suscitou "grandes esperanças" entre nós, com o potencial de acelerar o difícil e tortuoso processo de aglutinar as forças revolucionárias naquilo que possa ser ao menos, o embrião de um futuro Partido Revolucionário no Brasil.

2) Às vésperas do Congresso, o companheiro Valério se ocupou de responder nossa polêmica sobre a adoção, pelo MAIS, da palavra de ordem de Diretas Já, mesma palavra de ordem utilizada pelo PT pra fazer campanha eleitoral para Lula rumo a 2018 ao mesmo tempo que boicotava as ações rumo ao dia 30 de junho.

O companheiro Valério pareceu ofendido por nossa polêmica, questão que de modo algum foi nossa intenção, pelo contrário. É que, quando se trata de situações dramáticas, é menos aconselhável utilizar frases amenas ou um tom "diplomático". De todo modo, nada em nosso artigo justifica que Valério afirme: "Edison Urbano acusou o MAIS de ter perdido paixão revolucionária.". Nosso debate foi sempre de divergências políticas, “moralizar” a questão dessa forma não ajuda na busca da verdade ou da melhor política.

3) Em primeiro lugar, queremos dar atenção ao debate pontual sobre o qual Valério escolheu nos responder, ou seja, entre Constituinte e Diretas Já.

Sobre a questão da honestidade na polêmica: não poderíamos deixar de citar em nossa resposta os novos setores burgueses que se somaram às “Diretas Já”, tanto os que o fizeram antes, como (poucos dias) depois de escrito o artigo de Valério. E havia bastante de ambos.

Valério diz: "As únicas exceções foram o jornal Folha de São Paulo, que engavetou a proposta, e Fernando Henrique Cardoso que, paradoxalmente, nem conseguiu que o PSDB decidisse retirar seus ministros do governo Temer". As únicas “exceções” foram a Folha (jornal de maior circulação no país) e FHC (principal quadro burguês vivo). Estávamos ou não corretos ao alertar a vanguarda de que não são setores menores, mas justamente os principais, que "embaralham" essa cartada, com a experiência de uma classe dominante que já venceu mediante "golpes de força", mas também mediante "desvios"?

O erro de prognóstico mais importante nesse sentido é o dele, e não nosso. E o fato é que a política de Diretas Já, independente dos setores burgueses que se somem a ela, é uma política de conciliação de classes, que hoje é o que mais serve para a campanha por “Lula 2018”, porque frente a um momento de luta de classes alenta na classe operária uma saída apenas eleitoral que a não ser respondida agora, como não foi, termina se canalizando nas eleições de 2018, questão que Valério se nega a responder.

Reconhecendo que a política que defende, de Diretas Já, é por dentro do regime atual, Valério tenta atribuir o mesmo à política de Assembleia Constituinte Livre e Soberana imposta pela luta. Mas isso é o oposto da verdade: como parte do programa democrático-radical, serve justamente para elevar as aspirações democráticas das massas ao choque direto com o conjunto das instituições do regime, facilitando o caminho para a conclusão de que é preciso impor um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Para Trotski, tal como defendeu tanto sob ditaduras como na China em 1928, como em países avançados onde a democracia limitada e ameaçada (como na França ou na Inglaterra nos anos 1930), o programa democrático-radical é parte da dinâmica transicional do programa revolucionário de conjunto. Tanto em momentos de ascenso revolucionário (França), como em momentos de refluxo para reorganizar a vanguarda (China).

O oposto disso é a política de Diretas Já, que além de ser parte da campanha eleitoral do PT, é um mecanismo possível de solução da crise política por dentro do regime, no cenário de que as disputas entre a Lava Jato e os partidos golpistas tornem inviáveis tanto a manutenção de Temer como a sua substituição por via indireta, ou caso se desenvolvesse um movimento de massas capaz de superar os obstáculos impostos pela burocracia sindical na luta contra as reformas (ver argumentos usados por FHC em sua defesa das Diretas).

Por isso, chamamos os companheiros a abandonarem essa política e construir conosco um polo alternativo, em torno de uma política de fato independente, que só pode ser uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana. Do contrário, amanhã e depois estaremos no mesmo dilema de hoje, entre a impotência política e a adaptação oportunista.

No plano da tática, ao invés de reconhecer o naufrágio da sua aposta numa "onda de massas" pelas Diretas, Valério tenta mudar de assunto.

4) Sobre a relação entre estratégia e tática: Valério nos acusa de confundir os âmbitos, mas isso é apenas porque ele mesmo não vê a ligação entre ambas; para ele a tática e a estratégia estão separadas, mecanicamente. Como se, de um lado, a estratégia fossem “princípios gerais” abstratos, e a tática, do outro lado, fosse o terreno do empirismo, do “seguir o movimento tal como é”.

Para os marxistas entre tática e estratégia existe uma relação dialética, vital. Uma estratégia que não se expressa através de táticas precisas, não merece o nome de estratégia, pois não orienta de fato a ação. Uma tática que não corresponde à estratégia, que não conduz aos fins estratégicos, não é tática revolucionária, é adaptação oportunista.

Mas Valério, depois de separar os dois níveis de maneira mecânica, insiste em errar tanto num quanto no outro.

No da estratégia, que ele quase não toca, basta dizer que Valério nunca retificou a posição absurda de igualar como formas distintas de "popularização da ditadura do proletariado", de um lado os conselhos populares do PSTU, e de outro o poder popular do PCB (uma fórmula frente-populista); e ainda mistura tudo com a proposta de comitês de base contra as reformas, como método concreto de ação, defendida pelo MRT.

Já no âmbito da tática, chama novamente atenção: Valério insiste no seu ceticismo. Para ele, chamar comitês de base seria tão "voluntarista” ou propagandista quanto agitar fórmulas diretas de poder revolucionário. Porém, tal visão não se sustenta na realidade.

Independente do efeito prático que a política de impulsionar comitês de base tenha conseguido adquirir na realidade, não seria possível definir de antemão qual o ponto em que a quantidade poderia se transformar em qualidade, caso a esquerda de conjunto adotasse tal política. Em outras palavras, qual o ponto em que o exemplo de auto-organização fosse suficiente para se alastrar entre setores das massas, como um incêndio na pradaria.

Essa questão tem alcance estratégico e inclusive teórico. Trotski insistiu muito numa política de auto-organização, sempre que esteve diante de uma perspectiva de avanço do movimento de massas. Entre os muitos exemplos, diz Trotski sobre a situação francesa em 1935:

“Se no momento da explosão em Toulon [cidade portuária francesa] tivesse havido um grupo com uma orientação suficientemente correta para lançar o chamado claro e simples ‘Cada cem trabalhadores mandem um delegado para o Comitê de Ação de Toulon”, as massas teriam certamente respondido a esse apelo. (...) Mesmo se o movimento fosse interrompido sem assumir dimensões nacionais, um precedente saudável teria sido posto. E seria possível, numa nova etapa, retomar mais facilmente e com maior experiência [A crise da seção francesa, p. 93-94, edição estadunidense, grifo nosso].

Ou seja, impulsionar a auto-organização dos trabalhadores é uma obrigação para os revolucionários; pode ser mais ou menos bem sucedida em cada conjuntura, mas mesmo no pior dos casos, cumpre um papel preparatório da maior importância. Foi o nosso objetivo com a grande campanha "Tomar a greve geral em nossas mãos" para agitar a ideia de auto-organização ao mesmo tempo em que batalhávamos por comitês nos locais de trabalho e estudo, em exigência aos sindicatos.

Desconsiderando tudo isso, Valério afirma sobre a política do MRT: "Urbano propõe como saída política comitês de base sindicais, que não existem"; não Valério, nossa saída política é uma Constituinte Livre e Soberana, na perspectiva de um governo de trabalhadores. Os comitês de base são nosso método de organização, e sim eles fazem parte de uma política classista revolucionária integral.

Ao teorizar sobre a impossibilidade de defender a auto-organização (estratégia soviética) por fora de situações diretamente revolucionárias, Valério não apenas se distancia de Trotski nesse ponto fundamental, mas inclusive “teoriza” e justifica de antemão a adaptação e o seguidismo à burocracia sindical e política do PT e seus satélites.

O que encontramos aqui é, portanto, a substituição do “objetivismo alegre” da LIT com a qual romperam, por um “objetivismo cético”, sem melhores resultados.

5) Ao contrário do que diz Valério, não temos nenhuma intenção de "nos diferenciar" artificialmente. Reconhecemos a dificuldade de encontrar pontes, e inclusive uma "língua comum", entre companheiros de distintas tradições e trajetória… Porém isso não pode ser obstáculo. A FT tem se construído, nos diversos países em que está inserida e também avançando em novos países, em diálogo permanente e buscando confluir com os setores que evoluem à esquerda, das mais diferentes origens políticas (na Itália, França e Estados Unidos, assim como na Argentina e no Brasil, entre outros).

Não nos consideramos "donos da verdade", mas seguindo os conselhos e um exemplo de Lenin e Trotski, sabemos que é apenas sendo firme nas questões de princípio que uma verdadeira fusão pode ser alcançada.

Em artigo recente, outro companheiro do MAIS, André Freire, escreve a propósito de um tema histórico, a unificação entre Lenin e Trotski e em 1917:
"Fugindo a todo o momento de unificações “aventureiras”, construídas sem o verdadeiro rigor e profundidade, devemos buscar de forma permanente a unificação dos marxistas revolucionários, em torno do mesmo programa e da mesma organização política revolucionária, independente de origens e tradições políticas distintas."

Esse critério exposto de forma rápida no parágrafo acima nos parece correto e necessário. Por que então não o levar à prática estabelecendo um debate aberto e fraternal com a FT e o MRT, que viemos há anos impulsionando um Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista (MIRS-QI)?

Diz ainda ele em outro trecho, e esperamos sinceramente que não esteja aí uma pretensa resposta: "Portanto, sem exigir autocríticas sobre erros do passado, sempre a partir de discussões sobre a construção e atualização do programa socialista para o momento que vivemos e da construção de uma organização para o combate na luta de classes...".

O exemplo de Lenin e Trotski mostra que às vezes a própria prática é mais que suficiente para mostrar a superação de erros do passado. Mas justamente: nossa insistência no que vemos como uma herança não superada do morenismo, é precisamente porque na prática vemos a política do MAIS repetindo esses erros, seja na forma da mera continuidade com a trajetória do PSTU, seja recaindo, em determinados momentos, em seu "simétrico oposto".

Levar os debates sobre os desafios da esquerda até o final é mais que uma necessidade, é uma responsabilidade; chamamos os companheiros do MAIS a aprofundar todos os debates que a realidade nos impõe, sobre o programa, a estratégia e a tática a adotar em cada momento.

Estamos vivendo um momento em que a classe trabalhadora começa a entrar em cena em nível internacional, e quando as ideias marxistas revolucionárias começam a encontrar um novo eco entre setores de massas, processos que encontraram recentemente expressão emblemática na nossa vizinha Argentina, com a luta exemplar dos operários da PepsiCo, e com o fortalecimento da FIT com nosso camarada Nicolás del Caño à cabeça. No Brasil, vivemos duas greves gerais num intervalo de poucos meses, mas a esquerda revolucionária ainda não conquistou uma base orgânica sequer inicial, condição para poder aparecer como alternativa independente para as massas. Abrir todos os debates entre a esquerda revolucionária, sem nenhum sectarismo, é mais urgente do que nunca, buscando ao mesmo tempo as formas concretas de atuar em comum na luta de classes brasileira e internacional.




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