Educação

REABERTURA DAS ESCOLAS

Com apenas 35% da capacidade, reabertura das escolas pode infectar até 46% dos alunos

Pesquisa coloca em xeque modelo para retorno de aulas presenciais que Doria quer impor, passando por cima dos alunos, professores e funcionários que serão diretamente afetados.

segunda-feira 24 de agosto| Edição do dia

Imagem: Fotoarena / Agência O Globo

Segundo pesquisa, volta às aulas presenciais pode aumentar a disseminação do novo coronavírus tanto dentro quanto fora das escolas. O grupo de pesquisadores concluiu que depois de dois meses de retomada das aulas, entre 10% e 46% de alunos e funcionários poderiam ser infectados pelo novo coronavírus, de acordo com as condições de cada escola.

O estudo foi feito pelo grupos de estudo Ação Covid-19 e Repu (Rede Escola Pública e Universidade), e os parâmetros utilizados foram o tamanho das escolas, as medidas de higiene tomadas e o distanciamento social. São pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia São Paulo (IFSP), Universidade de Bristol (na Inglaterra) e Escola de Aviação do Exército (na Colômbia).

A base do estudo foi o retorno de 35% do total de alunos da rede de ensino considerando privado e público. O número é o considerado pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo para o retorno anunciado pelo governador João Doria (PSDB) no dia 7 de outubro.

— Fizemos uma simulação para 60 dias, acompanhando um indivíduo infectado dentro da escola, e como essa infecção se desenvolveria. E comparamos esse cenário para duas escolas: uma adensada, mais comprimida, e outra dispersa, com mais áreas externas, espaço e menos gente — explicou ao O Globo, Fernando Cássio, professor de políticas educacionais da UFABC e integrante da Repu.

São 35 mil professores categoria O que ficaram sem salários no Estado de São Paulo, e também centenas de merendeiras e terceirizadas que foram demitidas logo do inicio da pandemia. Além de toda uma situação de precariedade das escolas onde falta tudo, inclusive sabão.

Escandalosamente, a Secretaria de Educação do estado de São Paulo afirmou que é cedo para tirar conclusões e que ainda fará uma avaliação mais detalhada sobre a ferramenta. A pasta ainda coloca que a análise deve considerar também "os danos de se manter as escolas fechadas, como já demonstrado por vários artigos internacionais e pela própria Unesco e OMS".

Se trata de um argumento cretino, que limpa as mãos por colocar milhões de vidas em risco, mesmo quando há evidências científicas dos danos. Colocam os lucros dos empresários da educação acima da vida.

Os pesquisadores também levaram em conta o período de transmissão em três principais momentos: na entrada da escola, na saída e nos recreios. Os resultados das simulações para 60 dias letivos (ou 180 interações) deram uma média de 46,35% das pessoas infectadas pelo vírus e de 0,30% de óbitos nas escolas mais "comprimidas" e média de 10,76% das pessoas infectadas pelo vírus e de 0,03% de óbitos nas escolas mais "dispersas".

— “A dinâmica de infecção é muito mais pronunciada na escola comprimida” — disse Cássio. — “Mas o interessante é que esses dois primeiros cenários foram simulados considerando que as escolas seguiriam a maioria dos protocolos de higiene, segurança e distanciamento. E, mesmo assim, as dinâmicas de infecção não são desprezíveis. Elas existem mesmo nas escolas mais dispersas, dos bairros mais ricos.” (...) “Testamos considerando escolas que seguem todos os protocolos e regras, e outras que não seguem. E o que vemos é que o máximo de alunos na escola para reduzir a dinâmica de infecção é muito baixo, está abaixo dos 35%”

Segundo as conclusões só seria possível admitir 20,27% do total de estudantes em escolas dispersas e nas escolas comprimidas, apenas 6,86% dos estudantes mas os pesquisadores recomendam não abrir as escolas nesse momento:

— “Mas não dizemos que o recomendável é que se coloque um número "x". Não recomendamos abrir as escolas — segundo Cássio. — “Mesmo considerando esse cenário de abertura "segura", a quantidade de alunos que se colocaria na escola é tão pequena que é inviável do ponto de vista prático, pedagógico, de desigualdades educacionais.”

“Usamos um modelo teórico, mas que ajuda a ter mais cautela em relação a expor a população. (A reabertura) expõe a comunidade escolar, as famílias dos estudantes, vai adensar o transporte público” — completa Cássio. — “Nossa ideia é construir um debate público que não seja baseado no achismo, nem numa reabertura de escolas que pode testar e usar a população como cobaia. Isso não é adequado.”

O Estado de São Paulo tem um milhão de professores e funcionários administrativos e 13,3 milhões de estudantes de toda educação básica. São dados alarmantes de quão grande pode ser o impacto de uma reabertura antecipada, colocando em risco os jovens, os professores e seus familiares. O simulador também foi disponibilizado para as escolas para que possam fazer previsões de acordo com as condições de cada espaço.

Não vamos aceitar o retorno autoritário e inseguro das aulas. Quem tem que decidir pelo retorno são os alunos, professores e funcionários, que serão diretamente afetados pela medida.




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