78 ANOS SEM TROTSKY

Com Trotsky até o final (fragmentos)

Publicamos fragmentos de um escrito de Joseph Hansen, dirigente trotskista do SWP norteamericano, onde relata em primeira pessoa os detalhes do atentado mortal contra Trotsky, realizado por Jacson-Mornard (Ramón Mercader) sob as ordens de Stálin e da GPU.

terça-feira 21 de agosto| Edição do dia

Desde o ataque com metralhadora do dia 24 de maio (1) pela GPU (polícia política da burocracia stalinista, NDT) no dormitório de Trotsky, a casa de Coyoacán se havia transformado em uma fortaleza. Se incrementou a guarda e melhorou-se o armamento. Um reduto foi construído com tetos e pisos a prova de bombas. Duas portas blindadas, controladas eletricamente substituíram a velha porta de madeira. (...) Três novas torres a prova de balas dominavam não só o pátio mas também o bairro. Barreiras de arame farpado e redes anti-bomba foram construídas.


A casa fortificada em Coyoacán

Toda essa construção foi possível graças aos sacrifícios dos apoiadores e membros da Quarta Internacional, que fizeram todo o possível para proteger Trotsky, sabendo que era muito provável que Stalin tentasse outro ataque desesperado após o fracasso do 24 de Maio. O governo mexicano, o único de todos os países do mundo que deu asilo a Trotsky em 1937, triplicou o número de guardas policiais em serviço do lado de fora da casa, fazendo tudo em seu poder para proteger a vida do exilado mais conhecido no mundo.

Apenas a forma do próximo ataque era desconhecida. Outro ataque de metralhadora com um maior número de atacantes? Bombas? Minas? Veneno?

20 de agosto de 1940

Eu estava no telhado com Charles Cornell e Melquiades Benitez. Íamos conectar uma sirene forte ao sistema de alarme para ser usada no caso de um novo ataque da GPU.

Na parte da tarde, 17:20 - 17:30, Jacson, conhecido como um simpatizante da Quarta Internacional e como o marido de Sylvia Ageloff (2), antiga militante do SWP [partido da Quarta Internacional nos EUA, NDT], chegou em seu pequeno Buick. Em vez de estacionar na frente da casa como de costume, ele fez uma volta completa na rua e estacionou paralelamente à parede, na direção de Coyoacán. Quando ele saiu do carro, olhou para o teto e gritou: "Sylvia veio?"

Ficamos um pouco surpresos. Não sabíamos que Trotsky havia marcado uma entrevista com Sylvia e Jacson, mas achamos que fora uma falha de Trotsky não nos avisar, o que acontecia às vezes nesses assuntos.

Respondemos a Jacson: "Espere um momento." Cornell colocou os controles elétricos das portas pra funcionar e Harold Robins o recebeu no pátio. Jacson tinha uma capa de chuva no braço. Era a estação das chuvas e, embora o sol estivesse brilhando, muitas nuvens densas sobre as montanhas, em direção ao sudoeste, ameaçavam explodir.

Trotski estava no pátio alimentando os coelhos e galinhas, uma ocasião para poder fazer algum exercício na vida confinada que era obrigado a viver. Pensávamos que, como era seu costume, ele só entraria na casa quando terminasse de alimentar os animais ou enquanto Sylvia não tivesse chegado. Robins estava no quintal. Trotsky não costumava ver Jacson sozinho.


Trotsky alimentando os animais no seu quintal

Melquiades, Cornell e eu continuamos com nosso trabalho. Ao longo dos próximos dez ou quinze minutos que se seguiram eu me sentei na torre principal para escrever o nome dos guardas nas etiquetas brancas que foram anexadas aos interruptores que ligam os quartos com o sistema de alarme.
Um grito aterrorizante rasgou a calma da tarde, um longo grito de agonia, meio grito, meio soluço. Ele me perfurou da cabeça aos pés. Eu corri para fora da casa de guarda. Um acidente de um dos dez trabalhadores que estavam reformando a casa? Os sons do combate violento vinham do escritório do Velho, e Melquíades apontou o rifle para a janela abaixo.Trotsky, em sua jaqueta de trabalho azul, ficou visível por um momento, lutando com alguém.

"Não atire!", eu gritei para Melquiades, "você pode acertar o Velho!". Melquiades e Cornell ficaram no telhado, cobrindo as saídas do estúdio. Ligando o alarme geral, desci as escadas até a biblioteca. Quando entrei pela porta que ligava a biblioteca à sala de jantar, o Velho tropeçou para fora do escritório, com o corpo coberto de sangue.

"Olha o que eles fizeram comigo!", ele disse.

Ao mesmo tempo, Harold Robins entrou pela porta norte da sala de jantar, seguido por Natalia. Agarrando freneticamente Trotsky em seus braços, Natalia levou-o para a sacada. Harold e eu cuidamos de Jacson, que estava no estúdio ofegando, com o rosto desfigurado, os braços balançando e um revólver na mão. Harold estava mais perto dele. "Cuide dele", eu disse, "vou ver o que aconteceu com o Velho." Quando saí, Robins jogou o assassino no chão.

Trotski entrou cambaleando na sala de jantar, Natalia soluçando, tentando ajudá-lo. "Veja o que eles fizeram", disse ela. Quando eu coloquei meus braços ao redor dele, o Velho desfaleceu perto da mesa.

A ferida em sua cabeça parecia superficial à primeira vista. Eu não ouvi nenhum tiro. Jacson deve tê-lo acertado com algum instrumento. "O que aconteceu?", perguntei ao Velho.

"Jackson atirou em mim com um revólver. Estou gravemente ferido ... sinto que este é o fim". Eu tentei tranquilizá-lo "É uma ferida superficial.Você vai se recuperar. "
"Estávamos falando de estatísticas francesas", respondeu o Velho.

"Ele te bateu pelas costas?", perguntei.

Trotsky não respondeu.

"Não, ele não atirou em você", eu disse, "nós não ouvimos nenhum tiro, ele bateu em você com alguma coisa."

Trotsky parecia indeciso e apertou minha mão. Enquanto trocávamos frases, falava com Natalia em russo. Ele tocava continuamente a mão dela com os lábios.

Voltei para o telhado, gritei para a polícia do outro lado do muro "Chamem uma ambulância!" Eu disse a Cornell e Melquíades: "É um ataque, Jacson ..." Meu relógio marcava 17:50.

Voltei para o Velho ao lado de Cornell. Sem esperar pela ambulância da cidade, decidimos que Cornell iria encontrar o dr. Dutren, que morava muito perto e atendeu a família em diversas ocasiões. Como nosso carro estava na garagem, Cornell decidiu pegar o carro de Jacson que estava na rua.

Quando Cornell saiu, os sons de uma nova luta vieram do escritório onde Robins ficava de olho em Jacson.

"Diga aos companheiros para não matá-lo", disse o Velho, "ele tem que contar".
Deixei Trotsky com Natalia e fui para o estúdio. Jacson estava desesperadamente tentando escapar de Robins. Seu revólver estava muito perto da mesa. No chão havia um instrumento ensangüentado que parecia uma picareta industrial, mas com as costas de um machado. Eu me juntei à luta com Jacson, batendo em sua mandíbula e bochecha, quebrando minha mão.


O escritório de Trotsky

Quando Jacson recuperou a consciência, ele gemeu: "Eles têm minha mãe aprisionada ... Sylvia Ageloff não teve nada a ver com isso ... Não, não é a GPU; não tem nada a ver com a GPU ..." Apegou-se as palavras que deveriam dissociá-lo da GPU, como se de repente ele se lembrasse de que era seu papel insistir nesse ponto. Mas ele já havia se traído. Quando Robins jogou o assassino no chão, Jacson achou que era seu último momento. Louco de terror, ele não conseguia controlar as palavras que dizia: "Eles me fizeram fazer isso". Ele disse a verdade. A GPU fez com que ele fizesse isso.

Cornell entrou no escritório. "As chaves não estão no carro." Ele tentou encontrar as chaves nos bolsos de Jacson, mas sem sucesso. Enquanto ele procurava, corri para abrir as portas da garagem. Em poucos segundos, Cornell saiu com o nosso carro.
Esperávamos que Cornell voltasse, Natalia e eu estávamos ajoelhados ao lado do Velho e segurávamos suas mãos. Natalia limpou o sangue do seu rosto e colocou um bloco de gelo em sua cabeça, que já estava inchando.

"Ele bateu em você com uma picareta", eu disse ao Velho. "Ele não atirou, tenho certeza que é apenas uma ferida superficial."

"Não", ele respondeu, "a sinto aqui (indicando o seu coração), desta vez ele conseguiu."

Eu tentei tranquilizá-lo "Não, é apenas uma ferida superficial, você vai melhorar".
Mas o Velho sorriu levemente com os olhos. Ele entendia...

"Cuida de Natalia. Ela tem estado comigo durante muitos, muitos anos." Apertava minha mão e a olhava. Parecia embriagar-se no rosto dela como se a abandonasse para sempre, revivendo todo o passado em poucos segundos, em seu último olhar.

"Nós vamos fazer isso", prometi. Minha voz pareceu elevar entre os três a consciência de que era realmente o fim. O Velho apertou nossas mãos convulsivamente, de repente com lágrimas nos olhos. Natalia afundou em lágrimas, inclinou-se sobre ele, beijando sua mão.

Quando o Dr. Dutren chegou, os reflexos do lado esquerdo do Velho homem já eram quase nulos. Alguns momentos depois, a polícia chegou para encontrar o assassino que estava no escritório.

Natalia não queria que o velho fosse levado ao hospital; Foi em um hospital em Paris que seu filho, Leon Sedov, havia sido assassinado dois anos atrás. O próprio Trotski, deitado no chão, sentiu-se indeciso.

"Nós vamos com você", eu disse.

"Decidam", ele me disse, como se agora estivesse inteiramente nas mãos daqueles que o rodeavam, como se o momento de decidir por si mesmo tivesse passado definitivamente.

Antes que terminássemos de colocá-lo em uma maca, o velho murmurou novamente: “Quero que tudo que tenho fique para Natalia”. Em seguida, com uma voz que invocava os sentimentos mais profundos dos que estavam ao seu redor, disse: “cuidem dela…”.

Natalia e eu percorremos o triste trajeto com ele até o hospital. Sua mão direita procurou por cima dos lençóis que o cubriam, tocou a garrafa de água que estava perto da sua cabeça, encontrou Natalia. As ruas se encheram de gente, todos os trabalhadores e pobres faziam filas enquanto passava a ambulância cuja sirene soava atrás de uma escolta de policiais em motos que abriam caminho no trânsito até o centro da cidade. Trotsky sussurrou, me aproximando de seus lábios para que eu pudesse escutar:

“Foi um assassino político, Jacson era um membro da GPU ou um fascista, mais provável que fosse da GPU”. O velho refletia sobre Jacson, no pouco tempo que tinha me disse de qual forma achava que o atentado tinha que ser analisado sob a luz dos fatos que já conhecíamos: “A GPU do Stalin é a culpada, mas devemos encarar a possibilidade de ter sido ajudada pela Gestapo de Hitler”. Não sabia que a marca de fábrica de stalin estava no bolso do assassino em forma de confissão.


Ramón Mercader reconstruindo o assassinato

As últimas horas

No hospital os médicos mais proeminentes do México se reuniram. O velho, exausto, com uma ferida mortal e olhos quase fechados olhou em minha direção deitado na cama pequena do hospital e moveu lentamente a mão direita. “Joe, você tem um caderno?” Quantas vezes havia me perguntado o mesmo em tom vigoroso! Com a sutil insinuação com a qual ria às nossas custas pela “eficiência norteamericana”, agora sua voz estava fraca, as palavras quase imperceptíveis, fazia muito esforço para falar, lutando contra a escuridão que crescia. Me apoiei na cama, seus olhos pareciam ter perdido o brilho de inteligência viva tão característica do velho. Seus olhos estavam estáticos como se já não enxergassem o mundo externo, e no entanto eu sentia sua enorme força de vontade relutando contras as forças obscuras, se negando a ceder ao inimigo, precisando cumprir sua última tarefa, lentamente, de forma entrecortada, ditou, escolhendo as palavras da sua última mensagem à classe trabalhadora, lamentavelmente em inglês, um idioma que não dominava. Nem em seu leito de morte se esqueceu que seu secretário não sabia russo!

“Estou a ponto de morrer por conta de um ataque de um assassino político… me atacou em minha casa. Lutei contra ele… entramos… íamos falar de estatísticas francesas… me atacou… peço que digam aos nossas amigos… estou seguro… da vitória… da Quarta Internacional… Avante!

Tentou falar mais, mas a palavras eram incompreensíveis, sua voz fraquejava, os olhos fatigados se fechavam. Nunca recuperou a consciência, isso foi aproximadamente duas horas e meia depois do atentado.

(...) Descobriram que a arma havia penetrado 7 centímetros, destruindo parte considerável do tecido cerebral. (...)

Durante mais de vinte e duas horas depois da cirurgia, a esperança de que ele poderia sobreviver se alternava com o desalento. (...) Pensamos nos dias em que junto de Lenin ele havia dirigido a primeira revolução vitoriosa da classe trabalhadora. (...) Pensamos que de uma maneira ou outra este homem que havia sobrevivido às prisões de Czar, aos exílios, a três revoluções, aos processos de Moscou, sobreviveria ao golpe incontestavelmente covarde de Stalin.

Mas o velho já passava dos sessenta anos, estava doente há vários meses, às 19:25 da tarde do dia 21 de agosto ingressou na crise final. Os médicos trabalharam durante vinte minutos, utilizando os métodos científicos que tinham a sua disposição, mas nem mesmo a adrenalina podia reviver o grande coração e o grande cérebro que Stalin havia destruído com um golpe.

(...)
Me lembro do que disse depois de escapar do atentado de 24 de maio: “Na guerra os acidentes são inevitáveis, acidentes favoráveis e desfavoráveis, isso é parte da guerra”. Me lembro das palavras de Natalia: “Na manhã de 20 de agosto, quando nos levantamos, L.D. disse: “Outro belo dia, ainda estamos vivos”. Ele repetiu isso todas as manhãs desde 24 de maio”.

Trotsky sabia que Stalin tinha encomendado sua morte, sabia que ele contava com a possibilidade de seu assassinato ser perdido entre os eventos bárbaros da Segunda Guerra na qual estados inteiros haviam sido varridos do mapa e o massacre de milhares de homens não passava de um breve comunicado cotidiano dos campos de batalha. Trotsky sabia que contra os recursos do poderoso estado controlado por Stalin só se levantavam a coragem e os meios lamentavelmente inapropriados de um pequeno grupo de revolucionários. Trotsky sabia que todas as janelas táticas estavam abertas para o inimigo: o momento escolhido, a surpresa, a capacidade de atacar uma posição fixa com uma série de métodos distintos, era quase certo que com esforços suficientes, cedo ou tarde, o acaso da guerra nos seria desfavorável. Trotsky inclusive previu que o ataque seguinte aconteceria quando Hitler começasse sua batalha com a Inglaterra.

A política de Trotsky nunca se baseou no desespero, combatia com toda a energia; todavia, durante os meses em que passamos construindo nossa “fortaleza”, eu soube que ele se sentia condenado.

“Não verei a próxima revolução”, me disse, “isso é para a sua geração”. Senti em suas palavras um profundo pesar: que prazer ver a próxima etapa da luta de classes, que alegria participar de mais uma revolução: que virá para a humanidade no próximo período!

“Não é como antes” disse de novo, “somos velhos, não temos a energia das gerações mais jovens, as pessoas se cansam… envelhecem… é para a sua geração, não veremos a próxima revolução”.

No entanto, Trotsky continuava com o pesar de que todas as chances estavam contra sua sobrevivência, lutava contra o tempo forjando a Quarta Internacional, armando-a com as ideias do bolchevismo.

Cada dia durante esse período de guerra mundial e de lutas de frações tinha um valor incalculável para a nova geração de quadros revolucionários, Trotsky sabia disso melhor do que ninguém, ele queria nos devolver intacta toda a herança do bolchevismo que havia guardado, nos seus mínimos detalhes. Ele sabia o que essa herança tinha custado, o que representava no período que se abria diante de nós. O tempo era curto!

Notas:
* Tradução de Les Cahiers du CERMTRI N.º 99, “L’assassinat de Trotsky. Documents”, CERMTRI, París, diciembre de 2000.

** Joseph Hansen (1910-1979): Ingressou no movimento trotskista em 1934, foi ativista do sindicato de marinheiros e membros do secretariado e da guarda de Trotsky desde 1937 até 1940. durante muitos anos dirigiu The Militant e International Socialist Review [o órgão semanal e a revista teórica, respectivamente, do SWP] e foi representante internacional do Socialist Workers Party. Fundou o Intercontinental Press e o dirigiu até a sua morte.

Ver León Trotsky, A Comintern e a GPU. 2. Sylvia Ageloff era amante de Mercader (quem tinha conhecido como Frank Jacson). “esta havia sido bem escolhida, pois tinha uma irmã, Ruth Ageloff, por quem Trotsky nutria muita simpatia. Ruth esteve no México no momento das sessões da comissão Dewey. Havia nos ajudado muito, traduzindo, escrevendo na máquina, procurando documentos. Não havia vivido na casa mas durante várias semanas veio quase diariamente para compartilharmos nossas vidas e nosso trabalho. Trotsky conservava excelentes memórias dela e uma irmã de ruth não poderia receber nada além de um ótimo tratamento dele e de Natalia” (Jean van Heijenoort, Con Trotsky en el exilio: De Prinkipo a Coyoacán).




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