Opinião

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Colunista do Zero Hora sente "pena" de Eike Batista, mas os pobres chama de “bestas-feras”

David Coimbra é colunista do Zero Hora, principal jornal de circulação no estado do Rio Grande do Sul. Famoso por suas posições elitistas (também pelo apelido de David Coximbra), o colunista atacou novamente nesta terça-feira.

terça-feira 31 de janeiro de 2017| Edição do dia

O título do texto é “Fiquei com pena do Eike”, em alusão à prisão do ex-bilionário. Fazemos esse texto de polêmica com o colunista pois o jornal Zero Hora entra nas casas dos gaúchos todos os dias, levando suas ideias a muita gente, e promovendo um desserviço ideológico com opiniões como as de Coimbra. É necessário um contraponto e o Esquerda Diário está a serviço disso.

Em primeiro lugar não queremos fazer coro com a visão punitivista que permeia os grandes meios de comunicação e os posts de ódio à la MBL, que sente alegria e prazer ao ver alguém algemado. Muito menos com a visão de que a Lava-Jato e a polícia federal está fazendo um grande serviço ao país. Acho que as prisões são seletivas e não buscam de fato combater a corrupção, mas isso é material para outro texto.

O que queremos aqui é desvendar a visão elitista e racista do senhor Coimbra que sente pena de Eike, mas chama os presos do Amazonas de “doentes incuráveis”, “selvagens”, “criados em viveiros”, “bestas-feras” e “homens sem compaixão” em outro texto. O que está por trás de tamanha diferença de tratamento em um colunista do mais importante jornal do estado?

O tratamento para o ex-bilionário que fez fortuna com conhecimento escuso e ótimas relações com o poder público, tudo isso às custas de muita exploração de milhares de trabalhadores, é de “pena” e “condolência” por ser preso. Mas aos presos do Amazonas, faltou apenas dizer que o que lhes resta é a cadeira elétrica. Quando se diz que alguém é um “doente incurável”, qual a conclusão lógica que se deduz? Qual o procedimento médico para doenças terminais? Só consigo pensar em duas possíveis, amenizar a dor da morte ou a eutanásia. Qual será que o colunista do Zero Hora acha mais adequada para lidar com a população carcerária brasileira? Acho que depende, se o preso é “o criminoso do colarinho branco, o estelionatário, o vigarista comum”, neste caso, como ele mesmo afirma, esses criminosos não são violentos e lhes resta apenas “estofo e têmpora”. Logo, na sua lógica, merecem tratamento de compaixão. Agora, se for negro, pobre e da periferia, eutanásia neles! Com isso não defendo, de forma alguma, os massacres ocorridos ou qualquer coisa do gênero, mas há que se compreender de maneira mais profunda o problema.

Em seus textos sobre os massacres recentes no país, ele responsabiliza o “governo federal imperialista e paternalista”. Mas ele faz isso não por compreender a relação entre o Estado enquanto instrumento de dominação de classe, a desigualdade social e a violência sistêmica que organiza a nossa sociedade brasileira capitalista. Não tem nada a ver com complexas imbricações existentes entre negligência sistêmica por parte da justiça brasileira, a relação promíscua entre Estado e facções, a herança escravocrata que relega aos negros à senzala moderna, quando não à morte direta, entre outros inúmeros problemas que permeiam a crise penitenciária atual. Ele responsabiliza o governo para chegar à conclusão de que se deve fortalecer as instituições brasileiras e a economia capitalista. Inclusive parte das razões que explicam tamanha crise é a enorme desigualdade que estrutura a sociedade brasileira, aspecto indissociável do capitalismo que Coimbra tanto bajula.

E o que Eike Batista tem a ver com isso? Bastante coisa! A linha de cordão é longa, mas sua riqueza foi usurpada do povo brasileiro. Com segredos oriundos do conhecimento privilegiado do pai, que foi presidente da Vale do Rio Doce, conseguiu mapear boa parte do território brasileiro para se tornar um dos donos de algumas das maiores mineradoras e exploradoras de petróleo no país. Foi com o suor e sangue de muitos trabalhadores que construiu sua riqueza. Foi assim que saiu nas capas da Veja e no instagram do Luciano Huck.

Tudo isso, sim, com a conivência e os gestos de honra de Lula e do governo do PT. Lhe concederam, junto à grande mídia, a áurea de brasileiro exemplar. Agora eles se sentem culpados, mas não o suficiente para não sentir pena. É aquela velha história, bandido bom não é bandido morto, bandido bom é bandido rico. No Brasil, a nossa elite, ou sujeitos que se pensam da elite como o figura do Zero Hora, exalta a riqueza como símbolo de sacrifício pessoal, como se as cifras bancárias tivessem sido acumuladas pelo esforço individual. É aquela coisa, não caberia bilionário no Brasil se a história da meritocracia fizesse sentido. O povo brasileiro é trabalhador, e muito. E justamente porque a riqueza produzida lhes é expropriada, algumas poucas pessoas ficam ricas, como o próprio Eike Batista, enquanto outras ficam pobres. Essa é a matemática do capitalismo que Coimbra tanto zela.

Como se não bastasse, ele não só bestializa os pobres em sua coluna, como exige mais punição. Acontece, David, que a juventude pobre brasileira já é punida todos os dias com falta de saúde, educação, lazer, esporte e transporte públicos e de qualidade. Não se resolve o problema da desigualdade, da crise carcerária e da criminalidade, criando mais presídios e aprofundando a punição, como ele propõe também em outro texto (chega ao disparate de dizer que o Brasil precisa de mais presídios do que universidades). Trata-se de um problema muito mais profundo, com rastros que datam desde a escravidão brasileira. Mas assim como a violência da elite também existia na época da escravidão, muitos “jornalistas” e “colunistas” que eram pagos para justificar ideologicamente os absurdos da escravidão também existiam no século XIX. O Zero Hora da época contava com teses “científicas” que explicavam como o negro era intelectualmente inferior, possuía o cérebro menor, era afeito às tarefas domésticas e manuais, etc. - os “doentes incuráveis” do Brasil escravagista.

Denunciar esse tipo de pensamento é necessário. Por trás das palavras de Coimbra, reside toda uma ideologia que visa satisfazer ainda mais os interesses de uma minoria possuidora. Por isso denunciamos, por isso dizemos que esse tipo de pensamento só tem lugar no passado. Ademais, nenhuma confiança nessa justiça que, ao passo em que se veste de heróica ao prender ladrões como Eike Batista, conserva a maior população carcerária do mundo sob um regime violento, segregacionista e racista.




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