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Coletes Amarelos: Para que Macron se curve, é preciso ampliar o movimento e estruturá-lo pela base

O segundo ato da mobilização dos Coletes Amarelos mostrou a persistência e a determinação do movimento, mas também a necessidade, se quisermos fazer o governo retroceder, de ampliá-lo e estruturá-lo pela base, de forma democrática e ao lado dos trabalhadores e estudantes das grandes cidades.

segunda-feira 26 de novembro| Edição do dia

Manobras de Castaner e Le Pen

O discurso do governo, na pessoa de seu ministro do interior Christophe Castaner sobre a queda dos números de manifestantes em comparação a 17 de novembro e buscando assimilar todo o movimento e sua radicalização para Marine Le Pen é uma tentativa vã de minimizar a explosão de raiva social que emerge das profundezas das fraturas sociais e das injustiças cultivadas há anos.

No entanto, a inegável realidade daquele dia, para quem esteve, por exemplo, na Champs-Elysees (e isso, até mesmo a maioria dos jornalistas admitem), é que não foi, de forma alguma, uma operação de arruaceiros infiltrados (ainda que houvesse alguns, de grupelhos de extrema-direita) que teriam tomado as forças da ordem. O que nós assistimos foi, ao contrário, mais uma etapa da radicalização de uma parte considerável do movimento, diante da obstinação do governo em manter sua agenda antissocial custe o que custar. Os Coletes Amarelos apenas demonstraram, assim, uma grande determinação em exercer o seu direito de protestar, apesar da proibição, disputando o espaço das ruas com a CRS (em francês, Compagnie républicaine de sécurite, ou Companhia Republicana de Segurança, em tradução livre, órgão da polícia nacional francesa) até de noite, resistindo ao gás e às bombas, e erguendo barricadas, e isso em um contexto em que a maior parte do movimento permaneceu nas regiões e manteve as ações de bloqueio.

A operação do governo visa a dividir o movimento entre os chamados arruaceiros de extrema-direita e os manifestantes pacíficos, a fim de enfraquecê-lo e impedir a junção com outros setores. Por seu turno, Le Pen pretende capitalizar a mobilização para fins eleitorais, tão logo esta esteja encerrada, e é por isso que procura se apresentar como amiga dos Coletes Amarelos. É nesse sentido que o dia de ação no sábado também coloca uma série de questões a seguir, particularmente no que diz respeito à necessidade de ampliar e estruturar o movimento.

Por comitês de ação que estruturem, controlem e ampliem o movimento pela base
Um movimento que tem um forte componente de espontaneidade, mas que, para fazer o governo retroceder, terá que se organizar mais, expandir e desenvolver uma estratégia de luta.

A questão dos métodos de luta já está colocada abertamente entre os Coletes Amarelos, entre aqueles que privilegiam os bloqueios de vias e aqueles que preferem mirar as grandes empresas ou instituições do Estado, entre aqueles que estavam prontos para lutar e aqueles que achavam que os confrontos com a polícia podiam se voltar contra o movimento. Isso sem mencionar alguns atos racistas que tiveram lugar à margem das mobilizações dos Coletes Amarelos e que devem ser combatidos firmemente.

A única maneira de resolver todos esses problemas é estruturando e organizando a mobilização pela base, democraticamente, a partir de assembleias gerais e comitês de ação locais que decidam as ações a tomar, como colocar o posicionamento da mobilização e como coordenar com os outros comitês locais.

Esses comitês de ação locais permitiriam também construir a unidade com outros setores que compartilham a luta contra o governo de Macron, como trabalhadores e sindicalistas combativos das cidades e estudantes em luta contra a seleção para entrada nas faculdades e os aumentos das tarifas educacionais. As primeiras ações de convergência que ocorreram esta semana e, especialmente, a chegada de uma delegação de ferroviários à manifestação na Champs-Elysées no sábado (24) constituem passos importantes nessa direção, que terão de ser multiplicados e perpetuados, apesar da atitude divisionista das direções sindicais em nível nacional.

Além disso, comitês de ação que reúnam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados (como a maioria dos Coletes Amarelos) seriam uma ferramenta espetacular para livrar o movimento trabalhista de todo o conservadorismo e para combater o obstáculo que as direções sindicais representam hoje à generalização da luta, pelo método da greve, em direção a uma greve geral que seria a única capaz de transformar em realidade o grito: “Macron, renuncie!”, entoado pelos Coletes Amarelos nas manifestações.

O estabelecimento desse tipo de estrutura seria, finalmente, a melhor maneira de evitar qualquer tipo de instrumentalização por forças da extrema-direita, de combater os preconceitos reais que possam existir entre os Coletes Amarelos, assim como de assegurar que o posicionamento tomado pelo movimento seja o da base em luta e não o de “porta vozes” ou “iniciadores” autoproclamados e controlados por pessoas como Frank Buhler. A mobilização deve pertencer àqueles que a constroem!

Créditos das imagens: A.P.
Tradução de Paula Almeida.




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