Teoria

A 80 ANOS DA GUERRA CIVIL

Classe, partido e direção à luz das lições da revolução espanhola

Antonio Liz e Santiago Lupe debatem na Escola de Verão do Esquerda Diário sobre as principais lições da revolução espanhola e a tarefa chave de construção de partidos revolucionários.

quarta-feira 20 de julho de 2016| Edição do dia

O dia de domingo da Escola de Verão internacionalista e revolucionária de Izquierda Diario, Rèvolution Permanente y Klasse gegen Klasses (diários europeus da rede internacional Esquerda Diário, esteve dedicada a abordar importantes debates em torno da estratégia e a construção de partidos revolucionários. Pela manhã, houve um seminário que abordou essa questão a partir do exame das lições da revolução espanhola, que comemora seu 80º aniversário esses dias. A exposição foi feita por Antonio Liz, historiador que acaba de publicar se último livro sobre a II República, a guerra civil e a revolução, e Santiago Lupe, também historiador e dirigente de Clase contra Clase.

Liz começou encorajando os presentes, muitos deles jovens alemães, franceses, estadunidenses e do Estado espanhol, a conhecer a que, para ele, era a maior revolução operária da história. Destacou como, no Estado espanhol, o proletariado contava na década de 1930 com uma força social e organizações muito mais fortes que na Rússia de 1917, e, mesmo assim, sua revolução, ao contrário do caso russo, se perdeu. Conhecer o porquê desta derrota é uma questão chave para todos os que, no século XXI, dispõem-se a acabar com o capitalismo.

Destacou o período mais obscuro da etapa republicana, o biênio negro, resgatando alguns feitos heroicos da classe trabalhadora como a greve geral de Zaragoza, em 1934, que se prolongou durante mais de 30 dias e em que os operários catalães e de outras cidades hospedaram os filhos dos grevistas. E especialmente o outubro asturiano, quando a frente única entre as organizações operárias, diferentemente do que acontecia no resto do Estado, permitiu que se fizesse um primeiro ensaio geral da revolução que se desataria após o golpe de estado de 1936.

Por último, abordou a revolução social desatada em 19 de julho, passando por seus principais momentos, a derrota do golpe, o processo de coletivização e formação de organismos de poder operário e o golpe contrarrevolucionário de maio de 1937 em Barcelona. Liz destacou a todo momento como, nesse período, a classe trabalhadora lutou com enorme energia e determinação em defesa de sua revolução, contra as suas próprias direções, tanto as abertamente contrarrevolucionárias – stalinistas, socialistas e republicanas – como a das organizações que, por meio da participação no governo, respaldaram os decretos contra as conquistas revolucionárias de julho, a CNT e o POUM.

Santiago Lupe prosseguiu a exposição destacando como o que foi dito por Antonio Liz demonstrava que a revolução espanhola era uma das revoluções em que a “bifurcação” entre o heroísmo e a combatividade da classe operária e o papel contrarrevolucionário de suas direções se fez mais “aberta”. Os trabalhadores buscaram insistentemente um caminho para poder vencer, e suas direções operaram a todo momento contra, até ter que afogar em sangue o processo revolucionário nas ruas de Barcelona, em maio de 1937.

Incentivou os presentes a estudar e conhecer a revolução espanhola e as grandes lições que deixou, explicando como boa parte do legado teórico e estratégico de Trotsky encontra-se nos escritos do revolucionário russo sobre a situação espanhola entre 1930 e 1940. Dentre todas elas, destacou a principal, a necessidade e urgência de pôr de pé um partido revolucionário.

Para Trotsky, é em 1931 que se inicia a revolução espanhola, que, diferentemente da russa, prometia ter uma temporalidade muito mais longa. Além das diferenças, a ausência de um partido revolucionário como o bolchevique, tornaria ainda mais tortuoso o caminho das massas à tomada do poder. Essas tinham adiante uma dura experiência com suas direções socialistas e anarquistas, e os revolucionários, o tempo e as oportunidades para construir um partido que desse uma orientação revolucionária aos acontecimentos.

Esta necessidade, que tipo de partido e que tipo de direção para a classe trabalhadora, foi o leit motiv de todas as controvérsias e rupturas entre Trotsky e os dirigentes, primeiro da Esquerda Comunista, e do POUM posteriormente. Reexaminou as principais discussões que realizava o revolucionário russo, de como é débil o internacionalismo da seção espanhola, que debilitava a formação de quadros e a criação de anticorpos para as poderosas pressões nacionais. Ou sobre o método diplomático e baseado em acordos formais com que Nin estabelece relações com Maurín, o dirigente do Bloco Operário e Camponês, partidário de uma política de colaboração com as organizações da pequena burguesia catalã. Como esse último levou a desaproveitar a oportunidade de ganhar os setores do PSOE em via de radicalização, em benefício de um acordo formal com o BOC para fundar o POUM, que tinha sido reprovado no recente “teste ácido” da luta de classes em outubro de 1934, quando esse formação convocou os trabalhadores a se porem detrás do presidente da Generalitat.

Para Lupe, todas essas discussões expressam duas concepções diferentes de partido e, portanto, de estratégia e programa para fazer a revolução, que se expressaram como profundamente divergentes quando a revolução social explodiu e o POUM fez parte dos governos contrarrevolucionários na Catalunha.

Fez uma comparação com o papel do partido bolchevique em 1917, como os quadros formados na intransigência contra os partidos conciliadores nos anos anteriores permitiram que Lenin pudesse endireitar o rumo do partido em abril de 1917 e, mais tarde, esse partido minoritário e que esteve muito isolado politicamente em alguns momentos pudesse ganhar a direção das massas nos soviets. Como o POUM tinha uma lógica contrária, uma educação dos quadros baseada numa luta diplomática e sempre pendente de “não estar isolado das massas” nos momentos de maior ilusão reformista, sem se dar conta de que isso sim o “isolaria” das massas, no sentido de que não seria visto como uma “alternativa” quando estas fizessem sua experiência com suas direções traidoras.

A derrota de maio de 1937 e as intenções de alguns setores do anarquismo de construir uma alternativa política, levantando boa parte do programa que também defendiam os trotskistas, evidenciava que a construção de uma direção revolucionária não é algo que se improvisa em uma revolução, mas se trata de uma tarefa preparatória fundamental prévia.

Terminou com uma reflexão sobre a vigência destas lições na atualidade para aqueles que somos otimistas e temos plena confiança de que a classe trabalhadora voltará a se levantar, superará os obstáculos que hoje a impedem ou limitam sua força, abrirá novas oportunidades históricas para acabar com a exploração e a opressão... e a necessidade de chegarmos preparados com um partido e uma direção revolucionária continua sendo uma tarefa urgente e fundamental. Como contraponto, ressaltou que não é coincidência que todas as correntes que, nos últimos anos, puseram-se atrás de Podemos ou Syriza eram as mesmas que vinham fazendo uma “revisão” em chave poumista das lições da revolução espanhola, que é indicativo de que papel pretendem interpretar nas revoluções de amanhã.

Às exposições se seguiu um intenso debate em que se fizeram perguntas e intervenções sobre o papel do stalinismo na guerra civil, a importância que dava Trotsky aos acontecimentos espanhóis tanto para a revolução no ocidente quanto para a revolução política na URSS, ou quais são as versões hegemônicas na historiografia e no sistema educacional espanhol sobre a revolução espanhola, entre outros temas.




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