Gênero e sexualidade

CONTAGEM REGRESSIVA 8 DE MARÇO - FALTAM 22 DIAS

Clara Zetkin, seus primeiros anos de luta.

Uma das mais importantes organizadoras das mulheres socialistas, em grande parte de sua vida representou as ideias do socialismo e internacionalismo.

Clara Mallo

Madrid

terça-feira 14 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Clara Eissener nasceu em Wierderau, um pequeno povoado saxônico perto de Leipzig. Seu pai, Gottfried Eisner, filho de um operário, conseguiu continuar seus estudos com a ajuda de um pastor protestante e chegou a ser professor. A mãe de Clara, filha de um oficial napoleônico, era uma mulher culta cuja abertura com certeza serviu como exemplo para Clara. Sua mãe tinha contato com duas das primeiras dirigentes do movimento feminista na Alemanha, Luis Otto-Peters e Auguste Schmidt, fundadoras da Associação Geral das Mulheres.

Quando Clara chega à adolescência, a família se muda para Leipzig. Na Alemanha, existiam poucas escolas onde os jovens pudessem continuar seus estudos, isso era possível em Saxônia onde haviam eleito os primeiros deputados socialistas no Reichstag, August Bebel e Wilhen Liebknecht em 1867. Graças às relações de sua mãe, Clara chega a entrar na escola para professores dirigida pela já citada Auguste Schmidt, que reivindicava para as professoras formadas em sua escola igualdade de direitos com os homens.

Na escola, conhece Bárbara, de origem russa, com a qual iniciará uma profunda amizade e será quem a introduzirá em um círculo de estudantes russos emigrados para a Alemanha. Neste mesmo círculo foi onde clara conhece Ossip Zetkin, dez anos mais velho que ela e com quem terá dois filhos. O jovem russo, influenciado inicialmente pelas ideias populistas, havia sido conquistado para o socialismo. É neste ambiente onde clara começa a conhecer as ideias socialistas.

Ao final dos primeiros dez anos de vida do Império, a Alemanha se encontrava em pleno desenvolvimento econômico. O comércio e a indústria se desenvolviam a passos largos, sobretudo em Saxônia. Este desenvolvimento havia conformado também uma grande massa proletária e os setores operários alemães sentiam cada vez mais a necessidade de se organizarem. No ano de 1875, em Gotha, os dois principais setores do movimento operário alemão se unificam conformando o Partido Operário Socialdemocrata da Alemanha, depois Partido Socialdemocrata da Alemanha. O avanço do socialismo preocupava aos partidos burgueses e Bismark impõe as leis antissocialistas que entraram em vigor em Outubro de 1878.

Clara se torna cada vez mais sensível às injustiças sociais muito presentes nos anos de formação do império alemão. Através deste grupo de emigrados russos começa a ter seus primeiros contatos com os socialistas. Antes de entrar em vigor a lei antissocialista, assistia às conferências do próprio Liebknecht, convidada por Ossip.

As ideias socialistas e o internacionalismo começaram a formar parte da personalidade da jovem Clara. Ideias que começavam a se chocar com a própria diretora de sua escola, August Schmidt. A experiência da Comuna de Paris havia sacudido a Europa e o movimento feminista alemão delimitou muito mais suas posições. A inimizade política entre as já ideias próprias de Clara e as de Schmidt tiveram suas consequências. Esta última não facilitou à jovem um posto como professora, chegando a ruptura definitiva entre Clara e Auguste, assim como entre suas ideias.

Nos anos seguintes, Clara verá piorar sua condição de vida e sem poder optar por um posto como professora decidiu ser preceptora. Serão anos, porém, em que aprofundará suas relações com o círculo russo e anos de aproximação com as ideias socialistas.

Mesmo com a repressão, o Partido Socialdemocrata continuava se organizando. Em meio a esse clima de clandestinidade, Ossip se vê obrigado a abandonar a Alemanha, mudando-se para Paris. O mesmo clima empurra Clara a mudar-se para Zurique, onde se rodava o jornal O Socialdemocrata que depois entrava clandestinamente na Alemanha.

O jornal que Clara passa em Zurique será decisivo para seu futuro. Ali conheceu Eduard Bernstein, naquele momento encarregado da edição do Socialdemocrata, jornal da socialdemocracia na Alemanha. Ali em Zurique, Clara assiste às conferências de Bernstein e, com certeza por recomendação de Julius Motteler, contratará Clara. Motteler havia organizado e dirigido um dos primeiros sindicatos mistos da Alemanha que chegou a organizar centenas de trabalhadoras têxteis. Através de Motteler, Clara conheceu as primeiras experiências das trabalhadoras Alemãs pela conquista de seus direitos. Também é neste momento em que Clara conheceu a obra de August Bebel, A Mulher e o Socialismo. Uma obra publicada em 1879 que apesar de sua proibição era mais que conhecido em círculos do marxismo alemão.

Paris, sua escola política

Ossip e ela sobreviviam traduzindo, dando aulas de distintos idiomas e escrevendo artigos para jornais publicados na Alemanha. Os anos de estadia em Paris, como expressou Clara, foram os mais duros de sua vida do ponto de vista material. Mas também foram os anos em que Clara entrou em contato com os dirigentes do movimento operário francês e alemão, se desenvolvendo teoricamente e ideologicamente e se iniciando no marxismo.

Ossip formava parte da direção do grupo russo “Libertação do Trabalho” ao qual a própria Clara aderira. Em Paris formavam parte do grupo de emigrados russos com os que criaram uma infinidade de relações através de sua atividade política. Ali é onde conheceu e iniciou uma grande amizade com Laura e Paul Lafargue, filha e genro de Karl Marx.

Os anos de Paris são anos de formação ideológica e política. Anos de grande esforço e vontade em que teve de superar o cansaço físico da dupla jornada que muito bem conhecia.

As noites eram para ela o único momento em que redigia seus artigos, podia se reunir com seus companheiros de militância e dedicar-se ao estudo do marxismo. Durante os anos em que viveu na França, se dedicou a estudar plenamente a teoria marxista. Um estudo profundo dos principais textos. Pelas suas cartas sabemos que foi nessa época quando estudou o primeiro tomo de O Capital, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, O Manifesto do Partido Comunista. Estudou também a história da Comuna de Paris. Tudo isso lhe ajudou a pensar e discutir problemas que naquele momento atravessavam o movimento operário na França e Alemanha.

Em 1888, Ossip fica gravemente doente e Clara tem que cuidar dele por um longo período de tempo. É difícil imaginar o empenho de Clara nesses anos em que devia ter de suportar uma carga grande enquanto se formava uma das maiores pensadoras e organizadoras do socialismo.

Em Janeiro de 1889 Ossip falece, sua situação pessoal se complica, mas graças à ajuda de seus companheiros alemães consegue manter-se economicamente. Continuará escrevendo, agora mais freneticamente dadas as solicitações de seus camaradas, para os diferentes jornais da época. Em seus artigos tratava de contar ao proletariado europeu as conquistas e particularidades do movimento na França.

Quando nesse mesmo ano se confirma o projeto de celebração de um congresso internacional de trabalhadores que deu lugar à Segunda Internacional, os dirigentes do Partido Socialdemocrata encarregaram à Clara Zetkin a tarefa de representar a socialdemocracia alemã no comitê organizativo do mesmo.

Durante a preparação do congresso, Clara, que até o momento havia se interessado pelo movimento operário em geral e por sua história, começará a estudar a questão da mulher. O comitê organizador do congresso, do qual era parte, havia pedido à Clara que elaborasse uma intervenção sobre essa questão. Assim, durante o congresso, em Julho de 1889, apresenta uma intervenção sobre as condições das mulheres trabalhadoras sob o capitalismo. Sua intervenção foi traduzida para o francês e inglês por Eleanor, a própria filha de Karl Marx.

Depois da celebração do congresso e da morte de Ossip, Clara decide voltar para a Alemanha com seus dois filhos. A situação alemã era diferente agora. Em 1890 foram abolidas as leis antissocialistas e depois da renúncia de Bismark, a situação para os socialistas se mostrou muito mais cômoda.

Termina assim uma das épocas determinantes na vida de Clara Zetkin. De Paris sai uma convencida internacionalista. Agora se enfrentará com novos desafios. Com a experiência destes anos entendeu a situação de injustiça social que viviam os trabalhadores e de maneira muito particular das trabalhadoras de toda a Europa. Agora dedicará todo o seu esforço à organização destes, particularmente das mulheres trabalhadoras e as mulheres socialistas.

Tradução Larissa Ribeiro




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