Gênero e sexualidade

DOCUMENTARIO

Clandestinas: “Com a ilegalidade do aborto no Brasil o que banalizamos é a violência silenciosa que essas mulheres sofrem”

sexta-feira 8 de maio de 2015| Edição do dia

Foto: Divulgação

O documentário “Clandestinas”, com roteiro da carioca Renata Corrêa e direção de Fádhia Salomão, traz depoimentos de mulheres e atrizes, sobre as realidade das mulheres que abortaram clandestinamente. São mulheres de várias idades que contam situações de medo, insegurança, riscos que viveram e o que significa para as mulheres no país a criminalização e ilegalidade do aborto.

Recentes pesquisas feitas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ, apontavam ao menos 865 mil casos de abortos feitos no país, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, estipula que 7,4 milhões de mulheres no país já fizeram aborto ao menos uma vez na vida.

O documentário foi lançado ano passado no mesmo momento em que repercutia nacionalmente o escandaloso caso de Jandira Magdalena, trabalhadora que foi morta pelamáfia do aborto no Rio de Janeiro ao realizar um aborto.

Entrevistamos a roteirista Renata Corrêa

O que te motivou a idealizar o documentário?

RC: As estatísticas de morte materna e sequelas em abortos clandestinos no Brasil é alarmante, e o tema ainda é tratado como tabu pela sociedade. Não se fala de aborto, se condenam moralmente as mulheres que o praticou. Quis mostrar que essas são mulheres normais, são nossas mães, nossas amigas, nossas colegas de trabalho.

Um dos questionamentos de setores contra o direito ao aborto é que se for legalizado se tornaria um método contraceptivo. E no documentário uma das questões que as mulheres abordam é sobre a diferença do que significa banalizar o aborto e legalizar o aborto. O que você opina desta questão?

RC: Como se combate a vulgarização e a banalização de qualquer coisa? Com informação de qualidade e sem medo de falar sobre o tema. Nos países onde o aborto foi legalizado, os índices diminuiram. Por que? Pois as mulheres possuem condições de pensar as claras sobre o assunto e não ficam sozinhas no seu desespero. Sabem como funciona o procedimento no seu corpo e tem condições de comparar com as experiências de outras mulheres. Com a ilegalidade do aborto no Brasil o que banalizamos é a violência silenciosa que essas mulheres sofrem na clandestinidade, Banalizamos a morte dessas mulheres.

Como você acha que seu trabalho contribui para a luta pela legalização do aborto?

RC: Meu trabalho e o trabalho de muitas outras militantes feministas com o tema do aborto é colocar esse tema às claras. Deixar que ele veja a luz do dia, é provocar o debate. Quanto mais silêncio, mais coniventes somos com a violência praticada contra as mulheres que abortam. Cada vez que fechamos os olhos mais uma mulher tenta abortar solitariamente colocando sua vida em risco. Quanto mais gente falando sobre o assunto melhor.

Como você acha que o movimento de mulheres deve encarar e organizar a luta pela legalização do aborto no Brasil?

RC: Temos que falar sobre o assunto. Não podemos deixar o aborto ser uma vergonha ou algo a se esconder. Mulheres abortam desde o início dos tempos pelos mais variados motivos, e deixar o assunto nas sombras só faz com que mais mitos e preconceitos cresçam ao seu redor. Com uma sociedade mais esclarecida a respeito do aborto e pressão para que nossos legisladores coloquem o tema em pauta, certamente no futuro teremos uma realidade mais segura para mulheres que desejam abortar.

Veja o documentário:




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