Política

MARIELLE FRANCO

Cinismo de Bolsonaro sobre o caso Marielle: "também estou interessado em saber quem mandou me matar"

Questionado por repórteres, Bolsonaro também relativizou a culpa dos dois PMs apontados na investigação como assassinos de Marielle e Anderson.

terça-feira 12 de março| Edição do dia

Nessa terça-feira, 12, Jair Bolsonaro respondeu a perguntas de repórteres sobre suas posições quanto às recentes prisões feitas na investigação do brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes. Questionado, Bolsonaro afirmou que "não conhecia" Marielle até antes do assassinato, e disse que "é possível que tenha um mandante [para o crime]" e que espera que a investigação chegue "ao mais importante", quem mandou matar. Mas ao mesmo tempo Bolsonaro também pareceu jogar dúvida sobre se os dois presos seriam, de fato, executores do crime. "Espero que realmente a apuração tenha chegado de fato a esse, se é que foram eles os executores, e o mais importante, quem mandou matar".

Os dois presos na operação de hoje foram o PM reformado Ronnie Lessa, e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz. Bolsonaro não é exatamente distante dos suspeitos presos nessa terça-feira. Ronnie Lessa era vizinho de Bolsonaro, morando com ele no mesmo condomínio da Barra da Tijuca. Em residência, aliás, totalmente incondizente com seu salário "legal". Na residência a polícia achou, ainda, um Nissan blindado com um valor estimado de R$120.000,00. O outro PM, Élcio Queiroz, foi apontado como motorista do carro de onde Lessa disparou contra Marielle e Anderson. Ele, que foi expulso da PM em 2016 por fazer segurança para jogos de azar ilegais e possível tráfico de informações a grupos criminosos desde a polícia, já postou uma foto em rede social ao lado de Bolsonaro. Questionado, o presidente disse que tem foto "com milhares de policiais civis e militares, com milhares no Brasil todo", como se não conhecesse nem o sujeito com quem tem uma foto, nem aquele de quem é vizinho.


Élcio Vieira de Queiroz, ex-PM preso, e o presidente Jair Bolsonaro. Reprodução/Facebook

O ceticismo de Bolsonaro é de se esperar do chefe de um clã familiar já notório no Rio de Janeiro por sua proximidade com milicianos e os crimes da polícia. Desde discursos elogiosos, inúmeras honrarias concedidas na ALERJ, e mesmo um absurdo projeto de lei de "legalização" da milícia, a família Bolsonaro tem grande proxímidade com milicianos, incluindo muitos familiares de milicianos condenados trabalhando no gabinete de Flávio Bolsonaro na ALERJ.

A reação de Bolsonaro ao desenvolvimento no caso, então, é condizente com alguém relativamente próximo de muitos envolvidos no assassinato brutal, para não falar da cena geral da milícia no Rio, mas que vê o ódio massivo que esse crime político descarado causou, e ainda causa. Um crime com a marca das "forças da lei", com seus mil laços ao crime e aos grupos de poder do Rio de Janeiro, e que é fortemente identificado como responsabilidade do Estado.

A morte de Marielle e Anderson é uma ferida aberta. Aberta no marco do golpe institucional, e em meio à sanguinária intervenção federal de Temer no Rio de Janeiro, o crime bárbaro chega, agora, a um ano sem respostas. Evidências se acumulam do envolvimento de grandes e poderosos no planejamento do assassinato, levado a cabo pelo que há de pior e mais sangrento da decomposta realidade social carioca, com os quais a burguesia mantém laços sórdidos – e mutuamente benéficos.

O Estado é responsável pelas mortes de Marielle e Anderson. Não só pelo envolvimento direto de seus agente e políticos, mas igualmente por seu fracasso sistemático em entregar às famílias e ao conjunto da população uma resposta para o crime. Agora que se avizinha um ano das mortes de Marielle e Anderson, e todos puderam assistir como a polícia atrapalhou e atrasou a resolução do caso mais do que nunca, é urgente levarmos a cabo uma luta massiva, profunda, exigindo que haja uma investigação independente.

Uma investigação independente com os parlamentares do PSOL, organismos de direitos humanos, representantes dos sindicatos, intelectuais especialistas na crise social do Rio de Janeiro e outros setores que tenham legitimidade popular. O Estado deve garantir recursos para essa investigação independente. Acesso aos arquivos de investigação, contratação de peritos independentes, participar das produções de provas, entrevista com as testemunhas e ter acesso a todo o tipo de informação por parte do Estado!

A demora e a falha nas investigações não são meramente acidentais. O "sumiço" de provas, as brigas internas, a demora para elucidar temas, tudo em uma investigação que corre em completo segredo de todos, tudo isso converge em um crime sendo investigado pelo mesmo Estado que, já se sabe, está ligado ao crime. Por isso que devemos levantar a luta por uma investigação independente. Contra os grupos por trás da morte de Marielle, força nas ruas exige e deve seguir exigindo, justiça.




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