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Cinco chaves para entender a grande mobilização operária na França

Cinco chaves para entender a grande mobilização operária na França

5 chaves para entender as forças motrizes do movimento de greve na França, e pelo que batalham os revolucionários socialistas.

1. A maior greve desde 1968: Hoje a greve dos transportes na França completa 46 dias. É a mobilização mais longa desde 1968 e já superou há tempos a mobilização que derrotou a reforma da previdência de Alain Juppé. De forma semelhante, a atual mobilização se dá contra a reforma da previdência do atual presidente Macron, que pretende aumentar a idade mínima de 62 para 64 anos e unificar os 42 regimes de aposentadoria.

Iniciou-se no dia 5 de dezembro, quando 1.5 milhoes de pessoas foram a rua em toda a França, numero repetido nas jornadas de luta dos dias 17/12 e 9/01. Também houve outros dias importantes de mobilização. No entanto, o setor dos transportes (SNCF de ferrovias e RATP dos transportes de Paris) assumiu a vanguarda do movimento, levando uma greve indefinida, que bravamente conseguiu atravessar o recesso de Natal e ano novo e mesmo com os "transtornos", contam com apoio da maioria da população segundo pesquisas de opinião. Sem receber seus salários, os grevistas organizam um caixa de greve que, apenas em doações virtuais, conseguiu mais de 1 milhão de euros. Nos últimos dias, a greve tem conseguido novas adesões, como de trabalhadores de refinarias e de uma usina nuclear.

2. A mobilização na França recoloca em cena a centralidade da classe operária: O movimento atual coloca em primeiro plano a centralidade da classe operária. Contra as teorias que preconizavam seu fim, os operários franceses mostram como ocupam as posições estratégicas dentro da produção, causando a paralisação dos transportes, o corte de luz a prédios públicos - redistribuído aos mais pobres -e ameaçando a França de ficar desabastecida.

O poder da classe operária é tao forte que conseguiu que Macron recuasse em alguns aspectos como a idade mínima. Isso mostra o potencial hegemônico que a classe operária pode cumprir.

3. A radicalização incorporada dos Coletes Amarelos: Uma das características distintivas do movimento atual é que a radicalidade expressa no movimento dos Coletes Amarelos em 2018 foi absorvida pelos trabalhadores. Isso quer dizer que os operários não aceitam mais de forma passiva as negociatas e manobras de suas direções sindicais burocráticas, tendo como lema "a greve é dos trabalhadores". Buscam muito mais que a derrubada da reforma da previdência: querem uma nova sociedade para as gerações futuras e isso é reconhecido pelos próprios analistas burgueses. Além disso, o movimento também foi marcado por fortes enfrentamentos com a polícia como ficou evidente no último dia 9.

4. O obstáculo mais duro para derrubar a reforma de Macron é a burocracia sindical: Nesse movimento também fica evidente o papel nefasto das burocracias sindicais. A CFDT, central mais pelega, chamou a trégua durante o recesso de natal e fim de ano e defende praticamente todos os pontos da atual reforma, só pedem a retirada da mudança da idade minima. Já a CGT, ainda que não tenha diretamente chamado à trégua (devido a pressão das bases), aposta na greve apenas como elemento de pressão para conseguir negociar em melhores termos com Macron. Não dão nenhum apoio à autoorganização pela base dos trabalhadores e a ação de sua direção consiste basicamente em convocar jornadas de luta separadas. Está claro que a derrubada dos ataques neoliberais do imperialismo francês passa pela superação das burocracias que ossificam e anulam as organizações operária de massas, como os sindicatos, que precisam ser recuperados como instrumentos de luta e organização dos trabalhadores.

5. A autoorganização pela base precisa se desenvolver rumo à construção de um partido revolucionário: No sentido oposto ao das burocracias, tem sido a Coordenadora SNCF-RATP. Estimulando a autoorganização desde a base e a coordenação de ações entre distintas categorias e estudantes (enviando delegações para conversar com trabalhadores de outros setores, fazendo mobilizações em comum etc.), a coordenadora - que contava antigamente só com os trabalhadores da RATP e SNCF - ganhou a adesão dos trabalhadores das refinarias francesas.

Impulsionando fortemente essa iniciativa está a CCR (grupo irmão do MRT na França). Um de seus integrantes e trabalhador da SNCF, Anasse Kazib, tem se tornado um grande porta voz do movimento e das decisões tomadas pelos trabalhadores desde a base. Dentre outras coisas, deixou em ridículo uma funcionária de Macron numa discussão em rede nacional, fato que foi aclamado pelos trabalhadores e cujo vídeo teve milhões de reproduções. Além disso, tem sido chamado para vários outros programas de televisão participando das mobilizações não só dos transportes, mas também das refinarias, das fábricas etc. A CCR defende que a determinação dos grevistas precisa de um plano para vencer e a necessidade de se construir um partido revolucionário de trabalhadores e derrotar Macron e os capitalistas, derrubando esse sistema que não tem nada a nos oferecer além de regressão social.

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