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Cid Gomes e PDT: oposição a Bolsonaro, mas com uma agenda privatista e entreguista

quinta-feira 25 de junho| Edição do dia

Cid Gomes e seu irmão, Ciro Gomes, se gabam de fazerem uma oposição alternativa ao PT contra Bolsonaro. No entanto, por diversas vezes, atuam em prol da agenda neoliberal e até do ultraliberalismo de Paulo Guedes. O exemplo mais recente foi ontem, quando o senador Cid Gomes votou à favor do marco legal do saneamento, abrindo o controle das riquezas naturais para empresas capitalistas privadas e monopólios extrangeiros.

O marco legal do saneamento foi pautado por outro Senador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB). Jereissati e os Gomes (Cid e Ciro) são nada menos do que ex companheiros de partido, tendo Tasso e Ciro sido governadores do Ceará. Em seus “arroubos” demagógicos contra Bolsonaro, Cid e Ciro apostam que seus apoiadores esqueçam-se de quando Ciro foi ministro da Fazenda e participou de um governo que inaugurou diversos ataques neoliberais como parte da agenda de Itamar Franco em 94, ou mesmo dos seus desmandos como governador no Ceará.

Cid Gomes vem nos lembrar a trajetória neoliberal dos dois irmãos, votando no marco legal do saneamento que impede que municípios e estados contratem diretamente empresas estatais para fazer o serviço que sempre fizeram. Abrem espaço para empresas capitalistas transformarem o saneamento e a distribuição da água em lucro. Não há dúvidas de que, regionalmente, quem mais vai sofrer com isso é justamente a população do Nordeste que os elegeu.

Leia aqui: Senado aproveita a pandemia para privatizar a água, "Senador Coca-Cola" foi o relator

O atentado miliciano sofrido por Cid Gomes ainda este ano, quando avançou contra policiais militares amotinados que aterrorizavam a população sobralina são com certeza prova de que Cid e Ciro são oposição ao autoritarismo miliciano que sustenta a figura de Bolsonaro. No entanto, as diferenças no plano econômico não são tão exacerbadas assim. Se Ciro e Cid gostam de encher a boca para falar do entreguismo de Bolsonaro através da figura de Paulo Guedes, eles mesmos, os irmãos Gomes, se mostram entreguistas à sua própria maneira.

Em 2000, a Bolívia enfrentou a guerra da água, conflito caracterizado pela população se levantando contra o monopólio das riquezas nacionais que estavam sendo exploradas pela norte-americana Brechtel, com tarifas caríssimas para entregar a água que pertence ao povo, explorando as riquezas hidrominerais. Na Bolívia, o que ocorreu foi nada menos do que o resultado de uma política entreguista tal qual esta que foi aprovada pelo Senado Brasileiro com 65 votos – incluindo o de Cid e de outros parlamentares do PDT inclusive. Se Cid e Ciro são mesmo estes supostos defensores da soberania nacional que dizem ser, porque Cid votou por um marco legal que dá abertura para que futuramente o Brasil repita o que ocorreu na Bolívia?
Ao contrário, o pseudo contra-entreguismo de Ciro e Cid não passam de balela. Ao invés de ficar do lado dos trabalhadores das empresas públicas da água e saneamento, seu voto vai à favor das empresas privadas monopolistas, da Nestlé, da Coca-cola etc. Foram no sentido oposto, por exemplo, dos trabalhadores da Cedae que ontem mesmo faziam manifestação contra a privatização da empresa por Witzel.

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Cid mostra com isso como é falsa a estratégia de “frente ampla” contra Bolsonaro, já que dentro desta Frente Ampla defendida pelo PT, PCdoB e amplo setor de parlamentares e figuras do PSOL (como Marcelo Freixo e Guilherme Boulos), cabe espaço para todo tipo de “anti-bolsonarismo”, inclusive oposicionistas burgueses e privatistas, com uma agenda com poucas diferenças daquela de Paulo Guedes até – ao invés de privatizar tudo de uma vez, querem ir privatizando aos poucos, representando apenas uma divergência dentre os interesses da classe capitalista, nenhum interesse dos trabalhadores. Juntos votaram também outros Senadores de partidos da tal "frente ampla", da Rede e do PSB.

Nesta mesma votação, os senadores do PT todos votaram contra a proposta, mas alguns deles deixaram claro em declarações dizendo que não são contra a entrada da iniciativa privada dentro da área do saneamento: “O PT acredita que é o investimento público, associado ao investimento privado, que pode fazer a mudança, a transformação para garantir saneamento para toda a população”, disse o líder do PT no Senado, Rogério Carvalho, ao declarar o voto da bancada

Ao invés de uma frente-vale-tudo, os trabalhadores precisam apostar numa frente com independência de classe, só assim é possível ter força para barrar os projetos de entrega dos recursos naturais em plena pandemia, e fazer com que esta crise da pandemia e a crise econômica não seja descarregada nas costas dos trabalhadores. Apoiar mobilizações como a da Cedae, como a dos entregadores de aplicativo que ocorrerá neste dia primeiro é o dever de casa da esquerda que realmente quer construir uma oposição à este governo, ao invés da alternativa do “mal menor” que vem levando as massas trabalhadoras a um beco sem saída.




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