Cultura

CRÔNICA

Chinelo de dedo na ferida

Periferia. Um jovem acorda mais um dia sem saber ao certo. Não, não ocorreu nenhuma metamorfose, tudo continua igual. Ontem, hoje, amanhã, tanto faz. Nem estuda, nem trabalha. Acordar ou dormir para que? Filho de desempregado alcoólatra e empregada doméstica, ele olha para trás. A casa está pendurada pelo pescoço.

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Vai para a rua. O cenário é o de sempre e a cena é a mesma. Faz tempo que ele não sai da "quebrada". A rua é estreita e cheia de gente. O mundo parece maior pela televisão. Como sempre ele se pergunta, o que fazer? Alguém chega com uma cachaça barata. Tem cocaína e crack na esquina, basta ter dinheiro. Feliz é o padre do balão...

A policia mata direto. Desenharam o sinal do Batman com o sangue do moleque dali de cima. O corpo furado de bala eles deixam jogado por aí. Tem policial estuprador, ninguém fala, mas tem. Eles enforcam a gente. O pastor grita até doer o ouvido e só fala de inferno e doação. O político apareceu depois de quatro anos pedindo voto. Vida besta. O jeito é esperar para ver. Ver o que? De uns tempos para cá tem bebido bastante. Tá fumando "pedra", disse a vizinha.

Estréia mesquinha no crack, não teve fogos de artifício, só a fumaça mesmo, que não tem nada de mais. Daqui um tempo ele já era. Detenção? Tá novo ainda. A FEBEM mudou de nome mas o endereço é o mesmo. Tem uma cova rasa reservada naquele matagal ali... Ganhou uma estrelinha no dia do vencimento. Chinelo de dedo na ferida.

Pode deixar que na próxima semana passada vai ser melhor.

Vai dormir ou acordar para que? Porra! Caralho! O IML chegou mais uma vez atrasado.

Tem pedra no sapato, tem sapato "pendurado" no aguardo. Vai para a igreja, logo mais te enviam o boleto. Tem eleição daqui a pouco. O policial tem seus negócios, vive de matar a gente. Na perícia do INSS disseram que a doença é grave. Encostado na parede ele pensa..




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